Brazil, the United States and the Tehran Declaration, uma entrevista com Marcos Aurelio Oliveira e Deijenane dos Santos, por Victória Almeida

Os rumos, discursos e estratégias da política externa brasileira são tópico central para o entendimento da inserção internacional do Brasil e seu relacionamento com parceiros políticos e econômicos. Em um processo por busca por autonomia, a política externa brasileira, desde os anos 1960, tem se estruturado de modo a alçar garantir ao país um status de potência emergente, autônoma e inovadora. Alguns episódios recentes do exercício da política externa junto à países parceiros nos chamam a atenção, tendo em vista o contexto de transformações na estratégia internacional brasileira desde os anos 1960. Nesse sentido, o artigo Brazil, the United States and the Tehran Declaration, publicado no volume 61, n. 1 (2018), da Revista Brasileira de Política Internacional, propõe um breve e completo estudo de caso acerca da tentativa de participação da diplomacia brasileira nas negociações do imbróglio do programa nuclear iraniano, em 2010.

O argumento central explorado pelos autores é de que a articulação brasileira, em conjunto com o governo turco, na questão do programa nuclear iraniano foi limitada em decorrência de um conflito de interesses envolvendo os Estados Unidos. Para isso, os autores abordam em seu texto as principais características da PEB do governo Lula, sua atuação no Oriente Médio, as negociações que levaram a Declaração de Tehran e a perspectiva da diplomacia norte-americana acerca da participação e engajamento do Itamaraty na região em questão. Marcos Aurelio Guedes de Oliveira e Deijenane Gomes dos Santos, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco, e autores do artigo, concederam entrevista a Victória Gomes Pereira de Almeida, mestranda em Relações Internacionais junto ao Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília:

Em passagem no artigo, de acordo com Hal Brands, a política externa brasileira durante o governo Lula foi considerada uma “grande estratégia”, fundamentada no exercício de três políticas: um softbalancing contra os Estados Unidos, coalizões e um papel de liderança no processo de integração latino-americana. Tendo em vista uma mudança nos rumos da PEB, em decorrência da formação do novo governo do presidente eleito, como ficarão estas três políticas? Qual será o discurso de política externa brasileira tendo em vista a nova presidência e as tendências globais?

A concepção da política externa de Lula como uma grande estratégia sempre me pareceu por demais exagerada pois super-dimensiona a capacidade daquele governo e da diplomacia brasileira. Ao nosso ver os resultados da diplomacia de Lula foram bem menos modestos que suas declaradas intenções.  Primeiro, o Brasil não conseguiu exercer um verdadeiro papel de liderança na integração regional tendo sido atropelado em vários momentos pelo bolivarianismo chavista ou se deixado levar por um certo narcisismo que não apostou na institucionalização do Mercosul por exemplo.  Segundo, a capacidade do balancear a influência dos EUA e de obter resultados mais sólidos com os BRICS foi exagerada e a diplomacia se deixou conduzir por um viés anti-americano e mesmo ufanista o que levou iniciativas importantes ao insucesso, como essa analisada no nosso artigo.

Quanto ao novo governo, creio que logo ele se convencerá  de que não existe outro caminho para a diplomacia brasileira fora da busca pela manutenção de uma certa autonomia dentro da qual se possa procurar ampliar o poder e a influência internacional do Brasil. Mas isso precisa ser adequadamente dosado com objetivos pontuais e uma boa articulação entre burocracia e governo. Por exemplo, em matéria de segurança o Brasil tem nos EUA e na França como seus aliados primeiros. Já em outros assuntos internacionais, Brasil e EUA ou Brasil e União Européia competem e continuarão dessa maneira. Assim não se pode ter uma política externa de resultados que não seja pragmática. Uma nova diplomacia baseada em wishful thinking pode produzir resultados eleitorais imediatos mas seu custo é perigoso e insuportável para um estado democrático. 

O estudo de caso da participação brasileira nas negociações da Declaração de Tehran foi marcado pelo ponto de vista da diplomacia norte-americana de que o Brasil deveria buscar um alinhamento com os interesses dos EUA na região do oriente médio, fato que ia contra uma PEB auto-enunciada como autônoma e inovadora. Com as aproximações entre Bolsonaro e Trump, como ficará o engajamento brasileiro no oriente médio? Um eventual alinhamento com as políticas de Washington afetará os laços políticos e comerciais brasileiros na região?

Os interesses do Brasil no Oriente Médio, principalmente os comercias, são muito importantes e sempre tiveram um impacto relevante no processo de crescimento interno. Isso se deu nos anos de 1970 e de certa forma no governo Lula.  É inconcebível imaginar o abandono desses fortes parceiros comerciais por princípios ideológicos ou de alinhamento automático. Penso que o que deve acontecer é um alinhamento retórico do novo governo com os EUA, o que talvez ajude ao Brasil na elaboração de uma política mais proativa e sofisticada na região do oriente médio. O ideal seria uma política que reforce nossas relações com os países árabes, estabeleça uma nova relação construtiva com Israel e mantenha um diálogo mais estreito com o presidente Trump. Aí sim, entraríamos em um novo patamar. Para atingir esse objetivo o novo governo precisa mostrar muita destreza e competência. Um escorregão pode custar muito caro.

Considerando as negociações da Declaração de Tehran, como vocês avaliam a participação brasileira e a estratégia norte-americana de “double-gamer”? Como este evento influenciou e influencia as dinâmicas regionais conflituosas no Oriente Médio?

O Brasil teve uma oportunidade real de demonstrar capacidade negociadora em assuntos de alta diplomacia nesse caso discutido no artigo. Se olharmos nas últimas décadas podemos até dizer que houve uma evolução positiva na política externa brasileira pois ela não apenas abandonou o alinhamento automático com os EUA como ainda passou a agir de maneira proativa em assuntos de grande importância internacional. Contudo, são necessárias diretrizes de Estado bem definidas a partir de interesses nacionais básicos e uma articulação bem estruturada entre governo e Estado para que o país explore toda sua capacidade na busca dos seus interesses e evite oscilações em matéria de relações externas. Os nossos interesses comerciais e a boa diplomacia com o mundo árabe e com Israel devem repousar entre outras coisas em nossa habilidade de buscar soluções para problemas onde nem eles nem  potências graduadas  conseguem. Se não ocorrer esse salto de qualidade o país vai continuar sendo punido por uma política externa mesquinha baseada em interesses de eleitoreiros ou pequenos grupos.

Leia o artigo

Oliveira, Marcos Aurelio Guedes de, & Santos, Deijenane Gomes dos. (2018). Brazil, the United States and the Tehran Declaration. Revista Brasileira de Política Internacional, 61(1), e009. Epub November 23, 2018.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201800109

Sobre os autores

Marcos Aurelio Guedes de Oliveira e Deijenane Gomes dos Santos – Universidade Federal de Pernambuco

Victória Almeida – mestranda em Relações Internacionais, Universidade de Brasília

Como citar

Mundorama. "Brazil, the United States and the Tehran Declaration, uma entrevista com Marcos Aurelio Oliveira e Deijenane dos Santos, por Victória Almeida". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 23/09/2019]. Disponível em: <https://www.mundorama.net/?p=25143>.

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