Avaliação e possibilidades estratégicas sobre os desentendimentos dos Estados Unidos e Israel com o Irã, por Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge

Um fato frequentemente não considerado quando se fala da perspectiva de um ataque militar ao Irã é que as agências de inteligência dos Estados Unidos não acreditam que Teerã esteja tentando, de maneira ativa, construir um artefato nuclear. Uma avaliação de inteligência altamente classificada que circulou entre os decisores políticos norte-americanos no início de 2011 é um exemplo desta percepção, originalmente feita em 2007. Ambos os relatórios, de 2007 e 2011, conhecidos como “estimativas de inteligência nacional” (national intelligence estimatives, em inglês), concluem que Teerã interrompeu, em 2003, os esforços para desenvolver e construir uma ogiva nuclear – isso se de fato o Irã estivesse seguindo este caminho. 

O relatório mais recente, que representa o consenso de 16 agências de inteligência norte-americanas, indica que o Irã estaria realizando pesquisa científica que permitiria ao país a construção de uma arma nuclear, muito embora Teerã não tenha, ainda, procurado fazê-la. Assim, por enquanto, militares e funcionários de inteligência estadunidenses não acreditam que a liderança iraniana tenha tomado a decisão de construir uma bomba nuclear. Entretanto, da mesma forma como os decisores políticos dos EUA usaram mal a inteligência em relação às inexistentes armas de destruição em massa iraquianas, também pode haver um mau uso da inteligência disponível sobre o Irã.

Diferentemente do que apontam as estimativas de inteligência mencionadas acima, alguns desdobramentos recentes têm reforçado a visão de que o Irã estaria, secretamente, buscando o desenvolvimento de uma arma nuclear. Em 2009, agências de inteligência ocidentais descobriram uma instalação subterrânea clandestina chamada Fordow, próxima da cidade de Qom – que fica a sudoeste de Teerã – estabelecimento este que seria capaz de alojar cerca de 3.000 centrífugas para o enriquecimento de urânio. Estima-se que Fordow esteja enterrada sob 80 metros de rochas e solo, dando ao Irã melhor proteção contra quaisquer eventuais ataques militares dos EUA e/ou Israel.

Embora as estimativas nacionais de inteligência não apontem para tal percurso, atualmente vive-se em uma situação na qual, de uma perspectiva iraniana, faria todo o sentido a posse de armas nucleares. Para ilustrar isso, basta retomar alguns exemplos históricos recentes: Muamar Kadafi, ex-ditador da Líbia, desistiu da bomba atômica em 2003, e Saddam Hussein, ex-líder do Iraque, não tinha uma (apesar de uma distorção política da inteligência ter indicado o contrário). Ambas as lideranças foram derrubadas: Kadafi por uma ação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que teve participação dos EUA, e Saddam Hussein por uma intervenção unilateral de Washington. Apenas o primeiro caso teve respaldo das Nações Unidas, por meio da resolução 1973 do Conselho de Segurança.

Países como a Coréia do Norte, Paquistão, Israel e a Índia possuem a bomba atômica e têm recebido todos os tipos de concessões e de relações normalizadas, passando por um olho cego de Washington em relação ao apoio ao terrorismo, chegando ao comércio e à assistência militar. Sempre que os EUA atacam um país não nuclearmente armado, e ignoram os países nuclearmente armados, acaba enfraquecendo o regime internacional de não proliferação nuclear, demonstrando a efetividade das armas nucleares e aumentando a atração pelas mesmas.

Se Israel decidir lançar um ataque militar ao Irã, os pilotos de sua Força Aérea terão que voar mais de 1.400km através de espaço aéreo não-amistoso, precisarão também reabastecer seus aviões no ar a caminho dos alvos, assim como repelir as defesas aéreas iranianas, atacar múltiplos sítios subterrâneos simultaneamente e usar ao menos cem aviões. Seria uma operação imensa e complexa, muito diferente dos ataques cirúrgicos ao reator nuclear da Síria em 2007 e ao reator iraquiano de Osirak em 1981.

Questiona-se, inclusive, se Israel possuiria a capacidade militar para conduzir um ataque dessa magnitude. Tel-Aviv poderia atacar os quatro principais sítios nucleares do Irã, quais sejam: as instalações de enriquecimento de urânio em Natanz e Fordo, o reator de água pesada em Arak e a planta de conversão de yellowcake em Isfahan. Para fazer isso por via aérea, há basicamente três rotas: pelo norte, sobre a Turquia; pelo sul, sobre a Arábia Saudita; ou, finalmente, uma rota central através da Jordânia e do Iraque. A rota mais provável seria esta última, pois o Iraque ainda não reestabeleceu defesas aéreas efetivas, e os EUA, desde a retirada de suas tropas em dezembro de 2011, não têm mais a obrigação de defender o espaço aéreo iraquiano, não podendo assim impedir a ação da aviação israelense.

Ademais, Israel teria que usar aviões para reabastecimento. O país em questão possui cerca de oito aviões KC-707 norte-americanos, mas não está claro quantos estão funcionando de fato. Entretanto, estes aviões tanque teriam que ser protegidos por outros aviões além dos caças que executariam os ataques. Israel tem cerca de 125 aviões caça F-15I e F-16I, de fabricação estadunidense. Uma opção seria voar com os aviões tanque a mais de 15.000 metros de altura, tornando-os assim alvos mais difíceis para as defesas aéreas iranianas. Israel também teria que utilizar seus aviões de guerra eletrônica para penetrar as defesas aéreas iranianas e congestionar os sistemas de radares do Irã, criando assim um corredor para os caças realizarem os ataques às instalações nucleares. Assumindo que Israel não utilize um artefato nuclear, Tel-Aviv possui bombas GBU-28 do tipo “bunker buster” (“destruidoras de bunkers”), as quais poderiam causar danos em alvos iranianos mais protegidos.

O Irã, seguindo uma estratégia de guerra assimétrica, poderia contra-atacar por meio de seus “proxies” (intermediários) Hamas e Hezbollah, já que Teerã teria relativa desvantagem para um enfrentamento convencional direto com Israel. Especialistas acreditam que a experiência da guerra em 2006 entre Israel e o Hezbollah, na qual este grupo disparou cerca de 4.000 foguetes sobre Israel, foi apenas uma pequena demonstração do que pode acontecer no caso de um ataque ao Irã. A performance de Israel na guerra de 2006 foi vista como um desastre, particularmente pela incapacidade dos militares pararem a chuva de foguetes lançada pelo Hezbollah no norte de Israel. O chefe da inteligência militar israelense, Major General Aviv Kochavi, recentemente disse que os inimigos de Tel-Aviv possuem agora cerca de 200.000 foguetes e mísseis apontados para Israel.

Funcionários da defesa israelense também alertam que a Síria, aliado próximo do Irã, pode ter mísseis guiados por GPS (sistema de posicionamento global) e armas químicas. Somando-se a isso, aparentemente o Hezbollah aprimorou bastante o seu arsenal desde a guerra de 2006, e militantes da Faixa de Gaza podem estar contrabandeando armas da Líbia pós-Kadafi. Também existe a preocupação de o Hezbollah e o Hamas terem acesso à armas de destruição em massa. Caso seja dado acesso a estas armas para o Hamas e o Hezbollah, ambos os grupos aumentariam sua capacidade e autonomia. Isso reduziria a dependência que eles têm do Irã, assim como diminuiria a ascensão que Teerã tem sobre eles. O Irã não disponibilizaria o acesso a armas de destruição em massa para tais grupos justamente porque eles são, e o Irã quer que continuem sendo, “proxies”, ou seja, terceiros que podem ser usados por Teerã em sua guerra por procuração contra os Estados Unidos e Israel.

Referências bibliográficas

Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge é Mestre em Relações Internacionais e Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP e das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU (bernardowahl@gmail.com).

Print Friendly, PDF & Email

4 Comentários em Avaliação e possibilidades estratégicas sobre os desentendimentos dos Estados Unidos e Israel com o Irã, por Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge

  1. Excelente artigo! Eu acho realmente necessário esse esforço em traduzir as possibildiades estratégicas de um eventual conflito que surja nesses próximos meses.

Top