Rússia: bode expiatório nos Estados Unidos, por Virgílio Arraes

O inexorável progresso tecnológico nos meios de comunicação acarreta nos círculos políticos a percepção de envelhecimento – quiçá degeneração – precoce das gestões devido à veiculação aos borbotões de informações, muitas das quais relacionadas com denúncias – ora fundamentadas, embora nem sempre de extrema gravidade ou de efeito duradouro – ou com meros mexericos, causadores de todo modo de incômodos no cotidiano.

A massa significativa de dados em circulação na sociedade ocasiona angústia e por que não ansiedade na população: já não há arenas onde os contendores se digladiavam de maneira física, com a expectativa de um vencedor apenas – simpático à plateia – a reinar por um bom período de tempo até a emergência do sucessor.

Hoje, a velocidade ocasiona ao vencedor das lides executivas ou parlamentares o triunfo fugaz, com curto desfrute de poder; por outro, a derrota do oponente é logo esquecida; assim, ele pode, a depender da ferida, reerguer-se sem desdouro e tornar à cena com influência.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump costuma deslocar a atenção de seus escândalos, nem sempre restritos ao âmbito administrativo, através de propostas polêmicas, como a da edificação de extensa muralha na fronteira com o México, sob a justificativa de guarnecer o país de atividades terroristas ou criminosas como narcotráfico ou emigração clandestina maciça. Auxiliado pela lembrança do atentado terrorista de 2001, muitos eleitores convencem-se da necessidade de tradicional proteção física.

Com isso, ele associa de forma indevida a imagem de latino-americanos a operações ilegais, como se fosse apanágio de uma comunidade tão somente. Enquanto o dirigente-mor pressionava o parlamento a aprovar a vultosa verba para viabilizar a edificação fronteiriça, quase um milhão de servidores públicos federais encontrou-se desapercebido, sem expectativa de receber seus provimentos e regularizar seus assuntos financeiros do dia a dia.

Mesmo com a continuidade do impacto do inaudito transtorno administrativo, a prioridade do Capitólio também se direciona a pesquisar a forma e o período de relacionamento do mandatário norte-americano com burocratas russos – especula-se se seus interesses privados ter-se-iam sobrepostos aos da Casa Branca, sob seu comando desde janeiro de 2017.

Diferente da postura de vários países ibero-americanos, acostumados a encobrir ou até a sumir parte do registro das ações de seus agentes, a preservação da memória na região anglo-saxônica é mais respeitada, ainda que o acesso não seja possibilitado no curto prazo de maneira irrestrita. Diante disso, deputados desejam o acesso a notas ou relatos concernentes aos contatos do presidente estadunidense no Kremlin e adjacências.

Em tendo sido a Rússia a principal adversária dos Estados Unidos durante meio século, não é crível que a elevada desconfiança da elite washingtoniana se desfizesse de modo lépido no tocante a sua contraparte moscovita. Magnifica a suspeição o fato de ter à testa do poder uma liderança originada do ambiente da espionagem bipolar, Vladimir Putin.

Aos democratas, agora maioria na Câmara dos Deputados, concerne-lhes fustigar o jactancioso governante, ao sugerir à opinião pública malogros na política externa, como a promessa de retirada militar da Síria – regime autoritário próximo da Rússia e do Irã – o compartilhamento inapropriado de medidas antiterroristas, a descortesia diplomática no destino imediato da esquálida Venezuela bolivariana e o recuo súbito relativo ao desenvolvimento do programa nuclear da ditadura norte-coreana, advindos do comportamento aparentemente aleatório de Trump.

Aos republicanos, ainda vantajosos em termos numéricos no Senado Federal, malgrado as restrições pessoais quanto ao titular da Casa Branca, cabe-lhes defendê-lo, ao invocar a fundamentação fantasiosa da oposição com vistas às suspeitas administrativas – a alegada existência do inimigo externo com robusta ascendência nos corredores presidenciais e cercanias, tema presente em romances ou filmes como Sob domínio do mal, de 1962 – ou a falta superior de firmeza da gestão predecessora perante o mesmo grupo do Kremlin.

Reais ou não, subsistentes ou não, as investigações do Congresso sobre as suspeitas ou até boatos devem continuar, porque a corrosão da gestão beneficia o Partido Democrata, convicto de que sua ausência da presidência da República durará apenas o mandato em curso – o revés na eleição parlamentar do ano passado subscreveria a análise.

Se o perigo ao país não se localizar na política exterior, o ponto de fraqueza poderia ser o do patrimonialismo, ao ter-se valido o milionário nova-iorquino de sua posição de primazia pública para obter benesses para si mesmo e para sua família, no caso no ramo imobiliário.

Derivariam desta questão, portanto, pressões sobre o posicionamento oblíquo de seus assessores diante de questionamentos parlamentares ou judiciais. A ideia dos adversários seria a de atualizar o roteiro do tempo de Richard Nixon, ao cercar o mandatário-mor de forma indireta e, desta feita, reduzir-lhe a possibilidade de reação.

Cônscios de que a destituição pela via congressista seria improvável, a despeito da constante divulgação disso nos meios de comunicação, os oposicionistas projetam tornar o dirigente incapacitado para a reeleição e claro estender o desgaste para os demais aspirantes republicanos, ao responsabilizá-los ao menos por omissão em face dos desmandos ou das atrapalhadas de Trump.

Paralelo à desorganização interna generalizada, a Casa Branca prepara a retirada de seus efetivos do solo sírio, por ter em tese anulado a atuação das forças extremistas lá, afirmação até certo ponto desconectada da realidade. Uma das forças combatentes contra os integristas é a curda, a ser abandonada por Washington de novo a seus algozes, ora iraquianos como durante a I Guerra do Golfo, no início da década de 90, ora turcos, como agora.

É possível que todo o esforço de Donald Trump para mitigar a repercussão política negativa da devassa sofrida por antigos assessores ou aliados desague em maior consumição. O problema da disputa de caráter paroquial entre republicanos e democratas são os desdobramentos no restante do planeta, com consequências negativas no curto prazo para o país. Na América do Sul, a Venezuela já se aproveita disso e estreita os laços com a Rússia.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: bode expiatório nos Estados Unidos, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 26/04/2019]. Disponível em: <https://www.mundorama.net/?p=25112>.

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