Rússia: o aparente incômodo aos Estados Unidos, por Virgílio Arraes

O sucesso da Rússia na Síria, em confronto civil desde 2011, impulsiona a política exterior do governo de Vladimir Putin. Polêmica, ela se apresenta como alternativa à dos Estados Unidos, mas sem firmar compromisso com regimes democráticos, de sorte que ela expressa o olhar pragmático do dirigente russo, bem mais próximo da dos mandatários chineses.

Consolidada a relação bélica entre Damasco e Moscou, rumaram os burocratas do Kremlin a Caracas, local em que Washington não pode aceitar a presença de outra potência nuclear, sob risco de desgaste imediato perante seu eleitorado, malgrado ser um evento bastante distante do impacto do de Cuba na época da Guerra Fria – 1962.

Mesmo assim, aceitar sem contestar a presença moscovita significaria corroer o quase bicentenário teor da chamada Doutrina Monroe, ou seja, a visão de preservação da autonomia política dos países ibero-americanos a partir da perspectiva estadunidense, a despeito da ausência de proximidade diplomática imediata.

Afora a valiosa ajuda aos venezuelanos, justifica-se o apoio dos russos aos sírios, por ser mal menor, se cotejada a longeva ditadura da família al Assad, de cariz secular, com o recente despertar das milícias fundamentalistas, ansiosas por fincar a bandeira de novo califado em solo médio-oriental e cercanias. A acusação de emprego de armas químicas em 2013 pela ditadura baathista já se esmaece no tempo infelizmente;

Aos dirigentes venezuelanos, é tortuoso o caminho para enaltecer a parceria entre Miraflores e o Kremlin, dado que o estágio atual do bolivarianismo, o ‘madurismo’, mesmo com muito boa vontade, distancia-se do entusiasmo com o chavismo de duas décadas passadas, apesar da estatística fixada ou da referência empregada.

Na Síria, a Rússia enfatiza sua postura tradicional diante dos olhos atentos do planeta: a de barreira quase indevassável a movimentos de pouca afinidade com os valores costumeiros advindos da Europa ocidental e dos Estados Unidos, por meio dos quais se mesclam postulados políticos e econômicos liberais e de quando em quando traços religiosos – baseados no cristianismo, ainda que sob visão ortodoxa, não católica ou protestante;

Na Venezuela, não há como apresentar tal corolário à impaciente sociedade internacional, visto que a oposição principal ao mandatário corrente não destoa do cânone ideológico incorporado à rotina dos governantes do arco norte-atlântico; ao contrário, brada ela de modo constante defesa de princípios similares tanto na política como na economia.

Alongar a sobrevivência da segunda fase do bolivarianismo – próxima da agonia para a maioria da população local – não garante ao Kremlin prestígio ou respeito na América do Sul; ao contrário, pode reduzir seu peso, a não ser que se considere a possibilidade de exercer o papel de fiador fundamental para negociar a transição de igual para igual com a Casa Branca e, destarte, beneficiar-se dela, independentemente do sucessor proposto.

Havana acompanha com interesse velado o desenrolar da atuação moscovita em Caracas porque lhe é hoje em dia o último ponto de apoio importante. A petrodiplomacia ainda implica à ilha benefícios consideráveis por conta da atuação na área de saúde, um dos derradeiros pilares do bolivarianismo. A despeito da cotação mais baixa dessa matéria prima, se comparada à de alguns anos, o petróleo tem impacto no orçamento cubano.

Destaque-se que a Rússia não está isolada ao hipotecar apoio ao enfraquecido regime venezuelano porque China, México e Turquia também se colocam a favor dele, ao menos no momento. Sem serem eles modelos de democracia, com exceção da administração mexicana, isso de certa forma impulsiona a ampliação da corrosão do governante Maduro.

Por outro lado, reviravoltas podem suceder-se, malgrado improváveis. No caso sírio, isso aconteceu. De maneira recente, o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos contingentes do rincão médio-oriental, sem que estivessem de acordo com a proposta François Macron e Theresa May, esta atordoada com a programação de saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

A justificativa para o retorno das unidades norte-americanas estacionadas lá é a recuperação por parte do governo sírio de cerca de 95 por cento do território. Os milicianos fundamentalistas estão encastelados. Na perspectiva washingtoniana, seria mera questão de tempo a expulsão das últimas consociações sectárias.

Se na América do Sul o observador concentrado com o aliado russo é Cuba, no Oriente Médio, são o Irã e a Turquia. A volta célere de tropas estadunidenses ensejaria a oportunidade a Ancara para conter a atuação do povo curdo entre as fronteiras – Washington aguarda que não haja perseguição a tais grupos por seu valor na confrontação contra os radicais – e a Teerã para barrar de modo decisivo a ascensão dos sunitas integristas.

Outrora, a preocupação da Casa Branca seria com a permanência de círculos iranianos em solo sírio como o Hesbolá, por exemplo. Agora, o foco imediato da política exterior é o estabelecimento da extensa muralha com o México, motivo de bastante tensão com o Congresso, em sua maioria de membros democratas.

O mérito da expulsão ou da eliminação dos agrupamentos identificados com o Estado Islâmico reduziu-se. Todavia, a constituição de cronograma de recolhimento das tropas pode garantir um tempo a seus aliados naquela área, os quais receiam aumento da desorganização lá ou a predominância dos interesses russos e, em menor escala, dos iranianos.

Malgrado a verdadeira extensão da cooperação militar da Rússia com a Síria em seu confronto civil ou com a conturbada Venezuela, o fato é que o país tem sido utilizado pela bancada bélica do Capitólio como justificativa para robustecer o paiol norte-americano, em especial o nuclear. Nesse assunto, democratas e republicanos convergem sem hesitação nos gastos.

A lei aprovada para o presente ano concede ao poder Executivo orçamento superior a mais de setecentos bilhões de dólares, quantia bastante acima da de 2018. Menciona-se a Rússia quase uma centena de vezes no texto, ainda que a China seja também muito citada. À guisa de comparação, o Brasil nem sequer aparece – https://www.congress.gov/bill/115th-congress/house-bill/5515/text

Assim, superestimada ou não quanto à capacidade de gerar turbulências de monta aos interesses norte-americanos – quer na América do Sul, quer no Oriente Médio – o Kremlin continua a figurar no imaginário parlamentar como o adversário ideal para fustigar o presidente Trump e, ao mesmo tempo, impulsionar a indústria bélica, sob o manto do patriotismo.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: o aparente incômodo aos Estados Unidos, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 21/09/2019]. Disponível em: <https://www.mundorama.net/?p=25228>.

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