Os cinquenta anos da crise dos mísseis em Cuba, por Johny Santana de Araújo.

Na tarde de 16 de outubro de 1962, se realizou na Casa Branca a primeira reunião de muitas que aconteceria ao longo dos 13 fatídicos dias daquele ano, a referida reunião era para discutir sobre a descoberta das instalações de mísseis soviéticos R-12 Dvina (SS-4 Sandal) e R-14 Usovaya(SS-5 Skean) em Cuba Os acontecimentos daquele dia acabaram sendo um desdobramento do encontro ocorrido pela manhã em que haviam discutido sobre a operação Mangusto cujo objetivo era a derrubada do governo de Fidel Castro.

Com o agravamento da situação em 22 de outubro, o governo Norte-americano impusera o bloqueio naval contra a ilha de Cuba, medida sancionada inclusive pela OEA. Sob forte impacto o Presidente John Kennedy fez um pronunciamento em cadeia de rádio e televisão sobre a crise, comunicando a decisão tomada: caso os soviéticos não desativassem as bases e nem suspendessem o armazenamento de armas até às 10h do dia 24 de outubro, Cuba seria isolada. (PIMLOTT, p. 452).

A crise dos mísseis em Cuba pode ser compreendida como um dos momentos de maior tensão da guerra fria, em que as duas superpotências poderia de fato ter desencadeado uma hecatombe nuclear. Essa era a segunda vez que colocavam-se frente a frente numa possibilidade real de embate. A crise de 62 adquiriu uma projeção maior do que o bloqueio soviético de Berlim entre 1948 e 1949.

A gravidade dos acontecimentos pode ser traduzida pela memória de um dos mais dramáticos momentos. Em 27 de outubro de 1962, durante uma das patrulhas realizadas pela Marinha dos EUA no perímetro do bloqueio a ilha, houve a detecção de um submarino russo, o B-59, sendo este prontamente atacado por destróieres. Um oficial da Marinha Soviética, chamado Vasili Arkhipov, o segundo no comando do B-59, havia barrado uma ordem do comandante do submarino de disparar torpedos carregados com (ogivas) nucleares, contra um dos destróieres (CHOMSKY, 2004, p.78). O que era de se esperar de um oficial soviético era a pronta ação, mas a sua conduta de responsabilidade impediu uma tragédia de proporções incalculáveis.

O desfecho da crise se deu de forma negociada, o presidente John Kennedy e o premier Nikita Kruchev chegaram a um termo em comum sobre a retirada coordenada dos mísseis de Cuba enquanto os EUA se comprometeriam em retirar o seu arsenal de armas nucleares da Turquia, bem como o abandono dos objetivos de invasão da ilha.

Embora fosse claro que a questão era a segurança dos EUA, por outro lado, tratava-se de uma disputa estratégica em torno da ilha de Cuba. Isso ficou evidente pelo fato do governo cubano ver como um fator positivo a manutenção de mísseis apontados para os EUA e dessa formar garantir a sua soberania. Cuba uma vez aliado a URSS poderia manter algum meio de dissuasão para impedir quaisquer tentativas de intervenção militar Norte-americana.

Um dos resultados imediatos deixados pela crise de certa maneira ficou resumido à iniciativa política dos EUA de isolar a ilha do resto das Américas, com a situação política mundial adversa (guerra fria), haveria a garantia desse isolamento, e nesse contexto o governo Kennedy acabou retomando as ações encobertas contra Cuba (AYERBE, p. 51.). Além de que nos anos seguintes haveria a ascensão dos regimes de extrema direita na America latina, o que fortaleceria a continuidade do bloqueio.

Mas dois legados importantes com efeitos de longa duração foram deixados pela crise, um refere-se à urgência que se fazia quanto à questão do entendimento entre as superpotências, sendo assim, como ambos os lados cederam, um novo mútuo respeito passou a fazer parte das relações entre EUA e URSS, provocando um relaxamento das tensões geradas pela possibilidade de guerra, (PIMLOTT, p. 453). Essa mudança passou a ficar conhecida como detente.

Em 1962, quando o presidente Kennedy estabeleceu a linha de bloqueio em torno da ilha, o fez muito na certeza da capacidade de intimidação que poderia dispor, essa certeza tinha como base três pontos importantes para a política dos EUA naquela situação: a credibilidade, a capacidade, e a clareza de comunicação.

A intimidação funcionou porque o Presidente Kennedy lidava com um homem dotado de uma visão extremamente racional, o premier Nikita Kruchev, para quem a instalação de mísseis em Cuba não compensaria o risco de um conflito, a própria racionalidade nas decisões constituiria quarto elemento para o sucesso do desenvolvimento do conceito de deterrence. (PIMLOTT, p. 468).

Por outro lado, com o fim da URRS e o gradual abandono do Caribe como sua área de interesse, no inicio dos anos noventa, o incômodo Norte-americano com a situação política na ilha, parece não fazer sentido a não ser por conta da permanência no poder dos irmãos Castro bem como a situação dos direitos humanos, questões constantemente evocadas pelos diferentes presidentes americanos que se alternaram no poder desde a década de 60.

Desde o fim do século XIX, Cuba sempre fora área de influência Norte-americana, assim no pós-guerra da secessão os EUA projetaram seus interesses em direção ao Caribe. A guerra de 1898 contra Espanha para pôr fim a dominação colonial espanhola abriu um novo capitulo na história do seu expansionismo, a vitoria Norte-americana abriu o espaço para a consolidação de uma política intervencionista permanente, estratégia amplamente inaugurada a partir do governo de Theodore Roosevelt com o seu corolário do “Big Stick”.

Em parte isso explicaria a amargura dos governos que se sucederam na Casa Branca em relação a perda de força na região, após a revolução, mesmo com o fim do comunismo na URRS e do controle que este exercia sobre a ilha. Em outras zonas de interesse da política Norte-americana, que haviam sido perdidas no contexto da guerra fria, como o Vietnã, por exemplo, ao contrário de uma política de afastamento houve uma aproximação com o antigo país beligerante em 2001, tornando-os parceiros comerciais. O comércio bilateral entre Vietnã e Estados Unidos aumentou mais de seis vezes, de 2002 a 2010, para US $ 18,6 bilhões. (AUSLIN, 2012).

Frequentemente navios de guerra norte americanos realizarem visitas e manobras conjuntas com forças do Vietnã. Portanto há uma revitalização nas relações entre os dois países. O que se espera é que um dia essa integração chegue à Ilha do Caribe.

Bibliografia

AUSLIN, Michael. Why U.S. Should Embrace Vietnam [http://thediplomat.com/2012/04/12/why-u-s-should-embrace-vietnam/] acesso em 13/12/2012.

AYERBE, Luis F. (2004). A Revolução Cubana. São Paulo: EdUNESP, pp. 50-57, 2004.

CHOMSKY, N. (2004) O império americano: Hegemonia ou Sobrevivência. Rio de Janeiro: Campus, pp. 77-78, 2004.

PIMLOTT, John. (1984): “Cuba: A crise dos mísseis”. Guerra na Paz: Rio de Janeiro: Rio Gráfica, pp. 450-453, 1984.

PIMLOTT, John. (1984): “Intimidação Nuclear”. Guerra na Paz: Rio de Janeiro: Rio Gráfica, pp. 468-469, 1984.

Johny Santana de Araújo é Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense – UFF, Professor de História da Universidade Federal do Piauí – UFPI e Membro do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil – PPGHB. (johnysant@gmail.com)

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