A crise do euro e o novo discurso político em favor do crescimento, por Rodrigo Fagundes Cézar e Daniel Martins Silva

Com o início da união monetária, a União Europeia deu um passo fundamental para uma nova fase da integração regional que já vinha sendo visada desde o início dos anos 70, com o chamado Relatório Werner. No entanto, o caminho da construção europeia não é apenas marcado pelo pilar econômico, mas, principalmente pelo pilar político e pelo projeto de lançamento da Europa como um ator internacional de relevo. Por sua vez, pela própria dimensão econômica assumida pela Europa, uma nova contração causada pelo fim do euro, por exemplo, poderia trazer mais consequências nefastas para uma economia mundial já enfraquecida.

 Neste artigo leva-se em conta a perspectiva neoliberal das Relações Internacionais de que as instituições internacionais são formadas com o objetivo de diminuir a sombra que envolve o futuro em meio a um sistema internacional anárquico, favorecendo a cooperação por meio de menores custos de transação e maior partilha de informações. Ao mesmo tempo, no entanto, não se deve perder de vista que os atores nacionais são racionais e utilitaristas e, nesse sentido, “os institucionalistas apenas esperam que ocorra cooperação interestatal quando estados tem interesses comuns significativos” (KEOHANE; MARTIN, 1995, p.39).

Segundo Alfredo Marques (2011, p.425), “cabe sublinhar que, desde o seu início, a integração europeia tem sido mais determinada por imperativos de ordem política do que por razões de caráter econômico”. Dessa maneira, com a união monetária, “a dimensão política da Europa no mundo poderá, assim, ficar mais próxima da sua dimensão econômica” ao transformá-la num polo de política econômica a nível mundial (MARQUES, 2011, p.415). Este objetivo comum de construir uma Europa-potência está presente em diversos documentos, desde o Tratado de Maastrich até a Declaração de Laeken, anexa ao Tratado de Nice, onde se lê que deve haver “uma abordagem [do processo de integração] que transforme a Europa num farol que indique o rumo para o futuro do mundo” (EUROPEAN…, 2001).

Tendo como base esse projeto, há divergências sobre as direções a serem seguidas pela zona do euro e o debate é cercado pela importância desse novo passo da integração no rumo do estabelecimento de uma Europa-potência. Da mesma forma, pode-se dizer que há um objetivo comum de superação da crise e reestabelecimento da confiança na economia europeia. No entanto, ainda não há consenso sobre a forma como a União Europeia se movimentará para chegar a esse objetivo, principalmente frente à falta de entendimento no eixo franco-alemão, a “locomotiva” da integração.

Nesse sentido, a situação atual é de embate político e incerteza. Desde os problemas com a negociação para formar um governo na Grécia e a vitória de François Hollande no dia 6 de maio deste ano os jornais e artigos de opinião estão anunciando um quadro de mudanças na zona euro. A situação grega e a nova presidência na França pressionam outros países para que as soluções pensadas para crise da dívida sejam reavaliadas. Investiga-se que esta pressão em cima dos planos de austeridade aumentou e que fraturas no âmbito da integração entre os países da Europa poderiam ser consequências deste quadro.

Em disputa com Nicolas Sarkozy, preferido parceiro do atual governo alemão, François Hollande ganhou com cerca de 51,63% dos votos. Em seu discurso aponta-se a necessidade de crescimento, renegociação do pacto fiscal e uma estimativa para diminuir a dívida até 2017, um ano a mais que o candidato concorrente. Na França, com as novas eleições e o suposto fim de um período de parceria profunda entre os líderes desses países – pelo menos na profundidade sugerida pelo o que se conhecia por “Merkezy” especula-se até onde haveria espaço para o enfrentamento com a Alemanha. A imprensa europeia fica dividida: uns acreditam que Hollande iniciaria um período de mudança na comunidade econômica enquanto outros acham que pouca coisa deve se alterar.

Alguns jornais chegaram a citar uma Alemanha isolada e enfraquecida diante de um quadro em que se coloca em questão o plano defendido por Merkel na resolução da crise financeira e recebido ampla repercussão no debate público. Utilizando-se de corte de gastos governamentais, redução de empregos no setor público, aumento da idade de aposentadoria, aumento de impostos e privatização de algumas empresas públicas pretende-se diminuir o déficit fiscal de países do Sul da Europa. No entanto, o partido de Merkel sofreu uma “pesada derrota” nas eleições de 13 de maio na Renânia do Norte-Vestifália, em favor dos social-democratas (SPD), o que poderia ser o sinal de uma progressiva perda de popularidade, ainda que esta seja uma análise um tanto quanto prematura.

Fala-se também da necessidade de a chanceler flexibilizar suas posições, visto a existência de fragilidades políticas, que poderiam causar um colapso na União Europeia depois de uma possível saída da Grécia na zona euro. Desde o dia 11 de maio, segundo informa a o jornal português Negócios, já se vem discutindo essa possibilidade: “É a Grécia que decide. E a saída pode ser gerida”. A popularidade de Alex Tspiras, do Syriza, a Coligação da Esquerda Radical, na Grécia, é o que faz da discussão um ponto central a ser tratado pelos jornais: “[Nós, do Syriza] não queremos concordar com qualquer tipo de políticas de resgate” (JORNAL…, 2012). Soma-se a isso o apelo de Roubini, para o qual a Grécia deve abandonar o Euro para evitar uma década de depressão e que isso não traria grandes prejuízos comerciais, visto que sua economia corresponde a somente 2% do PIB na zona do euro (ROUBINI, 2012).

O ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendendo que a Grécia cumpra os compromissos do plano chegou a anunciar que seria possível suportar a saída do país da comunidade monetária. No entanto, no último dia 16 de maio ficou claro a posição que a Alemanha e França defendiam frente ao contexto. Ambos necessitam e desejam a permanência do país no euro.

Paralelamente, Barack Obama, durante a última reunião do G8 no dia 19 de maio em Camp David, anunciou sua posição favorável a “enfoque responsável da austeridade orçamentária, conjugado com medidas enérgicas para o crescimento” (CORREIO…, 2012). O foco da reunião esteve voltado para a questão europeia, deixando para segundo plano questões como as ambições nucleares da Coreia do Norte, as repressões violentas na Síria e a segurança alimentar, mostrando que o assunto “crise europeia” é de grande interesse à presidência americana. Que perspectiva teria, por exemplo, Barack Obama, ao ver a possibilidade de uma nova retração assolar a recuperação econômica de seu país próximo à eleição de 2012?

Traçando um paralelo, o Acordo de Plaza invertido, assinado entre japoneses, norte-americanos e alemães, visava desvalorizar o iene em relação ao dólar como forma de evitar a desestabilização financeira que seria provocada pelo aprofundamento da crise japonesa, isso próximo à eleição do ano de 1996 nos Estados Unidos (KRUGMAN, 2009) – também em recuperação econômica à época e num contexto certamente menos dramático. Ainda que frente a essa constatação, obviamente não há como afirmar que haverá uma ação orquestrada no sentido de “salvar o euro” e evitar que uma nova Grande Contração se espalhe ao mundo. No entanto, é certo que a eleição de Hollande e o clima de recrudescimento das incertezas envolvendo a Grécia, além da própria opção pela austeridade – com a pressão popular em oposição às políticas de cortes de gastos e o possível reflexo no período eleitoral – mostram que novas alternativas à austeridade podem ser necessárias no contexto de uma crise de crescimento a nível mundial.

A contração de 2008 tomou as dimensões que conhecemos por conta de um acontecimento imprevisível, a falência do Lehman Brothers. Será possível que a crise atual se aprofunde por conta de acontecimentos que já se anunciam, como a saída da Grécia da zona do euro, por exemplo? Ou será que a saída desse país seja mais benéfica que custosa, como dito por Nouriel Roubini? E qual deve ser, além disso, a posição dos líderes europeus, principalmente Hollande e Merkel, frente a um objetivo comum, mas cujas formas de alcance divergem sobremaneira? A direção em favor do crescimento mostra que este já não pode ser mais um objetivo secundário frente ao torpor do desempenho global. No entanto, vale também questionar: de onde virá esse crescimento? Enfim, o único consenso que parece haver é o de que não há soluções fáceis para a questão europeia.

Referências

CORREIO BRAZILIENSE (2012). Obama abre reunião do G8 depois de defender políticas de crescimento. Disponível em: [http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2012/05/19/internas_economia,303148/obama-abre-reuniao-do-g8-depois-de-defender-politicas-de-crescimento.shtml]. Acesso em 31/05/2012.

EUROPEAN CONVENTION (2001). Declaração de Laeken sobre o futuro da União Europeia. Disponível em: [http://european-convention.eu.int/pdf/lknpt.pdf]. Acesso em: 01/06/2012

JORNAL DE NEGÓCIOS (2012). “O regresso do dracma? A questão já é quando”. Jornal de Negócios, 15/05/2012.

KEOHANE, Robert; MARTIN, Lisa (1995). “The promise of institutionalist theory”, International Security, vol.20, n.1., p.39-51.

KRUGMAN, Paul (2009). A crise de 2008 e a economia da depressão. Rio de Janeiro: Elsevier.

MARQUES, Alfredo (2011). Economia da União Europeia. Coimbra: Almedina.

ROUBINI, Nouriel (2012). “A Grécia deve abandonar o euro”. Jornal Negócios, 18/05/2012

Rodrigo Fagundes Cézar é Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de Marília, e aluno de mobilidade na Universidade de Coimbra. (rodrigofagundescezar2@hotmail.com)

Daniel Martins Silva é Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU, e aluno de mobilidade na Universidade de Coimbra. (daniel_m105@hotmail.com)

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