China e EUA: as complexas relações entre dois gigantes, por Arnaldo José da Luz

Este trabalho visa abordar, de maneira sucinta, as recentes relações entre a República Popular da China (RPC) e os Estados Unidos da América (EUA). Nos últimos anos, o acelerado crescimento econômico chinês, agregado ao discurso ideologista de solidariedade aos países periféricos permitiu à China angariar diversos mercados para as vendas de seus produtos e, principalmente, assegurar fornecedores de matérias-primas ao redor do globo. Esses movimentos dos chineses, de certa forma, têm gerado certa inquietação na Casa Branca.

Na década de 1980 a expansão do comércio chinês se alastrou por toda a Ásia, posteriormente entrou no mercado estadunidense. Agora a China avança com vigor sobre os parceiros comerciais dos EUA, principalmente na América Latina. A China encerrou o ano de 2010 como o maior destino das vendas brasileiras, ultrapassando inclusive os EUA, após oitenta anos.

Assim, pode-se argumentar que a expansão comercial internacional da China está, em grande medida, associada a atividades relacionadas à importação de produtos intermediários e de bens de capital, especialmente de alto conteúdo tecnológico de outros países asiáticos. Esse complemento produtivo vem sendo um dos fatores importantes para a diversificação das exportações chinesas.

Esse gesto chinês tem contribuído para um rápido aumento das importações chinesas dos países da região e de suas exportações para a Europa e América do Norte, tornando cada vez mais a China numa concorrente sem precedentes para o comércio estadunidense.

Fatores macroeconômicos também têm prejudicado a balança comercial estadunidense com a China, a qual se utilizou por longo tempo como estratégia de desenvolvimento econômico o cambio fixo para o yuan renminbi (moeda chinesa). Nos últimos anos, fortes pressões internacionais, e principalmente norte-americana, pela valorização do yuan fizeram o governo chinês abandonar o regime de câmbio fixo. Uma importante aspiração chinesa em longo prazo é a de tornar o yuan, uma moeda para o comércio internacional, algo parecido com o dólar americano.

O tão aguardado encontro entre os presidentes Barack Obama e Hu Jintao, respectivamente EUA e China, teve como objetivo principal aumentar o comércio bilateral sino-americano e amenizar o enorme déficit das exportações norte-americanas para a RPC. Após a crise mundial de 2008 a economia norte-americana não conseguiu se recuperar, está economicamente caminhando muito devagar. Percebe-se também uma mudança de paradigma nos EUA, de maior consumidor mundial para grande exportador internacional.

A China é um destino em potencial para escoar as exportações dos EUA, mas a desvalorização do yuan face ao dólar americano eleva os preços dos produtos estadunidenses no mercado Chinês, sendo uma das principais causas do déficit da balança comercial com a China. O presidente chinês teve de convencer parlamentares norte-americanos que o crescimento econômico da RPC não é uma ameaça aos EUA: “Os países terão benefícios em suas relações bilaterais sadias e serão prejudicados no caso de enfrentamentos”, declarou Hu Jintao em entrevista publicada pelos jornais The Wall Street Journal e Washington Post.

Para amenizar os contrastes da balança comercial o governo da RPC concordou em comprar 200 aviões da Boeing por 19 bilhões de dólares, assim criaria 235 mil novos empregos nos EUA, afirmou Obama. Essa “ajuda” chinesa amenizaria o desemprego nos EUA, um grave problema interno que atinge aproximadamente 9% da População Economicamente Ativa (PEA) do país.

Concomitante a questão econômica, todavia de maneira secundária, mas não menos importantes, foram firmadas parcerias nas áreas de meio ambiente e energia; infraestrutura e transportes, como trens de altas velocidades; o combate ao terrorismo; e a não proliferação de armas nucleares.

Neste encontro, os governantes chinês e estadunidense discutiram ainda um plano de direitos humanos; o território de Taiwan; a questão do Tibete e a polêmica questão do programa nuclear norte-coreano. Constatou-se, que tanto para a China quanto para os EUA, o diálogo e a diplomacia são as melhores ferramentas para resolver a questão do programa nuclear da Coréia do Norte, promovido por Pyongyang.

China e Coréia do Norte são grandes parceiros comerciais. A Coréia do Norte vive há alguns anos um forte isolamento internacional, com fortes sanções econômicas. Sendo assim, o governo norte-coreano se apega nas relações com a China para conseguir os produtos necessários para sua população. A relação sino-norte-coreano causa inquietação em Washington e os EUA cobram mais vigor da China ao intermediar as tensões entre a Coréia do Norte e as potências ocidentais. Os chineses fazem parte do Conselho de Segurança da ONU, que pode determinar mais sanções econômicas à Coréia do Norte. A China reprovou os últimos testes nucleares realizados pelos norte-coreanos.

Parlamentares republicanos e democratas são unânimes em relação ao problema dos direitos humanos na China, no discurso de boas vindas ao presidente chinês Obama lembrou que os direitos humanos universais devem se observados. Apesar de se recusar a debater profundamente esta questão, Hu admitiu que “muito ainda precisa ser feito na China” em termos de direitos humanos.

Conclui-se ao final que este encontro entre os estadistas chinês e norte-americano foi cercado de interesses por ambas as partes. Entretanto, os EUA podem obter mais ganhos, pois ainda se recupera da crise global de 2008, e enxerga nos chineses a saída para amenizar a situação no país. Aumentar as exportações para o país oriental considera-se, neste momento, crucial para a retomada do crescimento da economia americana. Pois, aqueceria a produção interna nos EUA, gerando novos postos de trabalho e mais consumismo interno. Existe a expectativa ainda de que até o ano de 2015 as exportações oriundas dos EUA para a China se dupliquem e cheguem a, aproximadamente, US$500 bilhões.

Do lado chinês, o ganho se daria principalmente sobre as pressões que os norte-americanos fazem ao país, em questões relacionadas aos direitos humanos; territorial, caso do Tibete; e, os chineses poderiam obter mais apoio político-diplomático dos EUA no cenário internacional. Obviamente, que os chineses também teriam a garantia de um importante mercado consumidor para seus produtos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Arnaldo José da Luz é mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

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4 Comentários em China e EUA: as complexas relações entre dois gigantes, por Arnaldo José da Luz

  1. Caro Arnaldo, li seu ensaio sobre economia entre sino-americanos, e a inquietação, quase medo, pânico, apreensão dos últimos. Por que? Há uma concorrência entre dois poderosos, um tradicional, e outro emergente, que nãi deviam se olhar como iimigos em guerra. Em concorrência, um ganha, outro perde, mas não se aniquilam, e esse é um movimento cíclico, não se pode ganhar todas. O dia do muito é a véspera do nada. Num tempo, o dólar sobrepujou o ouro, como padrão comercial; parece-me que entendi a intenção explícita da RPC ter agora seu yuan alternando e assumindo essa posição. Iso é saudável e faz parte do jogo.
    Há pouquíssimos dias vi manchetes na internet que os EUA foram a Pequim, ver e auscultar a punjança do seo competidor mais importante, no momento, e isso na área militar, quando lhes foi apresentado um avião sombra,, absolutamente imperceptível por defesa alguma. Isto também os inquieta. É interessante contrapor a inquietude de um com pazcitude do outro.
    Outra atenção reincidente dos EUA sobre o resto do mundo é referente aos direitos humanos, e à china, ao Tibet, cuja opressão é uma verdade. Mas não se vè uma réplica a esse cuidado, por parte dos sinos, no caso de Israel, que representando sua eminência parda, os States, massacra, aniquila e se adona insidiosamente da vida e do patrimônio dos palestinos, na terra onde eles nasceram.
    Assim escorrem. no cotidiano, os fatos sociais, na brutalidade dos mais fortes. Quer a Paz, o forte se torne fraco, ou o fraco se torne forte, e nessa igualdade ela se encontra. Quer a Paz, tire-se a bomba de todos, ou dê-se a bomba a todos. O não digerível, é ver-se um ban-ban-ban arvorar-se o poder de dizer quem tem capacidade e tirocínio de ter tal arma, sem a sua aprovação.

  2. Olá Edelvio,
    Primeiramente, agradeço-lhe pelo seu comentário. Num segundo momento, gostaria de dizer que o intuito de meu ensaio é o de mostrar um pouco como se dá o crescimento econômico chinês e seus impactos sobre os EUA. Entendi e concordo plenamente com o seu ponto de vista, que se tiver que existir uma liderança, que seja cíclica. Mas, dizer que os EUA aceitam, e aplaudem, essa nova condição imposta pelos chineses no Cenário Internacional, aí já é outro assunto.
    Um grande abraço
    Arnaldo

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