A ilha e o continente, por José Flávio Sombra Saraiva

O conceito de isolamento esplêndido foi forjado nos tempos da Rainha Vitória. Referia-se aos cuidados dos ilhós em relação ao continente europeu na segunda metade do século XIX. A Inglaterra era um império onde o Sol não se punha. Do Ocidente ao Oriente, do Atlântico ao Pacífico, os britânicos povoaram o planeta com comércio e capital. Exigiam possessões, criavam formas mistas de hegemonia, impunham tratados desiguais. E sempre a exigir tratamento diferenciado a seus nacionais em territórios alheios.

Com relação a seus vizinhos da Europa a situação era distinta. Primeiros-ministros e reis da corte de Saint James desconfiavam das volubilidades políticas e econômicas dos europeus do outro lado do Canal da Mancha. A distância entre Dover e Calais era considerada uma dádiva geográfica. A distância não deveria ser reduzida por iniciativas amadoras na arte política. Aproximar a ilha do continente não animava o humor inglês.

Berço da Revolução Industrial, a Inglaterra ajudara a criar a nova economia da Europa ocidental, ao espalhar as novas formas de produção e trabalho fabril, mas mantiveram olhos enviesados diante da adoção de regimes políticos dos continentais. Afinal, a excepcionalidade inglesa e sua história internacional os credenciavam a percorrer caminho próprio. Ou, no máximo, seguiriam ao lado dos sobrinhos norte-americanos do outro lado do Atlântico. Essa, certamente, a mais relevante inflexão histórica da inserção internacional da ilha até os dias de hoje. Da Segunda Guerra Mundial à invasão do Iraque, os dois gigantes do Atlântico Norte caminharam juntos, com ou sem a Europa.

Linha persistente da política externa inglesa, a noção de isolamento em relação aos vizinhos ribeirinhos não impediu movimentos de grande relevância política como os de Winston Churchill ou Harold Wilson, pró-europeus, em quadras históricas distintas, datadas pela Segunda Guerra Mundial e pelos anos do welfare-state britânico. A adesão aos tratados de integração na Europa foram desafios para os governantes de Londres. Inúmeras tentativas abortadas marcam a gradual inclusão desconfiada e tardia ao processo comunitário europeu no início da década de 1970.

Linhas políticas viçosas, como aquela liderada pela mais importante líder política do Reino Unido depois de Churchill, primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher, insistia na equidistância estratégica em relação aos sonhos de uma moeda única na Europa. Esse projeto iria amarrar a City londrina ao Banco Central da Alemanha e a uma moeda sem lastro fiscal independente. Lembro-me como hoje seu dedo em riste, nos acalorados e belos debates parlamentares dos fins dos anos 1980, quando por lá passei quase quatro anos nos estudos doutorais, no seu óbice ao arranjo monetário que previa uma Zona do Euro.

Passaram-se mais de duas décadas dessas explícitas desconfianças inglesas. Parece que tinham alguma razão. Mantiveram a libra livre, autonomia fiscal e o funcionamento de uma economia de serviços alimentada pelo sistema financeiro de Londres, segunda praça (ou eventualmente a primeira) na hierarquia das bolsas de valores do mundo. Demonstraram mais pragmatismo que o idealismo comunitário europeu.

Mas o túnel do Canal da Mancha amarrou a ilha ao continente por outros meios. A contração da economia continental européia está também no Reino Unido. Assisti ao vivo no ano passado o movimento violento da juventude londrina. Chamou-me atenção a desesperança de jovens professores e enfermeiras que saíram de casa para protestar contra o arrocho e os cortes. A crise dos serviços sociais, associada ao desemprego juvenil e ao baixo crescimento econômico, abraça de morte as dificuldades do Reino Unido com as da Europa Ocidental. Curioso até que as idéias do primeiro-ministro Cameron, expressas nas conversas no recente G-8 em Camp David, mantenham-se na linha de constrangimento fiscal, à moda alemã, mais do que um olhar próprio, insular, de equilíbrio entre afrouxamento fiscal e programas de crescimento. A corda anda tensa na ilha.

Em síntese, com euro ou sem euro, a crise que se abateu sobre países na Europa ocidental atravessou o Canal da Mancha. Esse fato está a exigir uma saída própria à moda inglesa? Ou serão as receitas do continente que atravessarão as águas gélidas na direção da ilha?

José Flávio Sombra Saraiva é PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, pesquisador 1 do CNPq e professor titular de Relações Internacionais da UnB (jfsombrasaraiva@gmail.com).

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