Tradição, descontinuidade e a política externa da Coreia do Norte, por Patrícia Nabuco Martuscelli

O lançamento do foguete norte-coreano Taepodong-2 no dia 13 de abril e sua queda após cerca de um minuto no Mar Amarelo na China poderiam ser considerados como mais uma tentativa fracassada da Coreia de Norte de defender seu lugar como “potência mundial” a ser temida. Como em ocasiões anteriores, o país anunciou sua intenção (colocar em órbita o satélite Kwangmyongsong-3) rompendo com compromissos previamente assumidos (no caso, um acordo com os Estados Unidos da América). Por suspeitarem das intenções pacíficas do país, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos anunciaram retaliações caso a Coreia do Norte prosseguisse com seus planos. Essa situação levou o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenar a atitude de Pyongyang. Frente a essas movimentações, a Coreia do Norte alegou que era seu direito soberano desenvolver um programa espacial pacífico. Por fim, com o fracasso do lançamento, o que poderia ter levado a maiores preocupações foi percebido pela comunidade internacional como uma vergonha para o governo norte-coreano.

Não é a primeira vez que uma tentativa norte-coreana falha; contudo, algumas posturas do país frente a isso podem sinalizar possíveis mudanças em suas estruturas internas. Para analisar a importância desse episódio envolvendo a Coreia do Norte é importante entender o processo interno pelo qual o país está passando. A morte de Kim Jong-Il e a subida ao poder de seu filho Kim Jong-Un mostram um momento delicado de transição do poder. Isso porque a posição do novo líder ainda não está consolidada frente aos seus pares. Dessa forma, é possível observar atitudes de seu governo a fim de retomar as diretrizes de política estabelecidas por seu pai. Por outro lado, a crise alimentar pela qual o país passa e a chegada de novas informações sobre como é a vida fora do regime contribuem para que esse passe a considerar, em alguns momentos, também sua população como prioridade.

Para entender a necessidade norte-coreana de se firmar como potência ameaçadora, que pode usar a força contra seus inimigos a qualquer momento, principalmente se for atacada, é interessante lembrar que a região das Coreias foi dominada pelos japoneses de 1910 a 1945. Nesse período, foram reprimidas a cultura, o idioma e as identidades coreanas. Kim Il-Sung (avô de Kim Jong-Un) participou da guerra que levou à expulsão japonesa e fundou o país em 1948.

Para garantir o regime, a Coreia do Norte se mantém como um país fechado, ou seja, com pouco contato com o exterior. Essa posição é oriunda do governo de Kim Il-sung que acreditava que o país deveria ser autossuficiente, diminuindo a sua dependência do restante do mundo. Contudo a expansão dos mercados negros e de mecanismos para burlar a censura (como o uso de aparelhos celulares perto da fronteira com a Coreia do Sul que realizam chamadas para a mesma) estão permitindo que parte da população tenha acesso a dados sobre o que está além de seu território. Essa nova corrente de informações pode suscitar questões frente à veracidade das informações divulgadas pelo governo. Dessa forma, mesmo que a ideologia existente na Coreia da Norte exerça grande influência sobre as pessoas e sobre sua percepção de mundo, não é impossível considerar que alguns indivíduos venham a reivindicar melhores condições de vida e vantagens (por exemplo, respeito às liberdades fundamentais) como as existentes em outros países. Por mais que a ideologia esteja enraizada nessa população, o ideal de isolamento norte coreano não é observável na realidade, principalmente com o advento de novas tecnologias que ultrapassam os mecanismos de controle.

O próprio ideal de autossuficiência não é atingido pela Coreia do Norte. Isso pode ser provado ao considerar que ainda hoje sua população sofre com os efeitos da crise de fome que atingiu o país e matou cerca de 1 milhão de pessoas na década de 1990.  O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas acredita que dois terços da população do país vivem com o equivalente a cerca de 400 gramas de grãos diários, distribuídos pelo Estado em um sistema de cupons, a metade do mínimo necessário. Contudo, de junho de 2011 até a nova colheita, a população deve receber 380 gramas por adulto, e durante os meses de entressafra no verão do Hemisfério Norte 150 gramas. Por essas razões, um em cada três coreanos tem baixo desenvolvimento físico e mental e aproximadamente metade das crianças tem desnutrição crônica, sendo que 23% estão abaixo peso. Frente a essas informações, a crise alimentar vivida pelo país toma outras dimensões.

Uma população que convive com a fome não é uma população satisfeita com seu regime. Assim um governo que não consegue garantir condições mínimas para seus cidadãos não deve esperar seu apoio em situações críticas. Uma ideologia por mais forte que seja não alimenta uma população e não impede que 1 milhão de pessoas morram de fome.

Nesse sentido, o acordo alimentar assinado com os Estado Unidos da América (EUA) em 29 de fevereiro poderia ser considerado como uma maneira de o governo norte-coreano considerar a questão populacional em seus cálculos. Esse fato pode ser interpretado como uma ruptura com a política norte-coreana até então desenvolvida. A Coreia do Norte se comprometeu a suspender lançamentos de mísseis de longo alcance e testes nucleares, além de aceitar inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica em seu território em troca de 240 mil toneladas alimentos que poderiam ter ajudado 2,4 milhões de pessoas, principalmente crianças e gestantes.

Contudo, o novo governante preferiu desconsiderar o compromisso assumido e lançar o foguete. Essa reviravolta no discurso de Kim Jong-Un pode ser entendida como uma forma de seguir as diretrizes de seu pai (Kim Jong-Il) que priorizava as forças armadas e o programa nuclear para construir uma nação poderosa e próspera. Isso pode ser visto devido ao modo como a população e o partido veem o novo líder de pouco idade, experiência e falta de autoridade se comparado com seu antecessor. Assim, a decisão do governante pode ser uma tentativa de legitimar seu poder para a população e o próprio partido além de mascarar a fraqueza do Estado para o plano interno e para comunidade internacional, visto que a Coreia do Norte passa por uma estagnação econômica e uma grave crise alimentar.

Ao se tratar da Coreia do Norte muitas são as contradições e mudanças que podem ser vistas nessa transição de poder. A primeira delas é o fato de as mídias estatais norte-coreanas terem avisado o fracasso do lançamento do foguete para a população, coisa nunca antes observada na história do regime. A segunda é o próprio acordo alimentar com os EUA que mostrou para a comunidade internacional a fraqueza e a situação precária do país. Além disso, foi priorizada, nesse momento, a população civil em detrimento de questões militares. Essa consideração poderá ser observada em próximas ações governamentais. Contudo, Kim Jong-Un necessita se firmar no cargo como líder supremo, principalmente para o partido.

Muitas ações contraditórias da Coreia do Norte poderão ser percebidas no futuro. Isso porque o regime interno do país na pessoa de Kim Jong-Un está oscilando entre desenvolver sua própria política voltada para aspectos que considere importante e a necessidade de justificar e legitimar seu poder para seus pares do partido com uma continuação da política de seu pai. Nessa balança, devem ser considerados ainda outros fatores como a entrada cada vez maior de informações que vão contra e descaracterizam o regime norte-coreano e a possibilidade de mais uma onda significativa de mortes causadas pela fome. Frente a esse cenário não é provável que apenas a ideologia consiga manter o sistema sociopolítico norte coreano.

Nesse momento, o regime devesse talvez primar o plano interno, especialmente as condições de vida de sua população, do que tentar se firmar como potência ameaçadora no plano internacional. Mesmo porque o fracasso do lançamento do último foguete revelou as limitações tecnológicas da Coreia do Norte. Isso não elimina as preocupações do mundo quanto às intenções e o poder nuclear norte coreanos, mas mostra as fraquezas de um país que não consegue alimentar sua população por priorizar questões militares e nem nessas obter pleno êxito.

Patrícia Nabuco Martuscelli é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB  e membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-iREL-UnB (patnabuco@gmail.com)

Print Friendly, PDF & Email

1 Comentário em Tradição, descontinuidade e a política externa da Coreia do Norte, por Patrícia Nabuco Martuscelli

  1. Patrícia, teu artigo ficou muito bom, parabéns. Gostaria de tecer alguns comentários. Você citou a humilhação nacional como uma das racionalidades por trás do fechamento do país ao Ocidente. Acho que isso explica, mas não justifica. Vários países foram submetidos aos “tratados desiguais” que duraram quase um século para China, Japão, Turquia, Pérsia e Sião. Mas esses países hoje, uns mais, outros menos, tentam se desenvolver não necessariamente se fechando ao Ocidente. Acho que parte do problema norte-coreano não está no quanto mas sim no como. Eles querem se desenvolver a partir de uma noção válida (mas que hoje levaria anos para desenvolver) de que a indústria bélica puxa o desenvolvimento da indústria pesada e assim a economia começaria a se movimentar. Talvez no fundo no fundo eles até se vejam como fornecedores de tecnologia para páreas internacionais (porque, no fim, é isso que o isolamento internacional faz) num futuro não muito distante. Se eles conseguissem desencadear uma produção industrial de base, provavelmente a “nação próspera e poderosa” que você mencionou seria um projeto e não um ideal, como é hoje. Mas, convenhamos, sem energia, alimento, know-how (os outros países asiáticos tiveram a vantagem de se abrir ao exterior para incorporar tecnologia, a RPDC faz justamente o contrário) e até know-what (falta uma decisão do por onde começar, míssil é muito avançado pra quem não desenvolveu indústria de tratores), eles não irão muito longe do que estão hoje. Por isso, concordo com você, a autossuficiência não virá, para tanto eles precisam de acordos com os países estrangeiros, mesmo que para isso tenham de abrir mão de seu “orgulho nacional”. Seja lá do que eles se orgulhem. Por fim, não entendo o que se passa na cabeça da família Kim, nem o que eles pensam depois de conversarem com a China. Acho que a única explicação é o il, mas no sentido de ill.

Top