A China e a nova “desordem sob o céu”
Paulo Antônio Pereira Pinto
Rio de Janeiro, em 4 de maio de 2022.
A visita do Secretário-Geral da ONU, Antônio Guterres, a Moscou, no final de abril, retomou a pauta da resolução do conflito entre a Rússia e a Ucrânia pela via multilateral. É mantida, no entanto, a hipótese — considerada por muitos — de vir a ser a China a possível mediadora do conflito.
Observadores mais prevenidos, contudo, podem considerar oportuna a reflexão sobre o relacionamento, durante passado recente, da RPC com a União Soviética, no âmbito da Organização das Nações Unidas, bem como quanto à possibilidade de Moscou e Pequim, agora, tornarem-se “best friends”.
Lembro a propósito, que, em discurso pronunciado na Assembleia Geral da ONU, em 10.04.1974, Deng Xiaoping, então Vice Primeiro-Ministro da República Popular da China, declarou que: “Relações internacionais estão mudando drasticamente. O mundo todo está em estado de turbulência e inquietação. A situação é a de ‘grande desordem sob o céu’ como a descrevemos, nós os chineses. A ‘desordem’ é a manifestação do agravamento das contradições básicas do mundo contemporâneo.”
Segundo Deng — o último “grande timoneiro da RPC”, como se referem a ele alguns estudiosos — na “grande desordem sob o céu”, forças políticas do mundo “sofrem divisões drásticas e realinhamentos derivados de prolongados testes de força e conflitos.”
Durante as décadas de 1970 e 1980, como se sabe, o cenário internacional era bipolar, centrado em Washington e Moscou. De acordo com classificação adotada no Ocidente, o planeta era dividido em “Três Mundos”. Os países industrializados de economia de mercado eram incluídos no Primeiro Mundo. Os de sistema econômico centralmente planificado participavam do Segundo. Os em desenvolvimento eram despachados para o Terceiro.
Durante a fase maoísta, no entanto, os chineses tinham visão própria a respeito. Para eles, o mundo estaria dividido em duas partes antagônicas — a metade que apoiava ideologicamente o bloco soviético, e a outra que a ele se opunha, incluindo a China. A política externa da China seguia este esquema com rigidez. Assim, seria pressuposto que tudo o que pudesse prejudicar os interesses de Moscou seria favorável a Pequim.
Sob a liderança de Deng Xiaoping, (servi em Pequim, entre 1982 e 85) a postura chinesa tornou-se mais pragmática no plano externo. A concepção maoísta dos “Dois Mundos” foi sendo radicalmente modificada, com a transformação da visão chinesa do sistema internacional. Pequim passou a defender sua própria teoria dos “Três Mundos”.
Por ocasião do já citado discurso pronunciado na Assembleia Geral das Nações Unidas em 10.04.1974, Deng, elaborara sobre o conceito, ao afirmar que: “No momento, a situação internacional é mais favorável aos países em desenvolvimento. Mais e mais, a velha ordem sustentada pelo colonialismo, imperialismo e hegemonismo está sendo destruída e abalada em suas fundações. Relações internacionais estão mudando drasticamente. O mundo todo está em estado de turbulência e inquietação. A situação é a de ‘grande desordem sob o céu’ como a descrevemos, nós os chineses. A ‘desordem’ é a manifestação do agravamento das contradições básicas do mundo contemporâneo. É a aceleração da desintegração e declínio e decadência de forças reacionárias e o estímulo ao despertar e crescimento de novas forças populares”.
No momento em que pronunciou seu discurso, e como resultado da emergência do “sócio imperialismo” (que delícia de termo para descrever a hegemonia soviética sobre seus “satélites”), o campo socialista, que existia desde a conclusão da Segunda Guerra Mundial, não mais perduraria.
O “último grande timoneiro” afirmava, ainda, que devido à lei do “desenvolvimento desigual do capitalismo”, o bloco imperialista ocidental também estava se desintegrando.
“A julgar pelas alterações nas relações internacionais, o mundo atual consiste em três partes, ou três mundos, que são tanto interconectados quanto contraditórios. Os Estados Unidos e a União Soviética formam o Primeiro Mundo. Os países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina integram o Terceiro Mundo. Os desenvolvidos — sejam os do mundo capitalista ou do socialista — formam o Segundo Mundo”, esclarecia.
De acordo com seu ponto de vista, “as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, procuram em vão conquistar a hegemonia mundial. Cada uma busca, ao seu estilo, trazer os países do Terceiro Mundo a sua esfera de influência, assim como aqueles que, mesmo desenvolvidos, não são capazes de se opor aos desígnios de Washington ou Moscou”.
Enquanto a liderança chinesa alterava seu discurso para justificar o projeto de modernização no plano interno, nova tipologia era aplicada no patamar externo. Pequim assim buscava explicar, a partir da cunhagem de novos conteúdos para os três mundos, sua inserção no cenário internacional.
Em outras palavras, não mais caberia um mundo dividido em duas partes — “a URSS sócio imperialista de um lado, e o resto do mundo, incluindo a RPC, no outro”. Era mais conveniente pensar a partir daquela outra divisão, que colocava a China, com suas práticas modernizantes internas, liderando um Terceiro Mundo em oposição à hegemonia de Washington e Moscou.
Cabe lembrar, a propósito, as razões da ruptura entre Pequim e Moscou na década de 1960. O cisma já existiria, de acordo com estudiosos do assunto, desde a década de 1930. Segundo consta, o Partido Comunista da União Soviética desejava controlar o Partido Comunista Chinês, numa variante do exercício que fazia com partidos comunistas de outros países.
Durante o período da Guerra Fria, os dirigentes soviéticos persistiram nesses esforços. Entre as preocupações russas estava o desenvolvimento da bomba atômica chinesa.
De acordo com especialistas no assunto, as relações bilaterais foram realmente prejudicadas na década de 1960, quando Nikita Khushchev iniciou o processo de “desestalinização” da URSS, bem como a aproximação da União Soviética com o Ocidente. Isso porque, segundo a visão de Pequim, avanços tecnológicos como o lançamento do primeiro “Sputnik” em 1957 indicavam o fortalecimento do mundo socialista. Segundo o linguajar da época, “o vento que vem do Leste prevalece sobre o que vem do Oeste”. Nesse contexto, seria importante para Mao que houvesse maior militância contra a parte ocidental do planeta, não o contrário, como estariam indicando as ações de Moscou.
Pequim demonstrara paciência com Moscou, na medida em que dependia do auxílio da URSS para levar avante a transição do país para o socialismo. Entre 1958–1960, no entanto, foram desencadeadas na China as desastrosas políticas do “Grande Salto Para Adiante” e os conselheiros russos se retiraram, numa demonstração do profundo descontentamento de Moscou com as reformas propostas pelos chineses.
Em suma, o cisma sino-soviético ocorreu “em nível ideológico, militar e econômico” pelas mesmas razões: para a liderança chinesa a conquista da autossuficiência e da independência era prioritária, em comparação com os benefícios a serem recebidos dos russos, os chineses na condição de parceiros menores.
Lembra-se que Mao fizera a revolução para livrar a China de mais de um século de domínio estrangeiro. Caso aceitasse a submissão à URSS estaria negando sua própria conquista. Na década de 1960, agravaram-se as divergências. A China decidiu reabrir disputas fronteiriças, questões acertadas com a Rússia Imperial. Após malsucedidas negociações, em 1964 a União Soviética iniciou processo de fortalecimento dos exércitos nas áreas mais próximas da RPC.
As relações entre os dois países permaneceram tensas, tanto que em 1969 chegou-se a pensar que a guerra entre ambos os países seria inevitável. Pequim e Moscou passavam de estado de hostilidade à ameaça de confrontação. O “fator soviético”, portanto, passara a ocupar lugar dominante no pensamento maoísta quanto à forma de adequadamente inserir o país no sistema internacional.
No que diz respeito a sua inserção internacional, em retrospectiva pode-se defender haver sido melhor para os chineses terem se afastado dos russos. Caso contrário, possivelmente o país teria seguido o modelo soviético, transformando-se em potência fortemente industrializada e militarizada. Tornar-se-ia, num cenário-limite, em mais um membro do Pacto de Varsóvia, condenado a seguir o caminho da falência da URSS ao término da Guerra Fria.
Possivelmente, na vigência desse cenário não teriam ocorrido na China as reformas voltadas para a construção da economia socialista de mercado, hoje tão bem-sucedidas.
As relações da RPC com países vizinhos ao sul
Em meados da década de 1986, Deng visitou Tailândia, Malásia e Singapura, enquanto repetia as denúncias contra os “esforços de dominação” da URSS, em direção ao Sudeste Asiático, com o auxílio de seu aliado vietnamita.
A China se esforçava para denunciar “as manobras do esforço soviético de dominação ideológica”. Daí — conforme se procurou explicar acima — Pequim reafirmava sua tese dos “Três Mundos”: o primeiro, dividido pelos EUA e URSS, que constituiriam ameaça à paz mundial; o segundo, incluindo os países industrializados do Ocidente e o Japão; e o terceiro, que seguiria a liderança da China.
Notava-se, contudo, que tal rigidez doutrinária tornava-se, gradativamente, menos convincente, na medida em que Deng passou a favorecer as relações entre Pequim e Washington. A visão chinesa da “desordem sob os céus” passava a refletir uma bipolaridade entre os Estados Unidos e a União Soviética. Isto é, ao se incluir como simpática a Washington — “nós” contra Moscou.
Os dirigentes da RPC persistiam nos jargões ideológicos, aplicando terminologias marxistas aos líderes da URSS — que passaram a ser denunciados como “revisionistas” e agentes do “imperialismo soviético”.
Aos poucos, contudo, a “retórica comunista” deixou de ser utilizada, para definir “diferenças ideológicas”. Doravante, Moscou seria a sucessora de ambições “tzaristas”, em busca da “hegemonia sobre a Ásia”. O vocabulário ideológico tornava-se irrelevante, substituído por acusações de “dominação territorial”.
A inovação da narrativa chinesa sobre o que acontecia na Ásia passou, então, a contaminar outros países da região. Como se sabe, algumas nações, que se tornaram independentes na década de 1960, adotaram “princípios socialistas”, inspiradas pela própria China.
Nessa perspectiva, países que se emanciparam de potências coloniais, no período pós-guerra mundial, haviam adotado “normas igualitárias de organização social e formas de governo centralmente planificadas”. Teorias anunciadas por Pequim ensinavam que “rebelar-se é justificável”, assim como as explicações apresentadas para a pobreza das antigas colônias, em termos de exploração de seus recursos naturais e mão de obra barata, serviam como inspiração para a luta contra as metrópoles europeias.
Daí a adoção, pelos novos países independentes, de políticas de expropriação de empresas estrangeiras, a nacionalização de setores vitais da economia e a “divisão da riqueza nacional entre a maioria da população explorada pelo Capitalismo”.
Nas décadas seguintes, contudo, essas nações testemunharam sucessivas derrotas do sistema socialista, no sentido de promover reformas para alcançar a industrialização e o desenvolvimento. Eram exemplos: a permanência da estagnação na República Popular da China; o desastre econômico provocado por políticas socialistas na Indonésia de Sukarno; na Birmânia de Ne Win; e na Coreia do Norte de Kim Il Sung. Começava-se a pensar menos em ideologia e mais em medidas pragmáticas, para alcançar o progresso e manter no poder os governos vitoriosos na luta pela independência.
Ademais, o conceito de “internacionalismo socialista” fora fatalmente atingido pelo cisma sino-soviético da década de 1960 e enterrado em fevereiro de 1979, quando a China lançou seus exércitos através das fronteiras com o Vietnam, com o objetivo de “ensinar uma lição” a seu pequeno vizinho recalcitrante.
A reivindicação chinesa de liderança pacífica sobre o “Terceiro Mundo” se diluiu, como consequência de seu ataque contra um país que, havia pouco tempo, tinha enfrentado a maior potência militar mundial e derrotado o “imperialismo norte-americano”.
Enquanto isso, a China, na década de 1980, continuava a encorajar as provocações de Pol Pot contra o Vietnam. Tal esforço a favor do regime monstruoso então no poder no Camboja erodia ainda mais o prestígio de Pequim nas demais capitais do Sudeste Asiático, já assustadas com a guerra dos chineses contra os vietnamitas. A propósito, lembro que — enquanto servia em Pequim, entre 1982 e 1985 –, considerava-se que a RPC nada faria para contribuir para a queda do genocida Pol Plot, com o objetivo de “bleed Vietnam white” (ensanguentar o Vietnam até sua retirada do Camboja).
Era possível concluir, nessa perspectiva, que a ruptura do “mundo socialista” na Ásia Oriental deveria ser atribuída a conflitos entre “nacionalismos”. As disputas entre ideologias políticas ou econômicas ficariam em segundo plano.
Doravante, ficava entendido, a China procuraria “abrir um novo caminho de interação entre países ditado por diálogos em vez de confrontos, por parcerias em vez de alianças”.
O objetivo perseguido pelos chineses, naquela parte do mundo seria o de que todas as nações, cada uma com sua forma de governança e organização de mercado própria, pudessem compartilhar de progresso, sem submissão a hegemonia política ou econômica de vizinho com poder econômico e militar superior.
Gradativamente, sob a nova liderança de Xi Jinping a China evoluiria para proposta de “comunidade com um futuro compartilhado”. “Nesse cenário, todos os países e povos têm perspectivas estreitamente interligadas e interdependentes”.
“Best friends for ever”
Em 4 de fevereiro de 2022, foi assinado, na capital chinesa, o “Comunicado Conjunto da Federação Russa e da República Popular da China sobre as Relações Internacionais em direção a Nova Era e da Sustentabilidade Global do Desenvolvimento”. Surgiu a esperança de que, pelo menos naquela parte do mundo, pudesse se consolidar, em favor da paz e prosperidade, a “amizade eterna entre Putin e Xi Jinping”.
Foi, então, acordado que “ambas as partes estão procurando avançar em seu trabalho de vincular os planos para o desenvolvimento da União Econômica Eurasiana, patrocinada por Moscou e a Iniciativa do Cinturão e Rota das Sedas, de Pequim, com vistas a intensificar a cooperação prática entre os projetos russos e chineses de forma a promover maior integração entre a Ásia-Pacífico e a Eurásia”.
A “operação militar especial” russa em território ucrânio, no entanto, não tem permitido a melhor definição de tais vínculos…
Ao contrário da diplomacia ocidental, contudo, enquanto os Estados Unidos e a União Europeia têm condenado e punido Moscou pela invasão à Ucrânia, a China não somente reforça a retórica de apoio à Rússia, como propõe uma reformulação da ordem internacional — sem que a ONU seja considerada como o foro para tais discussões.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, recentemente considerou o conflito no Leste da Europa como uma guerra entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos EUA, e a Rússia, além de exaltar o elo entre Pequim e Moscou. O pronunciamento de Zhao foi dado um dia depois de mísseis russos atingirem Kiev, matando uma jornalista, durante a visita do secretário-geral da ONU.
“Uma importante lição do sucesso das relações entre China e Rússia é que os dois lados se mostram superiores ao modelo da aliança política e militar da era da Guerra Fria, e se comprometem a desenvolver um novo modelo de relações internacionais baseado na não-aliança, na não-confrontação e em não visar terceiros países. Isso é fundamentalmente diferente da mentalidade da Guerra Fria”, declarou Zhao.
Cabe desejar que esta “lição de sucesso” a ser oferecida pelo esperado estreitamento das relações entre Moscou e Pequim, não venha a resultar em novos “hegemonismos”, ditados por formas de governança que visem a colocar, de acordo com modelo chinês ou russo, nova “ordem sob o céu”.
Paulo Antônio Pereira Pinto é Embaixador aposentado.
