Da Ilha de Formosa para a Boa Bahia (II), por Paulo Antônio Pereira Pinto

Tendo chegado a Mumbai, em 12 de agosto passado, iniciei nova fase de vivência asiática, que me trouxe da ilha de Formosa, na parte Oriental daquele continente – onde trabalhei durante cerca de 20 anos, em China, Malásia, Cingapura, Filipinas e Taiwan – para sua região Sul, na Índia, onde fui nomeado o primeiro Cônsul-Geral do Brasil na antiga Bombaim, que os portuguese chamavam de “Boa Bahia”.

Na coluna anterior, iniciei, nesse contexto, exercício de reflexão sobre aspectos político-culturais do continente asiático, com referência ao momento em que cheguei à China, em dezembro de 1982.

A partir de agora, quando começo a me familizar com a realidade da Índia, já em Mumbai, buscarei analisar o atual processo de emergência chinês e indiano, com ênfase no impacto cultural da nova inserção internacional dos dois países.

Quando cheguei a Pequim, em dezembro de 1982, conforme mencionei na coluna anterior, não era possível deixar de sentir uma certa tristeza, pelo fato de que havia sido encerrada, na China, uma Era de convicção poética maoista. Durante aquele período, acreditara-se que, em benefício do interesse comum da sociedade, centenas de milhões de pessoas poderiam ser levadas a patamar mais elevado do que o egoísmo individual.

A experiência chinesa de busca de uma sociedade igualitária encantara a muitos, no exterior. Os países do Terceiro Mundo admiravam sua combatividade e auto-suficiência. Os economistas ocidentais registravam o pleno emprego atingido, no campo, e invejavam sua força de trabalho disciplinada, na indústria.

O exercício de observação diário e o aprendizado da realidade do país, no entanto, me levaram, já nos meses seguintes, à verificação de que não se vivera na China, nas três décadas anteriores, tantos motivos de encantamento – conforme analisei no texto anterior.

No que diz respeito à Índia, quando modelos de desenvolvimento asiáticos são discutidos, raramente esta é mencionada, apesar de, hoje, aquele país ser considerado um competidor da China, em termos de centro de poder econômico e político, regional e mundial.

Lembra-se, a propósito, que, logo após adquirirem sua independência, as ex-colônias européias na Ásia, sofreram fortes pressões para seguirem a via Socialista. Em geral, quanto mais árdua tivesse sido a luta pela independência, mais radical seria o movimento em direção à esquerda de cada novo país.

As lideranças que então chegavam ao poder nesta parte do mundo encontravam justificativa para sua luta entre os partidos comunistas da Europa Oriental, enquanto os ensinamentos marxistas os inspiravam a culpar a miséria herdada em seus países no sistema colonial de exploração. Cabia concluir, portanto, que a adoção de um sistema igualitário, tipo socialista, levaria a resultados amplos e rápidos para melhorar o padrão de vida das populações recém emancipadas politicamente.

Em meados da década de 1980, no entanto, houve tomada de consciência, principalmente entre os países do Sudeste Asiático, de que economias centralmente planificadas não eram o caminho mais seguro para o desenvolvimento de jovens nações.

O modelo japonês, que havia permitido àquele país recuperar-se da tragédia da Guerra do Pacífico, parecia, então, cada vez mais atraente. A estratégia nipônica de industrializar-se por meio da aquisição de tecnologia ocidental, enquanto buscava o acesso a mercados e investimentos capitalistas, passou a ser seguida pelos “tigres asiáticos” – Cingapura, Hong Kong, Coréia do Sul e Taiwan. Em menor escala, Malásia, Tailândia, Filipinas e Indonésia procuraram incorporar-se a este processo de desenvolvimento.

Conforme é possível observar, após mais de dois meses em Mumbai, a ruptura indiana atual com seu passado de estagnação econômica, segundo dados disponíveis, deve ser entendida em perspectiva histórica. Isto porque o passado colonial indiano, sob o domínio britânico, deixou o legado cultural da associação do comércio com a exploração estrangeira.

Assim, Jawaharlal Nehru, o primeiro líder da Índia, pós-independência, em 1947, voltou-se para a União Soviética como um modelo de auto-suficiência e afirmação cultural, a ser obtido, através de processo de transformação de uma sociedade atrasada num “mamute” industrializado.

O planejamento central, então, seria a chave para o progresso. Todos os mecanismos de controle da economia indiana foram nacionalizados. Tais medidas fortaleceram três grandes grupos de interesse, então determinados a assegurar que a Índia fosse mantida nesse caminho.

Estes eram constituídos por: uma burocracia de vinte milhões de pessoas; um partido político, o Congresso I; e uma comunidade empresarial interessada em crescer sob a proteção de barreiras comerciais entre as mais elevadas do mundo.

Nessa perspectiva, durante os 30 anos seguintes, a Índia perseguiu uma política de “auto-suficiência”, de forma a que a indústria local veio a produzir praticamente tudo – aço, máquinas e ferramentas, carros, locomotivas, bens de consumo elétricos e eletrônicos duráveis, produtos para uso industrial, têxteis, calçados, papel, produtos farmacêuticos, computadores e mesmo usinas nucleares e satélites de comunicação.

Esta diversidade parecia garantir independência política e cultural mas, na verdade, as indústrias em questão eram, com frequência, ineficientes. Além disso, eram prejudicadas por legislações burocráticas que dificultavam a instalação de novas empresas. No final de década de 1970, portanto, ficou claro que mudanças eram necessárias. A maioria dos produtos indianos não podia competir internacionalmente, as exportações não haviam decolado, enquanto as importações aumentavam, levando a deficit comercial crescente.

Enquanto isso, tornava-se cada vez mais aparente que o peso colocado sobre o setor público era excessivo e que as perdas decorrentes contribuíam para a drenagem de recursos nacionais

A partir do início dos anos 1980, a Índia juntou-se à China como mais um país emergente na Ásia e vem apresentando algumas características marcantes que despertam crescente atenção dos analistas internacionais, como taxas elevadas e sustentáveis de crescimento econômico, da renda real per capita e das exportações de bens e serviços. O setor de serviços, em particular, não apenas tem sido o motor dinâmico do crescimento indiano desde a década de 1990, como também constitui um dos principais itens da pauta de exportações do país, com destaque para os serviços de tecnologia da informação (notadamente software).

Embora quase todos os indicadores de desenvolvimento para o início do milênio retratem aparentemente problemas ainda mais graves do que os do Brasil, os quais levarão décadas para serem superados, a situação progrediu relativamente à que prevalecia até o final da década de 1970. A parcela da população vivendo abaixo da linha de pobreza reduziu-se de 55% em 1974 para 26% em 2000. Como no início dos anos 1990, esse percentual era de cerca de 34%, é lícito atribuir ao processo de crescimento econômico dos últimos 14 anos essa melhora de bem-estar.

Ainda com mais de 300 milhões de pobres, a Índia conta com dois trunfos que, mantidas nas próximas décadas as elevadas taxas de crescimento, aumentam as chances de melhorar consideravelmente o nível geral de bem-estar social: primeiro, detém um tradicional regime democrático parlamentarista, bem como instituições governamentais e privadas relativamente modernas e consolidadas; segundo, ainda que o número absoluto de pobres seja bastante elevado diante do tamanho de sua população (cerca de 31% do total), o padrão de distribuição de renda é bastante equitativo comparado ao normalmente evidenciado em diversos países em desenvolvimento.

Assim, mantido o ritmo de crescimento econômico e de aumento da produtividade das últimas duas décadas, são maiores as possibilidades políticas de melhorar as condições gerais de vida da população sem o risco de conflito entre as classes sociais, haja vista o padrão razoável de distribuição da renda nacional.

As análises sobre a atual emergência da Índia e da China, no entanto, não devem ser esgotadas na avaliação do imenso potencial de consumo destes países. Cumpre levar em conta, também, como estas culturas evoluiram e adaptaram-se aos sucessivos desafios históricos que lhe foram impostos. Que tipo de influência estas alterações exercerão no cenário internacional?

A China, conforme já mencionado, tem reiterado que sua condição atual de potência emergente deve ser entendida como uma nova fase histórica, marcada por “ascensão pacífica” do país, destinada a beneficiar seu entorno imediato, onde existe forte influência cultural chinesa, e relações com o exterior.

Quanto ao fenômeno indiano, cumpre assinalar que, ao contrário dos chineses, esta nação nunca procurou expandir sua cultura, nem suas instituições democráticas. Sua grande preocupação parece ser a garantia da segurança interna de sua multiculturalidade, no contexto de entorno regional pacífico.

Mumbai, conforme tem sido, infelizmente, demonstrado, mais uma vez, durante o ano em curso, é o principal laboratório de experiência deste exercício multicultural do país. Aqui, têm acontecido os mais recentes atentados a bomba contra o equilíbrio procurado, permanentemente, entre muçulmanos e hindús.

Nesta cidade, também, estão sendo tentadas as mais importantes reformas econômicas indianas. Trata-se de um processo ditado pela sociedade civil, ao contrário de mobilização ditada pelo governo central, como acontece na China.

É com grande entusiasmo, portanto, que, nas colunas seguintes, pretendo contribuir para análise desta emergência da Índia, como observador em Mumbai.

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