A Paz, a “eterna quimera” e o estado da arte das Relações Internacionais, por Raphael Spode

Neste mundo convulsionado tornou-se poético e elegante o texto de lamento que é a respiração ofegante dos velhos pensadores. Experientes, se cansaram com o mundo e as reiteradas provas da desrazão humana. Ressentir-se é uma disposição natural do indivíduo de perspectiva contextualizada, que deseja o melhor, porém, não encontra o melhor. É aceitável: desanimado, mas culto o velho pensador envereda o tempo no suspiro intelectual e alveja, com apurada leitura da realidade, os conceitos que se demoram nas estantes dos velhos livros (Cf. SARAIVA, 2012). Kant parecia suspirar ao escrever, nas primeiras linhas de A Paz Perpétua (1796/96): “pode deixar-se de lado a questão de se esta inscrição satírica [paz perpétua] na tabuleta de uma pousada holandesa, em que estava pintado um cemitério, interesse aos homens em geral ou aos chefes de Estado em particular que nunca chegam a saciar-se da guerra ou exclusivamente aos filósofos que se entregam a esse doce sonho” (KANT, 2004) . Nem mesmo Dante conteve-se à entrada do Inferno. Assombrado com a inscrição dura que lê sobre o portal – “Deixei toda esperança, ó vós que entrais” – suspira: – “ Meu mestre, o seu sentido é duro” (ALIGHIERI, 1998).

Medo e tibiez são reações da natureza humana diante do desconhecido, do espetacular ou daquilo que julgamos incapaz de superação. Muitas pessoas, e até mesmo cidades inteiras reagiram de forma semelhante. A literatura mitológica conta que muitos monstros perigosos afligiram a humanidade e foram, pouco a pouco, sendo desafiados por homens inteligentes e heróis. Os monstros eram, via de regra, seres pertubadores ou enredadores, de espírito estúrdio e leviano (outros até mesmo de espírito sagaz, como a Esfinge) que assaltavam indivíduos e obsediavam cidades. Alguns monstros chegavam a combinar, de maneira variada, membros de diferentes animais, qualidades atribuídas aos animais ferozes e, em alguns casos, qualidades humanas. A Quimera é um monstro híbrido, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente e, de acordo com outras descrições, de três cabeças: de leão, a segunda de cabra e a terceira de serpente. Filha de Tifão e Équidna, criada por Amisódaro, rei da Cária, vivia em Patera devastando o país (BRANDÃO, 2009). Não basta a sua horripilante plástica, e sua assombrosa arte maligna,  Quimera era capaz de lançar chamas pelas narinas, o que tornava sua figura ainda mais horripilante e desprezível.

Foi destinado a um herói o dever de matá-la: Belerofonte. Pelejando sobre os ares no Pégaso Alado Belerofonte obtêm, a um golpe, a morte de Quimera. A imagem é fantástica, mas encerra lição simples para os estudiosos de Relações Internacionais. Pouco justifica o menosprezo, no Brasil, da linha de reflexão normativa que “alimenta a ideia das relações internacionais como a procura incessante do auxílio entre as nações” (SARAIVA, 2012). Dedicada às linhas de pesquisa de conjuntura, com os temas de segurança, defesa e estrategia, ou preocupada em avaliar as ameaças globais às grandes potências, a academia brasileira de relações internacionais marginaliza, atualmente, linhas de pesquisa mais essenciais – diferente do tratamento que vem dando às linhas de pesquisa denominadas “prioritárias”.

Em primeiro lugar, fala-se muito em teóricos pacifistas, idealistas da paz perpétua ou corrente idealista das Relações Internacionais, e muito pouco se sabe sobre tais categorias. Em segundo lugar, não há um esforço de pesquisa para avaliar os principais elementos de um conceito de Paz. Em terceiro lugar, presencia-se um menosprezo velado pela utilização de textos da teoria política da Antiguidade, Idade Média e Modernidade com o intuito de iluminar temas históricos mais amplos e fundamentais da disciplina.

Quimera sobrevivia do medo, do suspiro dos cidadãos e da inépcia dos homens mais fortes da pólis.  A paz é a “eterna quimera” das Relações Internacionais na exata proporção ou grau com a qual comunidade epistêmica menospreza, diminui ou ignora o estudo da Paz. Um aluno dedicado da graduação em Relações Internacionais sabe, sistematicamente, a ordem da produção teórica das correntes realista, construtivista ou pós-modernista, porém, não consegue apontar as principais obras e os pensadores da paz perpétua. Não é concebível – é triste e lamentável – averiguarmos na realidade internacional o recrudescimento da anarquia e o uso da violência, porém pode não ser igualmente aceitável a comunidade epistêmica ignorar existir um “tempo de posse” conceitual ou ideacional para a mudança de comportamentos arraigados.

Tratamos de um caso de julgamento apressado: até que as sociedades apresentem comportamento mais civilizado – ver os casos analisados por Saraiva (SARAIVA, 2012), é preciso lembrarmos, antes, o seguinte aspecto: um comportamento social universal, pacífico e tolerante, depende que certos conceitos passem, no mínimo, por um debate e por uma discussão à luz meridiana. Um conceito como da tolerância, por exemplo, foi incorporado à vida social inglesa e francesa, e nas relações internacionais entre os países europeus dos séculos XVI e XVII após anos de discussão das sociedades filosóficas refugiadas na Holanda diante das perseguições religiosas. Façamos a conta: são dois ou três séculos de debate sobre o conceito de tolerância; são dois ou três séculos até que as sociedades possam tomar a posse consciente e prática de um conceito de tolerância. Como exigir a paz, sem estudá-la?

Belerofonte, em grego, Bellerophóntes é “aquele que é cheio de força”. Bel– é uma raiz indo-europeia com a conotação de potência, vigor; e Phóntes- equivale a abundante, cheio de (BRANDÃO, 2009). A morte de Quimera – usualmente associada à ferocidade, à morte, à violência insuportável – depende, em certa medida, daqueles que são cheios de força, ânimo e abundantes de coragem. Assim como parece ridiculo fazer o bem – quem não pensou duas vezes antes de oferecer ajuda a uma velhinha ou a um cego a atravessar a rua – os estudos da Paz, dependentes que são da recuperação de matrizes de pensamento, jazem apenas como possibilidade, sendo um vasto campo de trabalho a ser explorado, em suas reservas surpreendentes de sabedoria e conhecimento, diga-se de passagem, sobre a própria história do pensamento brasileiro das Relações Internacionais. O estudo da Paz requer, no mínimo, a recuperação de certas tradições de pensamento, como a irenista, por exemplo: Rui Barbosa, aliás, se valeu constantemente do irenismo cristão em seus empreendimentos teóricos sobre Relações Internacionais na luta inglória que teve contra o pensamento militarista do século XIX.

Kant havia suspirado, mas escreveu o seu Paz Perpétua. Dante suspirou e, por breves instantes ateve-se às portas do Inferno, mas animou-se ao ouvir de Virgílio, seu guia, as seguintes palavras: – “Livra-te desse medo circunspecto; / aqui toda a tibiez esteja morta; / que chegando ora estamos ao conspecto / das tristes gentes das quais já te disse / que têm perdido o bem do intelecto” (ALIGHIERI, 1998). O “movimento de superação do insuportável, a garantir um estágio civilizatório para a convivência humana” (Cf. SARAIVA, 2012) depende, em certa medida, de coragem e do ânimo para empreendimentos acadêmicos diferenciados, de modo que não percamos o “bem do intelecto” reservado àqueles que sabem ou querem aprender a valorizar o trabalho santificado dos pensadores da paz perpétua. É preciso esforço e coragem para encontrarmos os meios de escoimar as “eternas quimeras”, assombrosas e cheias de força, do preconceito prejudicial e inútil prevalecente na comunidade epistêmica brasileira das Relações Internacionais. Certamente o suspirou não escreveu a Paz Perpétua, nem levou Dante aos braços da amada, no Céu: foi o ânimo; a confiança. É hora dos velhos pensadores, dos experientes do campo, no Brasil, atuarem como Virgílio ou incentivarem a geração dos “Belerofontes”, sem suprimi-los a coragem com o desânimo; sem menosprezar as pesquisas da Paz por linhas endurecidas e “prioritárias”. É um movimento necessário se ainda é desejável recuperar o contentamento e a alegria de viver.

Referências

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Inferno. Trad. Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 1998, p. 37.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. III. Rio de Janeiro, Vozes, 2009, pp. 217-220.

KANT, Immanuel. A paz perpétua e outros opúsculos. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2004,  p. 119 – (grifo do autor).

SARAIVA, José Flavio Sombra. A paz, eterna quimera das relações internacionais. Disponível em: [http://mundorama.net/2011/12/22/a-paz-eterna-quimera-das-relacoes-internacionais-por-jose-flavio-sombra-saraiva/]. Acesso em: 01 de março de 2012.

SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. Trad. Renato Janine Ribeiro e Laura Teixeira Motta. São Paulo : Companhia das letras, 1996, p. 10.

Raphael Spode é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (raphael.spode@gmail.com)

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3 Comentários em A Paz, a “eterna quimera” e o estado da arte das Relações Internacionais, por Raphael Spode

  1. Prezado Raphael Spode,
    O seu ensaio interessante, quase poético, subestima o vigor e a influência sobre o pensamento das R.I. das obras, desde Hugo Grotius, Abbé de Saint-Pierre, de Vattel, Jeremy Bentham até Robert Randle, SOHN & CLARK, Karl Deutsch, Johann Galtung e muitos outros.

  2. Estimado Alex,

    Obrigado pelo seu retorno! Pelo contrário, o ensaio procura enfatizar a importância destes pensadores. Veja o trecho: “Em terceiro lugar, presencia-se um menosprezo velado pela utilização de textos da teoria política da Antiguidade, Idade Média e Modernidade com o intuito de iluminar temas históricos mais amplos e fundamentais da disciplina”. Queremos chamar a atenção para esse fato: o menosprezo da comunidade como todo pelo vigor e influência dos pensadores mencionados por você, sobretudo os pensadores da “paz perpétua”. Estudá-los, mais de perto, sentir o seu vigor, seria, no mínimo, algo revelador!

    Façamos, Alex!

    Cordialmente,

    Raphael

  3. Surreal e surpreendente ensaio professor! Ouso dizer que pode ser chamado de inspiração aqueles que buscam ir além do óbvio-padronizado-normatizado que a ditadura acadêmcia por vezes impõe! Parabéns!

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