Os 100 anos da disciplina “Relações Internacionais”, por Virgílio Arraes

O encerramento da I Guerra Mundial em novembro de 1918 ocasionou um anseio maior por estabilidade global, mesmo provisória. A extensão inédita do conflito quanto à destruição dos países envolvidos e ao morticínio proporcionado nos campos de batalha desencadeou a necessidade de se ter a paz como meta fixa da sociedade internacional, não como mera referência intelectual por vezes diletante ou obrigação religiosa constante.

Nas cansativas lides diplomáticas em solo francês em 1919, encabeçadas pelos Estados Unidos, o objetivo foi o de conjugar duas vontades conflitantes entre si, resultantes dos desejos imediatos dos vencedores: a concórdia mundial, sem sombra de dúvida, mas, ao mesmo tempo, a punição severa da Alemanha.

O espírito do tempo daquele momento não era similar ao do século dezenove, quando os governos sobrepujantes haviam debatido a nova ordem global em Viena sem enquadrar a responsável maior pelo caos durante vinte e cinco anos, a França: ora republicana, ora monarquista. Ao contrário, ela seria agregada ao pequeno círculo dos dirigentes do planeta.

Em certa medida, a aspiração das principais potências europeias, malgrado a turbulência causada pelo sonho imperial francês, era o de recuperar o equilíbrio entre eles, ao implementar mecanismo de diálogo mais constante: as conferências ad hoc.

Embora negociada a contento, a restauração política da Europa seria na prática quimera, apesar dos esforços militares da Áustria dos Habsburgos-Lorenas e da França dos Bourbons nos primeiros anos pós Viena. De toda maneira, o continente não assistiria a grandes confrontações até o processo de unificação da região germânica, enfeixado pela belicista Prússia.

Sem a participação norte-americana em solo europeu a partir de 1917, a peleja ter-se-ia prolongado por período prolongado. Responsáveis pela queda de Berlim, caberia a Washington, de matiz democrata, a liderança das negociações voltadas à trégua.

Destarte, o presidente Woodrow Wilson, oriundo profissionalmente da prestigiosa Universidade de Princeton, iria retomar o ideário da paz sem vitória, espraiado em janeiro de 1917. Na prática, isso significaria a concórdia por meio da justiça, não pela prevalência da vontade de uma aliança, ainda que temporária.

A materialização do estabelecimento de uma paz duradoura havia sido indicada pela formulação em janeiro de 1918 de catorze pontos, de abrangência bem ampla tanto nas suas aspirações políticas bem como no raio de atuação. De modo simbólico, o primeiro tópico se referiu ao encerramento da diplomacia secreta.

Outro ponto de destaque foi o da liberdade de navegação, premissa importante para o país mais industrializado do globo – a estabilidade através do comércio havia sido propagada por Kant em seu ensaio A Paz Perpétua.

Ao par de questões vinculadas à definição de fronteiras na Europa, com a extinção dos antigos impérios, houve o lançamento do direito de autodeterminação – comunidades deveriam pertencer a nações com os quais se identificavam do ponto de vista cultural, por meio do idioma e da religião, por exemplo. Contudo, isso valeria basicamente para grupos pertencentes durante o conflito à Áustria, Rússia ou Otomano. Tal aspiração não seria, no entanto, estendida a populações agregadas à força às potências tradicionais.

Ao cabo do documento norte-americano, o elemento de maior visibilidade foi o da constituição de uma liga permanente das nações, substituta das conferências singulares derivadas do século predecessor, em face da complexidade dos interesses dos diversos governos e dos países nascidos com a implementação da paz.

O objetivo da inédita organização planetária seria o de manter a todo custo a estabilidade, via fórum permanente de debates, inclusive com um conselho de segurança, ou da formação de coligações militares específicas.

Com a desistência da Alemanha de continuar a lutar em novembro de 1918, os denominados Quatro Grandes – Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Itália – reunir-se-iam em Versalhes, outrora majestoso solar bourbônico, com o propósito de delinear o novo mundo: mais republicano, menos monarquista. Outrossim, mais liberal na economia e democrático, porém bem insensível quanto ao destino dos perdedores e dos povos colonizados na África e na Ásia.

No dia a dia das sessões de trabalho, cada delegação composta valia-se, além dos diplomatas, da expertise de militares, políticos, economistas, juristas etc, com a finalidade de resguardar seus interesses nacionais, não de moldar um acerto geral.

Como consequência, atribuir-se-ia à Alemanha a responsabilidade plena do início da guerra, ponto de que discordavam os Estados Unidos, porém minoritários no encaminhamento do tratamento. A Rússia, em processo de transição para tornar-se União Soviética, não havia sido convidada. Portanto, a incomum sociedade das nações patinharia no seu almejo de paz contínua.

No entanto, a incerteza das confabulações diplomáticas não impediu no segmento acadêmico o estabelecimento da primeira cátedra específica de relações internacionais, fruto de distintas contribuições do saber universitário: história, politologia, economia, direito, geografia etc. Ela seria uma tentativa de disciplina de síntese, não de conhecimento fragmentado como havia sido comum no século anterior.

Seria em Gales – Universidade de Aberystwyth – em 1919 o local da fixação da notável iniciativa. Woodrow Wilson, ele mesmo historiador, seria homenageado nela. Um de seus professores seria Edward Hallett Carr, afamado anos depois por uma obra – hoje clássica – do renovado campo de estudos: Vinte anos de crise.

Um século depois, a instabilidade na política mundial continua, ainda que sob moldura distinta: Alemanha e Rússia, após tentativas de primazia global ao longo do século vinte, juntaram-se às demais potências, apesar de queixas cá e acolá vez por outra.

As insatisfações maiores estrilam em áreas distantes da faixa norte-atlântica e já não respondem a aspirações de incorporações territoriais, porém a desejos de imposição de doutrinas com tintas religiosas por pequenos grupos, entusiasmados, por seu turno, com interpretações radicais de religião, nas quais figuram o belicismo, não o diálogo, como seu motor de propagação.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Os 100 anos da disciplina “Relações Internacionais”, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/08/2019]. Disponível em: <https://www.mundorama.net/?p=25519>.

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