Cadeia logística do tráfico de cocaína e espacialidade dos conflitos armados irregulares na América do Sul, por Matheus Pfrimer & Marcos Vinicius Silva

Na América do Sul, a maior parte do financiamento de guerras irregulares ocorre por meio do tráfico de cocaína. Especialmente, as redes logísticas do tráfico de cocaína possuem particularidades importantes que as tornam um recurso sem igual para o financiamento da criminalidade transnacional na região. O insumo primário da cadeia produtiva da cocaína, as folhas da planta de coca (Erythroxylum coca) são legalmente produzidas nos vales andinos da Bolívia, Peru e Colômbia. Apenas, as fases finais da cadeia produtiva são ilegais em toda a região, o que diminui o grau de obstruçãoFOOTNOTE: Footnote e aumenta a possibilidade de ser saqueado ou adquirido para ser direcionado ao financiamento das atividades ilegais da criminalidade transnacional (Le Billon 2003; 2004).

Levando-se em conta os estágios de produção da cocaína, pode-se gerar uma tipologia da funcionalidade de cada nodo da rede narcotraficante. Num primeiro estágio as folhas de coca são cultivadas caracterizando os espaços produtivos. Posteriormente, as folhas são transformadas em pasta de cocaína ou pasta base de cocaína com o intuito de diminuir o volume de sua matéria prima e facilitar o transporte, particularmente o transnacional entre polos produtivos e os polos de comercialização. Esses nodos são funcionalmente constituídos para fins de transporte.

Após o transporte até a proximidade das plataformas de exportação ou consumo, a pasta base de cocaína é refinada e transformada em Cloridrato de Cocaína, isto é, na cocaína com cem por cento de pureza. Esses pontos se constituem em pólos da rede destinados à distribuição do narcotráfico transacional ao grupos locais para distribuição da cocaína ao consumidor final. Por último, constituem-se os pontos de comercialização da droga ao consumidor final, momento no qual a cocaína impura é distribuída e comercializada. Portanto, em síntese, as redes do narcotráfico territorializam nodos com 4 tipos de funções: a) nodos produtivos da matéria prima; b) nodos de transporte; c) nodos de distribuição; e, d) nodos de comercialização.

Visamos aqui verificar por meio da análise espacial que pontos da cadeia produtiva do tráfico de cocaína se relacionam com a ocorrência de conflito armado, levando em conta particularmente a sua tipologia e a sua letalidade. Que nodos da rede do narcotráfico sul-americano estão mais relacionados a conflitos armados? Que tipos de conflitos ocorrem? E com que letalidade? O horizonte espaço temporal abordado pelo estudo se circunscreve à América do Sul e ao período entre 2010 e 2015. Dados estatísticos sobre apreensões de drogas na região foram coletados no site do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (United Nations Office on Drugs and Crime – UNODC). Já os dados sobre conflitos foram coletados a partir do banco de dados do Projeto sobre Conflitos da Universidade de Upsalla (UCDP).

A análise da estatística espacial será disposta a partir de dados sobre a tipologia dos conflitos tendo por base o banco de dados da UCDP. Para essa instituição um conflito é conceituado como sendo o enfrentamento armado entre dois ou mais grupos regulares e irregulares durante um ano, com 25 ou mais mortes. Essa definição se adequa ao escopo do estudo, pois a diferencia de homicídios que não estejam relacionados a mortes em conflitos. Ressalta-se que as forças armadas são empregadas para atuação em conflitos com algum grau de intensidade e letalidade no qual as forças policiais não estejam plenamente aptas. Para a tipologia da UCDP, os conflitos podem ser de base estatal (quando o estado é um dos atores), de base não estatal (quando há apenas atores irregulares envolvidos) ou violência unilateral (quando um dos atores envolvidos é a sociedade civil).

Os dados de apreensões de drogas da UNODC foram utilizados para constituição da rede logística de produção da cocaína e dos derivados de folhas de coca. A partir do número de apreensões por tipo de derivados da folha de coca e cocaína, pode-se estabelecer os nodos da rede do narcotráfico e a divisão territorial do trabalho do tráfico de cocaína, como explicado anteriormente.

Após a organização dos dados descritos acima no nível municipal, realizou-se uma análise de agrupamento (cluster) a partir da classificação hierárquica ascendente (CHA). Essa técnica inicia com os objetos individuais, para os fins dessa pesquisa, os municípios sul-americanos. Em princípio, tem-se tantos grupos quanto forem os municípios. As unidades espaciais são então agrupadas de acordo com as semelhanças nos padrões de dispersão das variáveis. Invariavelmente como as semelhanças diminuem, novos grupos aparecem de acordo com as suas semelhanças.

Para esse procedimento estatístico foram consideradas as seguintes variáveis: número de conflito de base estatal (state based conflict), número de conflitos de base não estatal (non_state_based_conflict), número de eventos de violência unilateral (one sided violence), número de civis mortos (civilians deaths), melhor estimativa do número de mortos em conflitos (Best_est), quantidade de quilogramas apreendidos de Pasta base de Cocaína (Cocaine Base kg), quantidade de quilogramas apreendidos de Pasta de Cocaína (Cocaine Paste kg), quantidade de quilogramas apreendidos de Hidrocloreto de Cocaína (Cocaine HCL kg), quantidade de quilogramas apreendidos de cocaína mistura (Cocaine kg) e quantidade de quilogramas apreendidos de Craque (Crack kg).

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FIGURA 1 – Classificação Hierárquica Ascendente e Espacialidade do Tráfico de Drogas e conflitos irregulares por município na América do Sul

Ao final da CHA, os municípios foram subdivididos em três classes, explicando aproximadamente 45% dos casos. A primeira classe de municípios são aqueles em que as variáveis state based conflict, non state based conflict, one sided violence, civilians deaths, Best_est,Cocaine Base kg, civilians deaths e Best_est apresentam moderado desvio padrão positivo. A segunda classe de municípios é composta por aqueles que apresentam forte desvio padrão positivo em relação à variável Crack kg. Já a terceira classe de municípios é aquela em que as variáveis Cocaine Paste kg, Cocaine HCL kg, Cocaine kg apresentam moderado desvio padrão positivo – ver figura 1.

De maneira geral, os resultados da análise estatística apresentaram moderada correlação entre conflitos de qualquer natureza e letalidade em relação à quantidade de quilogramas apreendidos de pasta base de cocaína. Essencialmente, os dados parecem indicar que é justamente na fase do transporte e da distribuição locais que diferentes atores transnacionais do tráfico e milicianos lutam pelo controle do mercado à atacado e a revenda da pasta base a grupos locais do tráfico.

Fundamentalmente, quando se analisa a espacialidade das classes obtidas a partir da CHA, na figura 1, a classe 1 é representada por importantes pontos de distribuição e transporte do tráfico de Cocaína na Colômbia (origem) e Peru (origem) e no Brasil (destino final ou plataforma de exportação). Esses resultados parecem sugerir que ao longo do tráfico internacional da pasta base como a rota se dá majoritariamente pelo modal aéreo, não há importantes nodos de conflito.

No entanto, ao chegar os pontos da rede destinados à distribuição e revenda da pasta base aos grupos do tráfico local, o transporte até pontos de refino e revenda se dá majoritariamente pelo modal terrestre. Dessa forma, esses resultados parecem indicar o que os estudos de Salas Salazar(2015, 2010) indicavam: o controle territorial de corredores locais de transporte da drogas é fundamental e um ponto fulcral de conflitos armados.

Já as classes 2 e 3, representam pontos onde derivados da folha de coca e da cocaína foram apreendidos especialmente nas fases de preparo ao transporte internacional ou à venda local. Estas fases da cadeia de produção estão mais associadas à homicídios e acertos de contas e menos aos conflitos armados com alguma intensidade bélica como previsto na definição da UCDP.

Os conflitos armados irregulares na América do Sul são responsáveis pelos altos índices de violência na região (Martin 2006; Mares 2012; Battaglino 2012). Esse apontamento vai contra a tese de que a região é pacifica. A análise espacial aponta que os municípios onde a houve um número significativo de apreensões de pasta base de cocaína estão relacionados à conflitos irregulares de base estatal. Portanto, a presença do tráfico de cocaína explica parcialmente a ocorrência de conflitos nos pontos relacionados à distribuição de drogas. Esses nodos também são aqueles em que os conflitos armados são mais letais. Essas constatações parecem estar relacionadas ao fato de que diferentes grupos de narcotraficantes e milícias disputam o controle territorial dos pontos de distribuição de drogas ao comércio regional

Bibliografia

Battaglino, Jorge Mario. 2012. “The Coexistence of Peace and Conflict in South America :Toward a New Conceptualization of Types of Peace.” Revista Brasileira de Politica Internacional 55 (2): 131–51.

Billon, Philippe Le. 2004. “The Geopolitical Economy of ‘Resource Wars.’” Geopolitics 9 (1): 1–28. https://doi.org/10.1080/14650040412331307812.

———. 2003. “The Political Ecology of War and Resource Exploitation.” Studies in Political Economy 70: 59–95. https://doi.org/10.1016/S0962-6298(01)00015-4.

Mares, David. 2012. “Por Que Os Latino-Americanos Continuam a Se Ameaçarem: O Uso Da Força Militar Nas Relações Intra Latino-Americanas.” Varia Historia 28 (48): 599–625. https://doi.org/10.1590/S0104-87752012000200007.

Martin, Felix. 2006. Militarist Peace in South America. Conditions for War and Peace. New York: Palgrave Macmillan.

Salas Salazar, Luis Gabriel. 2010. “Corredores y Territorios Estratégicos Del Conflicto Armado Colombiano : Una Prioridad Por Territorializar En La Geopolítica de Los Actores Armados.” Perspectiva Geográfica 15: 9–36.

———. 2015. “Lógicas Territoriales y Relaciones de Poder En El Espacio de Los Actores Armados: Un Aporte Desde La Geografía Política Al Estudio de La Violencia y El Conflicto Armado En Colombia, 1990-2012” Cuadernos de Geografía – Revista Colombiana de Geografía VO – 24, no. 1: 157. https://doi.org/10.15446/rcdg.v24n1.47777.

Sobre os autores

Matheus Hoffmann Pfrimer é Professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG);

Marcos Vinicius de Souza Silva é pesquisador assistente (PIVIC-CNPq) do Núcleo de Estudos Globais (NEG)

Como citar este artigo

Mundorama. "Cadeia logística do tráfico de cocaína e espacialidade dos conflitos armados irregulares na América do Sul, por Matheus Pfrimer & Marcos Vinicius Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/08/2019]. Disponível em: <https://www.mundorama.net/?p=25115>.

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