Cinquenta anos de uma crise, por Seme Taleb Fares

Outubro de 2012 faz 50 anos de uma crise mundial que levou o planeta aos limites do abismo da hecatombe nuclear, a Crise dos Mísseis de Cuba. Essa avaliação soa exagerada ainda hoje. Contudo, a sequência de eventos que os líderes mundiais das duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, lograram evitar no sentido de um escalonamento militar, para muitos, é o motivo de não termos tido uma terceira, e talvez última, guerra mundial, dado que poderia dizimar, literalmente, toda a humanidade. E tudo isso cerca de dezessete anos depois do fim da segunda grande guerra. Se a Guerra Fria representou um período de insanidades, paranoias e medos, a Crise dos Mísseis foi o seu ápice, um capítulo especial das ações muitas vezes ilógicas e irracionais que permearam a história do período.

Em um contexto mundial já bastante conturbado daquele 1962, autoridades norte-americanas fizeram a descoberta, por meio de filmes aéreos, de que mísseis soviéticos de alcance médio e intermediário, com ogivas nucleares, capazes de atingir as principais cidades dos Estados Unidos, até a fronteira do Canadá, estavam sendo instalados em Cuba. Cabe lembrar que Cuba, tempos depois da revolução fidelista de 1959, havia avançado em direção à esfera de influência soviética, trazendo, com isso, as preocupações de contenção do avanço comunista para o interior do hemisfério americano.

Para os soviéticos, a instalação dos mísseis tinha o objetivo de contribuir para a expansão da revolução comunista no continente americano. Do mesmo modo, a presença efetiva e sólida de armamentos nucleares em território cubano serviria como meio de contenção dos planos norte-americanos de contrarrevolução em Cuba, como observado na frustrada tentativa da invasão da Baía dos Porcos, por um grupo anticastrista treinado pela CIA, em abril de 1961. Além do mais, Nikita Khrushchev, então primeiro-ministro da União Soviética, cria que essa seria uma movimentação, de certo modo, natural no conjunto de operações militares das superpotências, apesar do caráter sigiloso do transporte que se pretendia conferir. Afinal, não teriam antes os Estados Unidos situado mísseis semelhantes na Grã-Bretanha, Itália e Turquia, todos apontados para o território soviético? A ação de Moscou parecia mais do mesmo. Uma ameaça, uma imposição de limites aos Estados Unidos, mas que não deveria ser tratada como um evento de dimensões extraordinárias e fora do contexto usual da Guerra Fria.

A administração Kennedy, contudo, não reagiu da forma esperada por Kremlin. A alternativa de nada fazer contra a instalação dos mísseis em Cuba, para os Estados Unidos, converteriam em ceder espaço vital na disputa contra a URSS. Se os Estados Unidos permitissem a manutenção das bases soviéticas em Cuba, segundo seus estrategistas, as chances de o comunismo se espalhar pelo continente e restringir as ações dos Estados Unidos deveriam ser consideradas como certas.Por isso, a presidência norte-americana havia decidido irresolutamente em reverter o movimento de transferência de mísseis para o território cubano. Na visão de Washington, essa era a ameaça mais séria da URSS até então.

Entre as opções consideradas pelo governo do presidente norte-americano John Kennedy constavam as de caráter militar (ataque aéreo e terrestre contra Cuba), político-militar (bloqueio naval a Cuba a fim de impedir o transporte de novos mísseis, permitindo, então, tempo para pressionar Khrushchev a abandonar o plano) e diplomático (estabelecimento de diálogo com o governo soviético, sem qualquer tipo de confrontação pública) (HERSHBERG, 2004; BANDEIRA, 2009). Para John Lewis Gaddis, historiador e especialista em Guerra Fria, a Crise dos Mísseis demonstra o quão mal grandes potências podem tomar decisões em alta tensão e quando grandes custos estão em jogo (GADDIS, 2006; 75).

Depois de um intenso debate entre os principais membros do governo norte-americano (no âmbito da Ex-comm – Executive Committee), optou-se finalmente por uma solução político-militar. O presidente Kennedy decretou o bloqueio naval contra Cuba, anunciando em 22 de outubro em rede nacional de televisão dos Estados Unidos que o país daria “uma resposta retaliatória plena à União Soviética” se algum foguete nuclear fosse lançado sobre qualquer nação do hemisfério. Da mesma forma, acusou a URSS e seu primeiro-ministro de mentirem ao negar que Cuba estava sendo transformada em uma base capaz de lançar armas de destruição em massa. O único objetivo dessa ação soviética seria criar, em suas palavras, “uma capacidade de ataque nuclear contra o hemisfério ocidental”. Além disso, advertiu os soviéticos de que se reagissem por meio de agressão em algum outro lugar no mundo, como Berlim Ocidental, seria respondida pela ação que se fizesse necessária (Jornal do Brasil, edição de 23/10/1962).

Há bastante tempo, os governos soviético e norte-americano tinham consciência de que a bomba atômica havia alterado substancialmente a noção de guerra. Tornava ainda mais necessário limitar a escalada no uso de armas a fim de não ver seu próprio país consumido pela violência. O melhor, portanto, seria evitar qualquer tipo de guerra, que poderia degenerar para a destruição total, o que seria convertido mais tarde no conceito MAD (Mutual Assured Destruction). Para muitos, não restaria nenhum sobrevivente em uma eventual guerra nuclear. Em resumo, a bomba atômica foi o elemento central de explicação da dinâmica da Guerra Fria e desse episódio em particular, pelo terror de destruição ilimitada que representava.Outro fato alarmante é que Khrushchev havia disposto os mísseis sem um controle rígido, ou seja, comandantes locais estavam autorizados a, no caso de invasão, fazer uso do armamento nuclear, o que ilustra o grau de irresponsabilidade de parte a parte no tratamento de uma capacidade destrutiva, principalmente no que se refere às possibilidades de escalada e majoração das ações militares (GADDIS, 2006; 75-82).

Nesse sentido, o que de fato impediu o escalonamento nuclear da crise, além da retomada de posturas sensatas tanto de Khrushchev como de Kennedy, foram o medo e o balanço de poder. No fim, o primeiro-ministro soviético, apesar dos protestos de Fidel Castro, se convenceu de que o melhor a fazer seria recuar e evitar o risco de uma guerra nuclear. A solução encontrada, portanto, foi impedir o confronto direto e a possibilidade de suicídio coletivo e retomar o velho confronto entre as duas superpotências limitado a disputas militares indiretas (proxywars). Khrushchev, em mensagem enviada à Casa Branca, admitia que “só lunáticos e suicidas poderiam agir de outra forma”. Os treze dias de agonia, iniciados em 15 de outubro, quando o presidente Kennedy foi informado da situação, enfim chegaram a um desfecho, ao mesmo tempo em que se evitava uma guerra direta e se mantinha outra, a Guerra Fria.

Em troca, a União Soviética recebia a garantia de que os Estados Unidos não mais tentariam qualquer invasão contra Cuba e que retirariam os seus mísseis de alcance intermediário da Turquia. Ao lado disso, URSS e EUA concordavam que era preciso limitar as hipóteses de uso de armamento atômico, sinalizando para futuros acordos tácitos e escritos sobre o seu controle. A Crise dos Mísseis foi a última séria e relevante crise nuclear. Depois dela, houve vários alarmes e alertas, mas nada tão insano e imprevisível como aquele 1962.

Fontes:

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz (2009). Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

GADDIS, John Lewis (2006). The Cold War: a new history. Nova York: Penguin.

HERSHBERG, James G. (2004). “The United States, Brazil, and the Cuban Missile Crisis, 1962”.JournalofCold War Studies, vol. 6, n.º 2, pp. 3-20.

Jornal do Brasil, edição de 23/10/1962. Kennedy anuncia bloqueio naval de Cuba.

Seme Taleb Fares é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (seme.fares@gmail.com).

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