Terror on the streets: uma nova fase do terrorismo internacional? Por Paulo Laraburu.

A relação existente entre o atentado terrorista de Boston, de 15 de abril, e o violento assassinato de um militar britânico em Londres, na localidade de Woolwich, em 22 de maio, não passou despercebida aos analistas de segurança internacional: ações executadas em dupla e, aparentemente, planejadas sem o apoio direto de organizações terroristas. Com base nessa relação e nas conseqüências da War on Terror cabe a seguinte pergunta: essas ações indicariam o prenúncio de uma nova fase do terrorismo internacional, caracterizada por atentados planejados por iniciativas individuais desconectadas de uma orientação operacional superior?

As Guerras do Afeganistão e do Iraque, inseridas no processo da War on Terror, contribuíram para aumentar os contingentes de voluntários dispostos a lutar pelas causas da Jihad, pois elas reforçaram o ódio fundamentalista islâmico contra o Ocidente. Mas esse não foi o único resultado do combate ao terror: a desarticulação de células terroristas e a pressão sobre suas redes operacionais e de financiamento estimularam ações de menor complexidade de planejamento e de execução.

O que talvez ainda não tenha sido estudado com rigor investigativo é a percepção, ainda inicial, de que as ações terroristas de Boston e de Woolwich sinalizariam o advento de um novo modus operandi do terrorismo internacional: ataques planejados e executados por iniciativas individuais e sem o apoio de células terroristas bem estruturadas.

A capacidade de organizações terroristas executarem grandes ataques parece estar debilitada, mas seu poder de difundir a ideologia jihadista pelas redes de redes permanece, graças à influência que exercem sobre a decisão individual de conduzir ações violentas em nome de uma causa maior. Nesse sentido, a nova estratégia de combate contra o Ocidente sustenta-se na idéia de que cada muçulmano deve constituir-se em seu próprio exército, conceito formulado por um dos principais ideólogos da Al Qaeda, Abu Musab al-Suri (LIA, 2008).

O poder de influência dessas redes decorre da forte identidade muçulmana, que quando levada a extremos pode ultrapassar valores nacionalistas. O argumento construtivista de Wendt (1999) auxilia na compreensão do alcance global da ação terrorista: idéias compartilhadas influem na formação das identidades e estas definem os interesses dos agentes. No caso em questão, Dzhokhar Tsarnaev, da ação de Boston, é checheno naturalizado norte-americano; e Michael Adeboloja, do ataque de Woolwich, é britânico, nascido e criado em Londres, de descendência nigeriana e convertido ao islamismo. Ambos justificaram suas ações como represália às mortes de muçulmanos na War on Terror.

As conclusões iniciais da ação de Woolwich indicariam também um outro componente de mudança do modus operandi do terrorismo internacional: a opção por alvos que produzam poucas vítimas. Mesmo alvos pontuais, como o assassinato do militar britânico, passariam a integrar a seleção de possíveis alvos. Esse procedimento mais se identifica com o tipo de terrorismo praticado nas décadas de 1950, 1960 e 1970 do que com o denominado terrorismo internacional, cuja tipologia inaugurada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 trabalha com ações destinadas à produção de centenas de vítimas e que resultam em grandes efeitos midiáticos.

O entendimento do terrorismo como fenômeno das relações internacionais é útil para a compreensão de sua evolução, o que permite caracterizá-lo por fases. Em cada fase, ele procura adaptar-se às mudanças da conjuntura política internacional, pois o fenômeno é uma forma de luta passível de moldar-se ao meio no qual opera. Aí está uma das razões de poder inferir-se a possibilidade de que as ações de Boston e de Woolwich indicariam o advento de uma nova fase do terrorismo internacional.

A evolução do terrorismo pode ser referenciada pelos distintos alcances geográficos da percepção de sua ameaça, que varia de acordo com aquela conjuntura: de uma ameaça de âmbito nacional, passou para uma fase na qual transformou-se em ameaça transnacional e, atualmente, na ameaça global representada pelo terrorismo internacional.

A fase do terrorismo percebido como ameaça nacional deu-se no contexto da onda de descolonização do final da Segunda Guerra Mundial, que atingiu a Ásia, África e o Oriente Médio. Nesse período, as organizações que empregavam o terrorismo enquadravam-se numa moldura de guerra de libertação colonial. Segundo Whittaker (2005, p. 22), “países tão diversos como Israel, Quênia, Chipre e Argélia, por exemplo, devem suas independências, pelo menos em parte, aos movimentos políticos nacionalistas que empregaram o terrorismo contra as potências colonizadoras.”

A partir de meados da década de 1960, agora como ameaça transnacional, o terrorismo continuou a ser visto no contexto revolucionário, porém incorporando grupos separatistas, étnicos ou nacionalistas, e organizações radicais ideológicas: o grupo separatista europeu Liberdade para a Terra Basca (ETA) e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) são exemplos de organizações terroristas desse período que adotavam a tática de ações pontuais e com quantidade de vítimas consideradas reduzidas pelos padrões da tipologia do terrorismo internacional. O ataque que matou onze atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972, praticado pelo grupo palestino Setembro Negro, ficou mundialmente conhecido como exemplo da transnacionalidade da ameaça terrorista.

Quanto à ameaça global, a Al Qaeda é a organização que mais caracteriza o alcance mundial do perigo terrorista, o qual manifesta-se pela construção ideológica do radicalismo jihadista. Segundo Khosrokhavar (2006), esse radicalismo fundamenta-se em três idéias principais, verdadeiros dogmas ideológicos: (1) a obcecada busca pela formação de uma nação muçulmana global, a neo-umma ─ mas não como entidade física, mas sim como uma “construção cultural baseada numa comunidade islâmica mística” (p. 86); (2) o Ocidente como ente demoníaco, e ; (3) a Jihad, a guerra santa para a expansão do islamismo, travada num contexto em que os “os radicais islâmicos acreditam que o Islão (sic) está em perigo através da ação malevolente do Ocidente (particularmente dos Estados Unidos), e portanto os muçulmanos devem aceitar o martírio para lutar contra um inimigo militar e economicamente o mais poderoso (p. 87)” ─ essa é a idéia principal da construção ideológica jihadista.

O processo evolutivo do terrorismo internacional pode ser tomado pela comparação da Al Qaeda com o monstro da mitologia grega Hidra de Lerna, que para cada cabeça cortada nasciam duas no seu lugar; ou seja, a cada golpe o monstro adquiria novas formas para continuar sua luta:

Como podemos caracterizar a Al Qaeda?

Nós, no Ocidente, gostamos de pensar por compartimentos, gostamos de isolar os nossos adversários. Todavia, é um erro concentrarmo-nos apenas nas estruturas e mesmo numa rede de redes, sob pena de não nos apercebermos de que a Al Qaeda sempre foi não só uma organização hierarquicamente constituída como um movimento e uma ideologia. É uma ameaça polimorfa (grifei). (RANSTORP, 2006, p. 189).

Nesse contexto evolutivo, o terrorismo, no plano tático, procura empregar novas formas de atuação para escapar do estrangulamento que lhe é imposto no plano estratégico. Essa particularidade adaptativa do terrorismo merece a atenção dos preparativos da segurança brasileira para os grandes eventos esportivos que se aproximam. Tal qual as guerras convencionais, em que o próximo conflito dificilmente será travado empregando as mesmas técnicas do último, uma preparação flexível do contraterrorismo certamente buscará considerar formas inéditas de atuação terrorista.

Se no plano tático a capacidade adaptativa do terrorismo reflete-se em mudanças no seu modus operandi, no plano estratégico ela propicia a permanência do terrorismo na agenda de segurança internacional, graças ao poder do agenda setting norte-americano. O sentido de ameaça permanente do terrorismo está refletido no discurso que o Presidente Barack Obama realizou na Universidade de Defesa Nacional, em Washington, no dia 23 de maio, para apresentar as novas diretrizes para o emprego de drones no enfrentamento ao terror: “America is at a crossroads. We must define our effort not as a boundless ‘global war on terror’ – but rather as a series of persistent, targeted efforts to dismantle specific networks of violent extremists that threaten America” (CURRY, 2013).

Esse discurso também retrata a estimativa de que o terrorismo internacional entra em uma nova fase. Com a capacidade reduzida de realizar ataques da dimensão do 11 de setembro, a  ameaça atual da Al Qaeda torna-se difusa e centrada em novas formas de atuação: “ the current threat is often from deranged or alienated individuals – often U.S. citizens or legal residents – (who) can do enormous damage, particularly when inspired by larger notions of violent jihad.”

Em conclusão, o advento daquilo que parece ser uma nova fase do terrorismo internacional é a manifestação empírica de que o conflito constitui-se em característica recorrente do sistema internacional, o que levou o Presidente Obama a enfatizar, nesse mesmo discurso, a permanência da ameaça terrorista: “neither I, nor any president, can promise the total defeat of terror.”

Referências

CURRY, Tom. Obama reframes counterterrorism policy with new rules on drones. NBC, News, 23 mai. 2013. Disponível em: < http://nbcpolitics.nbcnews.com>. Acesso em: 24 mai. 2013.

KHOSROKHAVAR, Farhad. O terrorismo na Europa. In: JAMAI, Aboubakr; et al. Terrorismo e Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2006.

LIA, Brynjar. Architect of global jihad: the life of Al Qaeda strategist Abu Mus’ab Al-Suri. Columbia University Press, 2008

RANSTORP, Magnus. Al Qaeda ─ uma rede de terror disseminada? In: JAMAI, Aboubakr; et al. Terrorismo e Relações Internacionais. Lisboa: Gradiva, 2006.

WENDT, Alexander. Social Theory of International Policts. Cambridge University Press, 1999.

WHITTAKER, David J. Terrorismo: um retrato. Rio de Janeiro. Biblioteca do Exército Editora, 2005.

Observação: a expressão Terror on the streets não é de autoria deste articulista. Inspirei-me na rede CNN, em cobertura televisiva de 23 de maio, sobre a ação de Woolwich.

 

Paulo Laraburu é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB, especialista em Política e Estratégia de Defesa pela Escola de Comando do Estado-Maior do Exército – ECEME e pelo Colégio de Defesa da Holanda e coordenador de curso na Escola Superior de Guerra, Campus Brasília (paulolaraburu@hotmail.com).

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