Estados Unidos, China e as mudanças na interdependência assimétrica após uma década de Guerra ao Terror, por Bruno Hendler

Ao final de uma década de combates no Iraque e no Afeganistão, o aparato militar norte-americano volta-se para a Ásia oriental e Pacífico. O reforço da cooperação militar com a Austrália após a visita de Barack Obama em novembro de 2011 é um dos muitos sinais de que, com a morte de Osama Bin Laden, a China passa a ser o centro das atenções no Pentágono. Os rumos da relação sino-americana são incertos e as análises variam entre uma confrontação ao estilo Guerra Fria e uma cooperação econômica mutuamente benéfica. Quaisquer que sejam os cenários possíveis, é preciso constatar que os pressupostos desta relação foram alterados em favor da China na última década, e os custos da Guerra ao Terror para os Estados Unidos foram decisivos neste processo.

É bem verdade que o forte crescimento econômico chinês começou com a abertura promovida por Deng em fins dos anos 1970, e vinte anos depois o país já substituía o Japão como principal força motriz da economia asiática devido, em grande medida, à atração de investimentos e tecnologia de origem norte-americana. Mas os ganhos relativos do emergente tornam-se mais nítidos – e ocorrem mais rapidamente – quando as atenções e recursos da grande potência estão voltados para outros problemas, seja uma guerra ou uma crise econômica. Logo, existe alguma relação entre custos econômicos e políticos da Guerra ao Terror para os EUA e possíveis ganhos relativos da China? Em outros termos, de que forma a China se beneficiou com os custos dos EUA nas invasões do Iraque e do Afeganistão?

 A Guerra ao Terror expôs as fragilidades estruturais da economia norte-americana e acentuou a dependência de capital estrangeiro para financiar os déficits de seu balanço de pagamentos. Embora os gastos totais da guerra tenham representado uma parte pequena do PIB americano, boa parte deste custo, que chegou a cerca de dois trilhões de dólares em dez anos, foi custeado por capitais oriundos da compra de títulos americanos por governos estrangeiros – principalmente China e Japão. Ademais, o corte na arrecadação e o aumento das despesas públicas, promovidos pela administração de George W. Bush, levaram o Estado a um endividamento em relação ao PIB somente comparável à época da Segunda Guerra Mundial, ultrapassando 100% deste indicador em 2009 (BEA).

Enquanto isso, a China tornou-se um duplo pólo na economia mundial (MEDEIROS, 2008, p. 256) ao absorver as exportações asiáticas e, por meio de capitais e tecnologia estrangeiros, manufaturá-las nas Zonas Econômicas Especiais; e através de um keynesianismo desenvolvimentista (CARVALHO; CATERMOLA, 2009, p. 248) tornar-se o maior produtor e exportador de manufaturas do mundo, abastecendo os mercados de países desenvolvidos.

Assim, a intrincada interdependência econômica entre os EUA (devedor e consumidor de produtos chineses) e a China (credora da dívida norte-americana e dependente do consumo dos EUA) se intensificou na última década, passando de uma dependência quase total chinesa, nos anos 80, para uma dependência mútua menos assimétrica nos anos 2000. Joseph Nye (2009, p. 256), afirma que nenhum dos lados tem pressa em romper esta (nova) simetria de vulnerabilidades, e Wallerstein (2012) afirma que:

 Na situação em que o mundo se encontra hoje, a China tem um superávit significativo no balanço de pagamentos com os Estados Unidos. Mas investe muito deste saldo nos próprios títulos do Tesouro norte-americano, o que permite a Washington continuar a investir grandes recursos em suas múltiplas atividades militares no mundo todo (principalmente no Oriente Médio), assim como ser um bom consumidor de exportações chinesas.

 Portanto, em termos materiais a Guerra ao Terror acelerou a ocorrência de um outro tipo de MAD (ou destruição mútua assegurada, em inglês), agora entre EUA e China: a chamada MADE (ou destruição econômica mútua assegurada) que vincula as vulnerabilidades econômicas de ambos os países. A grande diferença é que a antiga MAD entre os EUA e a União Soviética, que pautou a Guerra Fria, era definida essencialmente em termos de capacidades militares, o “equilíbrio do terror”, enquanto que na atual MADE, a vulnerabilidade é medida em termos econômicos e seus impactos são tanto militares quanto propriamente econômicos.

Assim, Nalapat (2012) sugere que embora a economia norte-americana possa suportar um rompimento com a China, a União Européia não teria a mesma sorte e uma crise na Europa ocasionaria, por efeito dominó, uma crise maior na OTAN e nos EUA. De forma homóloga, a China teria seu projeto de desenvolvimento seriamente abalado em caso de rompimento de relações econômicas tanto com os EUA quanto com a União Européia.

 A peculiaridade da MADE em relação à antiga MAD é a vinculação das economias chinesa e norte-americana entre si e a relação destas com as capacidades políticas e estratégicas de ambos os países. Neste sentido, embora o Exército de Libertação Popular (ELP) da China não tenha condições de fazer frente ao poderio bélico norte-americano, o país asiático atingiu um estágio (quantitativo e qualitativo) de interdependência econômica pouco assimétrica com os EUA que torna extremamente custoso qualquer tipo de confronto armado direto entre ambos (NALAPAT).

Porém, os ganhos geopolíticos da China com a Guerra ao Terror não podem ser desprezados, embora sejam menos evidentes. O maior deles é a concentração em larga escala da máquina militar norte-americana na região do Grande Oriente Médio e o conseqüente investimento em forças de combate em terra para evitar o fracasso absoluto contra os insurgentes do Iraque e Afeganistão. Assim, a vizinhança imediata da China – a região Ásia-Pacífico – recebeu menos atenção das forças armadas dos EUA nos anos 2000 e foi palco de treinamentos da marinha chinesa e de articulações diplomáticas deste país com aliados tradicionais dos EUA. Segundo Lee (2011), o foco de Washington no combate ao terrorismo no Oriente Médio foi um alívio para os estrategistas chineses, que viram na invasão do Iraque e do Afeganistão, bem como no enfraquecimento da economia norte-americana, uma janela de oportunidade para projetar influência na Ásia e além.

A postura unilateral do governo Bush também enalteceu o papel da China na resolução de impasses estratégicos com o Irã e a Coréia do Norte, ou seja, ao isolar os países do chamado “eixo do mal”, Bush abriu espaço para a aproximação chinesa, tanto em termos econômicos quanto estratégicos, aumentando os desafios para seu sucessor. Daí os analistas mais alarmados verem na aquiescência da China quanto ao programa nuclear iraniano uma forma de contrabalancear os interesses norte-americanos no Oriente Médio e garantir um fornecedor fiel de petróleo em caso de um hipotético confronto por Taiwan.

Portanto, da MAD com a URSS à MADE com a China, o desafio norte-americano ganhou complexidade. É provável que a alteração na assimetria entre EUA e China ocorresse de qualquer forma, com ou sem Guerra ao Terror, devido às mudanças qualitativas da crescente interdependência econômica entre ambos. Mas não há dúvidas de que os custos financeiros arcados pelos EUA com as invasões do Iraque e Afeganistão, bem como os efeitos colaterais políticos e estratégicos, aceleraram esse processo.

Referências

Bureau of Economic Analysis (BEA). U.S. Department of Commerce. Disponível em: http://www.bea.gov/. Acesso em: 12/03/2012

CARVALHO, Cecília; CATERMOLA, Fabrício. Relações econômicas entre China e EUA: resgate histórico e implicações. Revista do BNDES: Rio de Janeiro, v. 16, n. 31, p. 215-252, 2009.

MEDEIROS, C. Desenvolvimento econômico e ascensão nacional: rupturas e transições na Rússia e China. In: ______; FIORI, José L.; SERRANO, Franklin. O mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro: Record, 2008.

Nalapat, Madhav Das. China’s Mutually Assured Destruction of Economy (MADE) Weapon for USA. Disponível em: http://www.china-defense-mashup.com/chinas-mutually-assured-destruction-of-economy-made-weapon-for-usa.html/2. Acesso em: 12/03/2012; data de publicação: 04/02/2012.

Nye, Joseph S. Cooperação e conflito nas Relações Internacionais. São Paulo: Editora Gente, 2009.

WALLERSTEIN, Immanuel. China e Estados Unidos: bem além dos mitos. Disponível em: http://www.outraspalavras.net/2012/01/23/china-e-estados-unidos-bem-alem-dos-mitos/. Data de acesso: 28/02/2012; data de publicação: 23/01/2012.

Bruno Hendler é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília –UnB, e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior –  CAPES.

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