Perspectivas sobre Mudanças em Curso nas Relações Internacionais Atuais: George Friedman e Paul Kennedy, por Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge

Introdução

Este breve artigo pretende apresentar e sintetizar duas visões sobre as mudanças em curso nas relações internacionais atuais, passada mais de uma década do século XXI: a visão que aqui será chamada dos “ciclos geopolíticos”, de George Friedman, e a visão das “linhas divisórias históricas”, de Paul Kennedy.

Basicamente, Friedman explica o funcionamento do mundo a partir do que ele chama de geopolítica (embora pudesse ser uma exploração interessante, não se adentrará aqui no debate sobre as distinções entre geopolítica e geografia política: a referência ao termo será feita da mesma forma que o analista aqui estudado).

Segundo Friedman, assim como os processos ocorridos entre 1989 e 1991 definiram os 20 anos seguintes, três processos que ocorrem no mundo de hoje vão definir o mundo nos próximos anos: a crise financeira européia, a crise no modelo de exportação chinês e a mudança da balança de poder no Oriente Médio.

Paul Kennedy, por sua vez, tenta demonstrar que o mundo está atravesando, de maneira sutil e não turbulenta, um divisor de águas na história. Para demonstrar isso, aponta quatro indicadores: a queda do valor do dólar, a desintegração dos sonhos europeus, a corrida armamentista na Ásia e a paralisia do Conselho de Segurança da ONU cada vez que há uma ameaça de veto.

George Friedman e Os Ciclos Geopolíticos

George Friedman é fundador e presidente da Stratfor (abreviação de Strategic Forecasting – “previsão estratégica”, em uma tradução livre), empresa norte-americana baseada no Texas que tem como produto mais importante análises das relações internacionais. Segundo a própria empresa, o grande diferencial desta, em relação às agências de notícias, por exemplo, é a abordagem baseada em inteligência ao coletar informações através do monitoramento de fontes abertas e por meio de uma rede global de informantes. Os analistas da Stratfor examinam o mundo através do que chamam de “lentes objetivas da geopolítica”, uma maneira possível, entre diversas outras, de enxergar a realidade.

Segundo Friedman, a evolução da geopolítica é cíclica. As potências ascendem, caem e se deslocam. Mudanças ocorrem em todas as gerações, em um “balé interminável”. Todavia, o período entre 1989 e 1991 foi único. Neste momento, um longo ciclo da história da humanidade se encerrou. Ao mesmo tempo, outro ciclo, menor, também chegou ao fim. E o mundo de hoje ainda está reverberando ambos. O longo ciclo que se encerrou foi o da Europa como centro do sistema internacional, o que durou de mais ou menos 1492, com a descoberta da América, até 1991, com a desintegração da União Soviética. Neste longo ciclo, diversas potências européias se sucederam na dominação mundial. O ciclo menor é o referente ao fim da Guerra Fria, que se iniciou após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e foi até 1991. A queda da URSS representa tanto o fim da era européia quanto o fim da Guerra Fria.

Depois de 1991, os Estados Unidos eram a única superpotência remanescente. O poder norte-americano não foi desafiado nos vinte anos seguintes, mas a sua ascensão deixou a balança de poder mundial desequilibrada. E o desequilíbrio foi a característica fundamental do sistema internacional na última geração (mais ou menos nos últimos vinte anos). Os Estados Unidos não estavam preparados institucional e psicologicamente para a posição de superpotência dominante, oscilando de um excessivo otimismo no início dos anos 1990 (o que Francis Fukuyama chamou de “o fim da História”) às guerras no Afeganistão e Iraque depois do onze de setembro de 2001.

Entre 1989-1991, os Estados Unidos substituiram a Europa como o centro do sistema internacional. Entretanto, as gerações vêm e vão, e atualmente o mundo está no meio da primeira mudança generacional desde o colapso da dominação européia e o fim das Guerra Fria (lembrar do longo ciclo e do ciclo menor). A mudança pela qual o mundo passa hoje começou em 2008. O que aconteceu naquele ano foi um pânico financeiro que o sistema capitalista sofre periodicamente. Frequentemente, este pânico gera primeiro uma crise política dentro dos países, seguida de mudanças nas relações entre os países. Nas relações entre os países, pode-se destacar três destas mudanças: a crise financeira européia (e a sua transformação em uma crise política), a crise no modelo de exportação chinês (e suas consequências) e a mudança na balança de poder no Oriente Médio (em favor do Irã).

A visão de uma Europa integrada através da União Européia foi esmagada depois de 2008. A Europa de 2012 é bem diferente daquela de 2007. Assim, um potencial contra-peso aos Estados Unidos (os “Estados Unidos da Europa”) não emergirá nesta geração. A China também foi atingida pela crise de 2008: suas exportações cairam, ameaçando o crescimento do PIB e a estabilidade do sistema político. Por uma geração, a China foi o motor do sistema econômico global, como o Japão foi na geração anterior. A China não está colapsando como o Japão, mas está mudando seu comportamento e, assim, também a conduta do sistema internacional. Considerando os Estados Unidos, Europa e China como os três motores da economia mundial, dois deles, Europa e China, estão mudando seu comportamento, que passará a ser menos assertivo e menos influente no sistema internacional.

Um outro processo está em curso no Oriente Médio: a mudança na balança de poder. Isso não é consequência da crise economica de 2008, mas sim das ações recentes dos EUA na região. Com a retirada norte-americana do Iraque e do Afeganistão, o Irã vai se tornando a principal potência convencional no Golfo Pérsico. Assim como os processos que ocorreram entre 1989 e 1991 determinaram os vinte anos seguintes, os processos que ocorrem agora – na Europa, China e Irã – também definirão os próximos anos.

Paul Kennedy e as Linhas Divisórias Históricas

Paul Kennedy é historiador das relações internacionais, professor de História e Diretor de Estudos de Segurança Internacional na Universidade Yale, nos Estados Unidos. Em seu artigo “Entramos em uma Nova Era?”, Kennedy identifica basicamente dois tipos de transformações na história: as bruscas – após um conflito, por exemplo – e as mais sutis. Seu raciocínio terá como base as mudanças sutis, isto é, “o lento acúmulo de forças modificadoras, na maior parte invisíveis, quase sempre imprevisíveis, que cedo ou tarde acabam transformando uma época em uma outra bem distinta”.

 Kennedy se concentra em indicadores que assinalam que o mundo atual está se aproximando – ou talvez já tenha cruzado – algumas linhas divisórias históricas. O primeiro indicador é o desgaste constante do dólar norte-americano como divisa de reserva única ou dominante no mundo. Mesmo com os problemas econômicos da Europa e da China, está mais perto da realidade um mundo com três grandes divisas de reservas: o dólar, o euro e o yuan. A pergunta decorrente disso é se o mundo com distintas reservas será mais ou menos estável financeiramente. Também na área econômica, com consequências políticas, a segunda transformação é o desgaste e a dormência do projeto europeu.

A terceira grande transformação atualmente é o que Kennedy chama de “a enorme corrida armamentista que está acontecendo na maior parte do Leste e do Sul da Ásia”. Ao mesmo tempo que os Exércitos europeus estão se tornando um tipo de “polícias locais”, os governos asiáticos estão construindo verdadeiras armadas para navegar em águas profundas (é provável que o primeiro porta aviões chinês entre em funcionamento ainda este ano) e investindo em novas bases militares, adquirindo aviões cada vez mais avançados (em janeiro de 2011 circularam pela internet fotos de um protótipo do J-20, avião caça invisível chinês) e testando mísseis de alcance cada vez maior. Aqui não se fala apenas das Forças Armadas da China, mas também da Coréia do Sul, Indonésia, Índia e Austrália. Finalmente, a quarta mudança é a paralisia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o abuso do poder de veto pelos seus membros permanentes. Enfim, os 500 anos de história que representam o mundo de 1500 estão prestes a se acabar. O mundo está entrando em território desconhecido e, possivelmente, agitado.

Considerações Finais

George Friedman, através dos ciclos geopolíticos, identifica, basicamente, três processos nas relações internacionais de hoje que, provavelmente, vão definir os próximos anos: a crise financeira européia, e a transformação da mesma em uma crise política; a crise no modelo de exportação chinês, e as consequências disso; e a mudança da balança de poder no Oriente Médio, agora favorável ao Irã. Já Paul Kennedy, por meio das linhas divisórias históricas, aponta quatro indicadores de mudanças no mundo atual: a queda do valor do dólar, a desintegração dos sonhos europeus, a corrida armamentista na Ásia e a paralisia do Conselho de Segurança da ONU cada vez que há uma ameaça de veto.

Sintetizando os raciocínios de Friedman e Kennedy, pode-se afimar que os seguintes processos potencialmente influenciarão o curso das relações internacionais nos próximos anos: 1) A crise européia e a desintegração do sonho europeu; 2) A crise no modelo de exportação chinês e a corrida armamentista na Ásia; 3) Uma balança de poder regional favorável ao Irã; 4) A queda no valor do dólar e; 5) A paralisia do Conselho de Segurança da ONU.

Referências bibliográficas

FRIEDMAN, George. “The State of the World – A Framework”. Stratfor Geopolitical Weekly, Feb. 21, 2012. Disponível em: <http://www.stratfor.com/weekly/state-world-framework>.

KENNEDY, Paul. “Entramos em uma nova era?”. O Estado de S. Paulo, 12 nov. 2011, Internacional, p. A20. Publicado originalmente no The New York Times. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,entramos-em-uma-nova-era-,797739,0.htm>.

 Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge é Mestre em Relações Internacionais e Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP e Faculdades Metropolitanas Unidas  – FMU-SP (bernardowahl@gmail.com)

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