A política externa do governo Lula – sob o império de Fata Morgana

O choque entre constrangimentos da realidade e idiossincrasias é ubíquo na arte de governar. Muitos estadistas já superaram grandes desafios de suas respectivas épocas por uma boa compreensão desta relação. Conseguiram essa proeza pela habilidade de entrever cursos de ação não discerníveis aos seus contemporâneos. Nestes casos, o triunfo da imaginação no emprego de meios apropriados e disponíveis para alcançar objetivos claros e factíveis foi a chave do sucesso.

Outros não tiveram a mesma sorte em conseguir esse difícil equilíbrio, lançando suas unidades políticas em um elusivo salto para a ruína e fracasso. Aqui, muitas vezes, os equívocos iniciaram-se na escolha dos objetivos – não raro irrealizáveis, genéricos e inadequados.

Neste segundo caso, é uma retórica pusilânime que sustenta o fechamento cognitivo prematuro dos decisores, levando-os a transformar fracassos em sucessos; o presente desastroso em caminhos para um futuro faustuoso; objetivos equivocados e genéricos em circunlóquios rebuscados; e as críticas em incompreensão.

Progressivamente, há um reconhecimento de como a hodierna política externa brasileira aproxima-se deste caso. A presença e atuação brasileira na recente Cúpula África-América do Sul demonstra claramente os sintomas. Vamos dissecá-los:

1) Fracassos em sucesso: a Cúpula já tinha fracassado antes de sua abertura, com a falta de chefes de Estado – somente 25 dos 66 compareceram -, e uma agenda pouco adequada para a realização dos objetivos de longo prazo do países. Mesmo assim, a Cúpula, que nada trará para o país além de mais discursos vazios, foi defendida pelo nosso Presidente. Sob a lápide reanimada de um terceiro-mundismo agonizante, ele deseja “fixar os alicerces de um novo paradigma de cooperação Sul-Sul”. O nítido fracasso da Cúpula é transformado em sucesso pelo presidente Lula. Como? “só o fato de reunirmos aqui (na Nigéria) figuras importantes demonstra que o século 21 será muito melhor”, diz o Presidente Lula (aqui também). Ou seja, só o fato de se reunir meia dúzia de ditadores africanos com mais outra meia dúzia de mentecaptos errantes para se conhecerem já traz um sucesso por si só – um voluntarismo invejável. Da mesma forma, não há nem mais disfarces no caso do fracasso em conseguir o apoio à demanda por um assento permanente no Conselho de Segurança.

2) Críticas em incompreensão: antes mesmo de terminar a Conferência, o próprio presidente Lula criticou a imprensa por não dar atenção ao conclave (aqui também).

3) Presente desastroso em caminhos para um futuro faustuoso: o fracasso da economia brasileira, se comparado com outros emergentes, não sensibiliza o Presidente. Ele, que já esqueceu 2006, continua agarrado na idéia de promover uma mudança “da geografia mundial da economia criando novos mercados.”

4) Objetivos equivocados e genéricos em circunlóquios rebuscados: o Presidente Lula ampara seus objetivos equivocados no vago e batido discurso de que “outra globalização é possível”. Para justificar o foco excessivo em mercados alternativos, com os pesados custos de oportunidade impostos por essa estratégia, há um discurso maravilhado com uma miragem de Marco Polo. Veja o artigo do diplomata Sérgio Danese, afirmando que “a Argélia está na moda” ou declarações que a Venezuela é um país estratégico para o país (aqui também); bom, as modas passam com uma rapidez incrível, enquanto a realidade dos mercados dinâmicos subsistem. Se a Argélia e a Venezuela fazem parte de uma moda alimentada pelo ouro negro, os mercados desenvolvidos são uma realidade perene, pelo menos no futuro próximo. Convém salientar que não há nada de errado na promoção do comércio com esses mercados alternativos. O problema está no custo de oportunidade da ação: o país investe os seus limitados recursos na promoção comercial voltada para esses países, enquanto que mercados mais robustos e não sujeitos à cooperação de certos governantes de plantão – e da temporária capacidade de pagamento que acomete certos países – são negligenciados.

Além desses sintomas, a atitude errante da diplomacia brasileira também traduz-se em grandes deslizes e graves desvios de foco. Exemplo é o encontro com o ditador líbio Muamar Kadafi. Além do encontro, Lula ainda afirmou que a “Líbia tem caminhado para um processo de democratização.” Outro foi indecoroso apoio brasileiro ao veto à resolução que pedia punição contra responsáveis por massacre em Darfur. De acordo com editorial de hoje da Folha de São Paulo, “o Itamaraty abandonou a companhia de países como Canadá, Finlândia, Holanda e Suíça -que condenaram o Sudão- para juntar-se a algumas das piores ditaduras do planeta.”

Todos esses problemas ocorrem quando o país está perdendo de goleada de outros emergentes (aqui). Com efeito, enquanto Lula passeia na África em iniciativas de dividendos duvidosos, em Brasília seus ministros entram em conflito sobre a estratégia de energia nuclear no Brasil, em um momento em que o crescimento do país depende da superação do gargalo energético – talvez a única vantagem do crescimento medíocre do país seja o adiamento do previsível apagão. Outra questão relevante esquecida pelo Presidente – enfeitiçado pelas miragens africanas – é o problema da competitividade das exportações brasileiras: enquanto Lula estava na África, os exportadores brasileiros batalhavam mais uma vez para que o governo desburocratize a política comercial do país.

Será que o segundo mandato promoverá uma correção de rumos? Aparentemente não, de acordo com o Ministro Celso Amorim. Para uma gestão tão apegada aos cânones entronizados e às humilhantes sabatinas, há muito pouco espaço para uma auto-reflexão que confronte o resultado do espetáculo de verborragia da atual gestão com o espetáculo de crescimento de nossos congêneres.

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