A China quer conquistar o público brasileiro pelo cinema, mas ainda está chegando lá
Paulo Menechelli
Resumo: A China usa o cinema como ferramenta de política externa no Brasil, com festivais e mostras proliferando. Mas a bilheteria conta outra história: filmes chineses representam apenas 1% do mercado. A recente ratificação pelo Senado do acordo de coprodução pode ajudar a mudar esse cenário.
“Primeira mostra de cinema chinês foi sucesso de público”. Minha primeira reação ao ver essa manchete foi imaginar que se trataria de mais um festival em uma grande capital do país. Mas não: fala-se da Primeira Mostra de Cinema Chinês de São Carlos, uma cidade de cerca de 250 mil habitantes, no interior de São Paulo (Cidade de São Carlos 2026). A iniciativa, fruto de parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da cidade e o Instituto Confúcio da Unicamp, ilustra bem as dinâmicas que analisei em artigo publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (Menechelli 2025).
O artigo examina como a China usa o cinema como ferramenta de soft power no Brasil, analisando como coprodução, festivais e iniciativas dos Institutos Confúcio contribuem para uma estratégia cultural mais ampla na América Latina. O argumento central é que, embora esses esforços tenham criado oportunidades reais de intercâmbio, sua efetividade depende de navegar as complexidades da relação bilateral, de dialogar com as especificidades da cultura brasileira, e, sobretudo, de competir com a dominância consolidada de Hollywood.
Os eventos recentes ilustram o alcance dessa estratégia. Em 2024, o Festival Internacional de Cinema de Pequim escolheu o Brasil como país convidado de honra, exibindo filmes brasileiros e promovendo trocas diretas entre cineastas dos dois países. No mesmo ano, a abertura do Festival de Cinema Chinês no Rio de Janeiro – organizado diretamente pela China Film Administration, com sessão de estreia no Cine Odeon com 504 lugares lotados – coincidiu com a assinatura de dois memorandos de entendimento durante as reuniões culturais do G20 em Salvador, prevendo coproduções, intercâmbio de profissionais e cooperação em preservação audiovisual.
E os eventos continuam a crescer. Em outubro de 2025, a Mostra de Cinema Chinês de São Paulo, organizada pelo Instituto Confúcio na Unesp, chegou à sua 10ª edição, com dez filmes inéditos no Brasil e, pela primeira vez, itinerância pelo interior paulista. Em março de 2026, São Paulo recebeu a Semana do Cinema Chinês-Shanghai, organizada pela Administração de Cinema de Shanghai, com a presença do cônsul-geral chinês, do secretário executivo de Cultura do Estado e mais de duzentos representantes de governos e instituições culturais (Consulado-Geral da China em São Paulo 2026). E, em maio, São Carlos realizou sua primeira mostra, com a qual abri este texto.
Esse esforço, no entanto, se desdobra dentro de uma paisagem audiovisual fortemente marcada pela presença hollywoodiana. Os dados contam essa história com precisão: entre 2009 e 2019, filmes chineses representaram apenas 0,73% das estreias nos cinemas brasileiros e 1,08% da bilheteria (Menechelli 2025). Em 2024, dos vinte filmes mais vistos no país, 17 foram estadunidenses ou coproduções lideradas por estúdios de Hollywood – os 3 restantes são brasileiros, sendo um deles, o Ainda estou aqui, uma coprodução com a França (ANCINE 2024). Mesmo o cinema brasileiro luta por espaço na hora de vender ingresso. Para o cinema chinês, o desafio é estruturalmente mais difícil: ao contrário do que ocorre com os Estados Unidos, em que estudos mostram correlação entre exposição a filmes estadunidenses e percepção favorável do país, o alcance limitado das produções chinesas dificulta que narrativas sobre a China cheguem ao grande público brasileiro.
O paradoxo fica mais visível quando se observa a estratégia global do cinema chinês. Pequim tem apostado em três frentes para ganhar telas no mundo: usar seu poder de mercado para influenciar as produções de Hollywood, atrair talentos hollywoodianos para coproduções genuinamente chinesas, e produzir blockbusters nacionais de grande escala. Nenhuma das três tem funcionado bem fora da China ainda. O caso mais revelador é A Batalha do Lago Changjin (2021): o filme faturou mais de 900 milhões de dólares no mundo, mas 99,65% desse valor veio do próprio mercado chinês. Já Mulan, a grande aposta de coprodução com Hollywood, gerou resistência tanto do público ocidental quanto das autoridades chinesas, um exemplo dos limites de tentar atender as duas audiências ao mesmo tempo.
É por isso que festivais e mostras importam tanto para a estratégia chinesa; e também por isso que seu alcance real precisa ser visto com clareza. A sala principal da Mostra de Cinema Chinês de SP, no Centro Cultural São Paulo, tem 98 lugares. O Festival ChinaBrasil, criado por um empresário chinês naturalizado e realizado anualmente no Rio desde 2019, exibe doze filmes de graça em cinemas de bairro. Vale notar que esse ecossistema de festivais tem origens bastante diversas: há eventos diplomáticos organizados diretamente pelo governo chinês, mostras acadêmicas ligadas a Institutos Confúcio universitários, e iniciativas privadas como o Festival ChinaBrasil, além de casos notáveis como a Mostra de Cinema Chinês do Instituto CPFL, em Campinas, que existe desde 2016 e é viabilizada pelo patrocínio da CPFL Energia, empresa cuja participação majoritária foi adquirida pela estatal chinesa State Grid em 2017. São iniciativas valiosas, mas que alcançam um público específico – quem já está interessado – e não competem com o circuito comercial dominado pelos blockbusters hollywoodianos.
Uma exceção interessante é o Looking China Youth Film Project, que já levou mais de 1.100 jovens de 102 países à China para produzir documentários sobre o cotidiano chinês. Entre eles, estudantes brasileiros da USP, como Davi Pina Barros, que filmou um professor preservando estátuas budistas, e Letícia Kamiguchi, que documentou a vida familiar tradicional (Menechelli 2025). Esses filmes, produzidos a partir do contato direto com comunidades chinesas, oferecem ao público brasileiro perspectivas sobre a China que raramente aparecem nos meios de comunicação convencionais. Além disso, ao inspirar jovens cineastas a explorar temas chineses, o projeto cultiva futuros profissionais que podem contribuir para uma imagem mais plural do país. É o que minha pesquisa, em conjunto com Pablo Morales, chamou de “diplomacia documental”: uma forma de construção de narrativas que depende menos da escala e mais da profundidade do engajamento (Morales e Menechelli 2025). Pesquisa empírica com 908 brasileiros confirma que a exposição a filmes influencia positivamente a percepção de um país, o que sugere que esse tipo de iniciativa tem potencial real, mesmo que seu alcance ainda seja limitado (Guan et al. 2023).
O problema mais estrutural é político. O Acordo de Coprodução Cinematográfica entre Brasil e China, assinado em 2017 para permitir que filmes feitos em parceria sejam tratados como produção nacional nos dois países – o que abriria caminho para acessar o mercado chinês contornando suas cotas de exibição –, levou quase sete anos para ser enviado pelo Executivo brasileiro ao Congresso. A demora reflete menos falta de vontade dos dois lados e mais a instabilidade do Ministério da Cultura brasileiro, que foi extinto e recriado mais de uma vez entre os governos Temer, Bolsonaro e Lula.
A novidade é que isso acaba de mudar. No dia 9 de julho deste ano, o Plenário do Senado ratificou o acordo, quase uma década depois de assinado (Agência Senado 2026). Ele prevê que produções realizadas em parceria tenham acesso a incentivos fiscais e financeiros em ambos os países, com participação de cada lado entre 20% e 80% do custo total, facilitação de vistos para equipes técnicas e isenção de tarifas de importação temporária para equipamentos. Para uma produtora brasileira, o que isso significa concretamente é acesso ao maior mercado de salas de cinema do mundo – a China ultrapassou os Estados Unidos em número de telas ainda em 2016 – com o mesmo tratamento dado a uma produção nacional chinesa: acesso a financiamento público, distribuição sem as cotas que limitam os filmes estrangeiros e visibilidade equivalente à dos filmes locais. É uma janela que dezesseis países, incluindo Reino Unido, França e Canadá, já exploram há anos. Trata-se de avanço concreto, que chega num momento em que o calendário bilateral está mais movimentado do que nunca.
O que São Carlos, os filmes de estudantes da USP rodados na China e a ratificação do acordo de coprodução têm em comum é que todos apontam para a mesma direção: o interesse mútuo existe, o esforço institucional cresceu, e os instrumentos legais começam a ser colocados em prática. A pergunta que minha pesquisa tenta responder – e que só o tempo vai confirmar – é se esses elementos vão se traduzir em presença real nas telas brasileiras, ou se o cinema chinês continuará a conquistar o público, mostra por mostra, cidade por cidade, numa sala de 98 lugares de cada vez.
Referências
Agência Senado. 2026. “Acordo de coprodução de cinema com a China é aprovado em Plenário”. 9 de julho de 2026. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/07/09/acordo-de-coproducao-de-cinema-com-a-china-e-aprovado-em-plenario.
ANCINE. 2024. Anuário do Audiovisual Brasileiro 2024. Brasília: ANCINE. https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/arquivos.pdf/anuario-do-audiovisual-brasileiro-2024r.pdf/@@display-file/file.
Cidade de São Carlos. 2026. “Primeira mostra de cinema chinês foi sucesso de público”. https://saocarlos.sp.gov.br/index.php/noticias-2026/180973--primeira-mostra-de-cinema-chines-foi-sucesso-de-publico.html.
Consulado-Geral da República Popular da China em São Paulo. 2026. “Semana do Cinema Chinês - Xangai no Brasil 2026”. 9 de março de 2026. https://saopaulo.china-consulate.gov.cn/pl/xwdt/202603/t20260309_11871610.htm.
Guan, Miaofang, Fabrício H. Chagas-Bastos, e Marislei Nishijima. 2023. “Winning Hearts and Minds: Soft Power, Cinema, and Public Perceptions of the United States and China in Brazil”. Global Studies Quarterly 3 (2): 1-10. https://doi.org/10.1093/isagsq/ksad029.
Menechelli, Paulo. 2025. “Cinema as Soft Power: China’s Strategic Narratives in Brazil”. Revista Brasileira de Política Internacional 68 (2): e016. https://doi.org/10.1590/0034-7329202500216.
Morales, Pablo S., e Paulo Menechelli. 2025. “China’s Documentary Diplomacy in Latin America: A Win-Win Approach?”. Journal of Public Diplomacy 5 (1): 23-45. https://doi.org/10.23045/jpd.2025.5.1.002.
Paulo Menechelli é doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e pesquisador do Centro de Estudos Globais (CEG/UnB). Especialista em diplomacia cultural e soft power da China, sua pesquisa ganhou Prêmio de Melhor Tese em Ciências Humanas da UnB (2024) e recebeu Menção Honrosa no Prêmio Nacional de Teses da ABRI (2024). Este texto se baseia no artigo “Cinema as soft power: China’s strategic narratives in Brazil”, publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI) em 2025.
