70 anos de Bandung: o despertar da consciência antirracista e anti-imperialista na política internacional
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz
Fonte: Government of Indonesia, via Wikimedia Commons, 1955. The Observer Delegation from Palestine, Mufti Mohammed Amin al-Husseini had a discussion with the Prime Minister of the People Republic of China, Zhou Enlai.
Resumo: O artigo examina a Conferência de Bandung (1955) como um marco na luta contra o imperialismo e o racismo, destacando seu impacto na construção de uma agenda global de soberania e justiça. A Conferência é vista como um ponto de partida para movimentos anticoloniais, conectando Bandung a eventos posteriores, como a Conferência de Durban (2001).
Em abril de 1955, representantes de vinte e nove países da Ásia e da África reuniram-se em Bandung, na Indonésia, para afirmar uma nova presença política no cenário internacional. Em meio a um mundo polarizado pela Guerra Fria e ainda marcado pelo colonialismo, a Conferência de Bandung constituiu um marco histórico: não apenas denunciou as desigualdades estruturais do sistema internacional, mas também inaugurou projetos de solidariedade anticolonial e de construção de alternativas ao domínio ocidental. Setenta anos depois os ideais de Bandung permanecem como uma referência fundamental para compreender as lutas contemporâneas por soberania, desenvolvimento e transformação de estruturas de poder.
Há setenta anos, entre 18 e 24 de abril de 1955, delegados de 29 Estados reuniram-se em Bandung, na Indonésia. A Conferência reuniu líderes cujos países representavam, em conjunto, aproximadamente dois terços da população mundial (Lee, 2010). Desde sua origem, a diversidade de posições políticas entre os participantes moldou de maneira significativa os debates. Dos cinco organizadores, Índia, Birmânia (atual Mianmar) e Indonésia seguiam orientações socialistas, embora adotassem uma postura de neutralidade, enquanto Ceilão (atual Sri Lanka) e Paquistão eram abertamente anticomunistas e alinhados ao Ocidente. De maneira similar, os delegados do Irã, Iraque, Líbia, Líbano, Paquistão, Filipinas, Turquia e Vietnã do Sul também expressaram posições anticomunistas e pró-ocidentais. Em contraste, o Egito, que se consolidaria como ator central na Conferência e em seus desdobramentos posteriores, encontrava-se no processo de desenvolvimento de uma forma de socialismo árabe sob a liderança de Gamal Abdel Nasser. As categorias de “imperial” e “pós-colonial” demonstraram ser ambíguas, como a participação do Japão — uma potência imperial formal — entre os países presentes em Bandung (Muppidi, 2016).
Essas contradições, tensões e diversidades foram fundamentais para moldar a Conferência de Bandung e as formas pelas quais a maioria da população mundial enfrentou aquele momento crucial de descolonização, com suas reconfigurações políticas e os futuros possíveis que ele anunciava. O Comunicado Final (Final Communiqué of the Asian-African Conference of Bandung, 1955) refletiu as complexidades dessa realidade e os esforços em curso para a criação de mundos alternativos, com visões de um futuro global que ainda estavam sendo delineadas, sem que este efetivamente tenha vindo a existir — as demandas da Conferência Afro-Asiática permanecem.
Bandung gerou, como resultado, mitos e esperanças, decepções e solidariedades, disputas turbulentas, bem como visões inovadoras para o direito internacional e para a cooperação Sul-Sul. O significado dos eventos ocorridos durante aqueles dias foi, e continua sendo, objeto de disputas de interpretações das mais variadas. Entre os múltiplos sentidos possíveis da Conferência, destaca-se, contudo, um legado frequentemente esquecido: a centralidade da luta antirracista e anti-imperialista como prioridade na agenda global (Persaud, 2016). Foi essa mesma linguagem (de resistência frente a hierarquias globais de poder) que estava impulsionando processos de desmantelamento de impérios coloniais ao redor do planeta e que, no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, buscava novamente “constituir” uma nova “ordem” internacional. Essa ordem não demorou em ser denunciada como neocolonial (Nkrumah, 1965).
De fato, Bandung emerge como resposta aos desafios impostos pelos legados do imperialismo histórico europeu — seus efeitos persistentes do passado e suas novas formas de reprodução (econômica, cultural) nas estruturas da ordem mundial contemporânea. Ao mesmo tempo, a Conferência carregava uma dimensão voltada para o futuro, quase utópica, ao mobilizar um número sem precedentes de povos em todo o mundo a reimaginar e transformar ativamente as regras que regem a ordem global, sobretudo chamando os países recém-independentes e aqueles que ainda iriam entrar no concerto das nações a ampliar a noção de soberania.
Assim, Estados pós-coloniais, que anteriormente haviam sido mantidos unidos sob diferentes impérios, passaram a construir novas alianças entre si na condição de “soberanos”. Segundo Prashad (2007), embora quase toda a Ásia já houvesse conquistado sua independência, em 1955 a maior parte do continente africano ainda permanecia sob domínio colonial europeu. Delegados da Costa do Ouro (atual Gana) participaram da Conferência de Bandung enquanto seu governo se encontrava em uma fase decisiva das negociações de independência com o Reino Unido — processo que só culminaria em 1957. Países ainda às vésperas da independência, como Gana e Quênia, tinham plena consciência de que a realização do princípio da “autodeterminação” dependeria tanto das dinâmicas do cenário internacional quanto de fatores internos. Se os Estados asiáticos desempenharam um papel fundamental ao impulsionar a realização de Bandung, os Estados africanos não apenas acolheram suas propostas como também deram continuidade à sua agenda de emancipação, reafirmada, por exemplo, na Declaração da Primeira Conferência dos Estados Africanos Independentes, realizada em Accra entre 15 e 22 de abril de 1958.
Posteriormente, a América Latina — tanto por meio de alguns de seus Estados quanto de uma rede crescente de movimentos de libertação, todos produtos das dinâmicas pós-coloniais — somou-se a seus homólogos asiáticos e africanos na pressão por uma agenda anti-imperial ainda mais incisiva, culminando na Conferência Tricontinental de 1966. Pankaj Mishra (2012) descreve a descolonização como um dos eventos mais importantes do século passado. Esse “despertar”, pode-se argumentar, se estendeu também à África, Pacífico, América Latina e a outras regiões. Bandung e seus legados constituem uma das expressões mais significativas desse processo de despertar global.
Embora seja importante reconhecer o caráter limitado dos efeitos formais de Bandung, a Conferência foi um momento fundacional de solidariedade no mundo não-europeu. Setenta anos depois, com o benefício do distanciamento temporal, uma interpretação possível do Comunicado é a construção de uma visão para uma nova ordem internacional — uma abordagem inovadora para a política global, fundamentada na luta antirracista e anti-imperialista. Na esteira de Bandung, segundo Amin (2016), surgiram outros processos significativos, como iniciativas institucionais, incluindo o Movimento dos Países Não Alinhados (MNA) e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), além de projetos voltados para moldar o direito internacional, como a proposta da Nova Ordem Econômica Internacional.
Bandung não se limitava apenas a afirmar a independência em oposição a um passado e presente imperial; também representava o enfrentamento de um futuro incerto, marcado pela Guerra Fria, pela competição entre grandes potências e pelas desigualdades Norte-Sul. As apostas pela paz e cooperação estavam intimamente ligadas ao temor de uma guerra nuclear global. Bandung ainda é frequentemente reconhecida como o marco inicial do projeto do Terceiro Mundo, criando um espaço para refletir sobre os interesses dos países do Sul em contraste com os alinhamentos da Guerra Fria e consolidando-se como um símbolo de resistência anti-colonial e anti-imperialista (AMIN, 2017).
Portanto, um dos principais objetivos da Conferência foi denunciar o imperialismo e o “racialismo” (como o racismo era denominado na época). Dessa forma, Bandung representa um marco na afirmação da centralidade do racismo na política internacional pós-Segunda Guerra Mundial e na construção da superação desse problema como uma agenda global. Existe uma linha histórica que conecta Bandung, em 1955, a Durban, em 2001, no contexto da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata.
Ao considerar Bandung como um ponto central na configuração do mundo e de sua história, novas perspectivas emergem sobre o papel de regiões tradicionalmente consideradas centrais. A Europa, nesse contexto, se torna periférica, enquanto países como a Austrália, o Japão e o Brasil, devido à sua relação ambígua com o imperialismo — por razões distintas e complexas — ocupam uma posição de semiperiferia. A questão da Palestina, que foi explicitamente levantada em Bandung, permanece até hoje uma questão não resolvida, revelando a continuidade das tensões geopolíticas e as contradições da luta anticolonial. O legado de Bandung, portanto, transcende seu tempo, permanecendo uma referência essencial para entender as dinâmicas globais de resistência, soberania e a luta por um sistema internacional mais justo e igualitário.
Referências
AMIN, Samir. The world without Bandung, or for a polycentric system with no hegemony. Inter-Asia Cultural Studies, v. 17, n. 1, p. 7–11, 2016.
AMIN, Samir. From Bandung (1955) to 2015: old and new challenges for the states, the nations and the peoples of Asia, Africa and Latin America. Interventions, v. 19, n. 5, p. 609–619, 2017.
CENTRE VIRTUEL DE LA CONNAISSANCE SUR L’EUROPE. Final Communiqué of the Asian-African Conference of Bandung (24 April 1955). Disponível em: https://www.cvce.eu/en/obj/final_communique_of_the_asian_african_conference_of_bandung_24_april_1955-en-676237bd-72f7-471f-949a-88b6ae513585.html. Acesso em: 28 abr. 2025.
LEE, Christopher J. Making a world after empire: the Bandung moment and its political afterlives. Athens: Ohio University Press, 2010.
MISHRA, Pankaj. From the ruins of empire: the intellectuals who remade Asia. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2012.
MUPPIDI, Himadeep. The elements of Bandung. In: PHẠM, Quỳnh N.; SHILLIAM, Robbie (ed.). Meanings of Bandung: postcolonial orders and decolonial visions. London; New York: Rowman & Littlefield International, 2016. p. 23–36.
NKRUMAH, Kwame. Neocolonialism: the last stage of imperialism. London: Thomas Nelson & Sons, 1965.
PERSAUD, Randolph B. The racial dynamic in international relations: some thoughts on the Pan-African antecedents of Bandung. In: PHẠM, Quỳnh N.; SHILLIAM, Robbie (ed.). Meanings of Bandung: postcolonial orders and decolonial visions. London; New York: Rowman & Littlefield International, 2016. p. 183–202.
PRASHAD, Vijay. The darker nations: a people’s history of the Third World. New York: The New Press, 2007.
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz: Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

