Avaliação das ameaças globais aos Estados Unidos, por Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge

No dia 31 de janeiro de 2012, James R. Clapper, diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos, testemunhou perante o comitê de inteligência do senado estadunidense. O tema abordado foi a avaliação – feita pela comunidade de inteligência dos EUA – sobre as ameaças globais aos Estados Unidos nos próximos dois a três anos (ou seja, mais ou menos até 2015). Este breve artigo, com base em uma versão não classificada do testemundo de Clapper – disponível na internet (e cuja referência é apontada no final deste texto) – pretende traçar um panorama desta avaliação de inteligência em questão. O testemunho está dividido em sete grandes partes, a saber: terrorismo, proliferação, ameaças cibernéticas, contra-inteligência, atrocidades em massa, desafios globais e, finalmente, ameaças significativas de inteligência estatais e não-estatais. A seguir, cada parte será analisada individualmente com mais detalhes.

A primeira parte, referente ao terrorismo, sub-divide-se em seis itens: “movimento jihadista global”; atentados terroristas utilizando armas de destruição em massa (ADMs); núcleo da al-Qaeda; liderança da “jihad global”; extremismo doméstico e, finalmente, o Irã. Sinteticamente, esta primeira parte aponta para uma fase crítica de transição do “movimento jihadista global”, cuja liderança ficará mais descentralizada, como se pode ver com as “filiais regionais” da al-Qaeda: al-Qaeda na Península Arábica, al-Qaeda no Iraque, al-Qaeda no Magreb Islâmico e a al-Shahab na Somália. A descentralização levará à fragmentação do movimento dentro de poucos anos. Em relação ao Irã, os EUA percebem uma mudança de cálculo da parte de Teerã. A suposta tentativa iraniana de assassinar o embaixador da Arábia Saudita em Washington no ano de 2011 seria uma demonstração disso. Tal mudança de cálculo ocorre em função da alteração da percepção iraniana em relação à ameaça norte-americana ao regime dos aiatolás.

Na segunda parte, referente à proliferação – não apenas nuclear, mas de ADMs em geral (químicas, biológicas, radiológicas e nucleares) – afirma-se que o tempo no qual apenas alguns países tinham acesso as mais perigosas tecnologias é passado. Atualmente, com a economia globalizada, diversos materiais de uso dual (civil e militar) podem ser obtidos com relativa facilidade. Com a instabilidade e transformação no Oriente Médio e norte da África, por exemplo, existe o risco de grupos não-estatais terem acesso a material de uso dual. Porém, a maior preocupação ainda é com Estados, particularmente com o Irã e a Coréia do Norte. Segundo o testemunho, o Irã mantém aberta a possibilidade de desenvolver armas nucleares, em parte pela elaboração de várias capacidades nucleares que deixam o país mais bem posicionado para produzir armas (caso opte em fazê-lo). A comunidade de inteligência dos EUA ainda não sabe se o Irã eventualmente decidirá pela construção de armas nucleares.

O avanço técnico iraniano, particularmente no enriquecimento de urânio, reforça a avaliação da comunidade de inteligência norte-americana de que o Irã possui as capacidades científica, técnica e industrial para eventualmente produzir armas nucleares, fazendo da vontade política em construir tais armas a questão central. A Coréia do Norte, por sua vez, já fez dois testes nucleares (em 2006 e 2009). Pyongyang percebe as suas capacidades nucleares como instrumentos para deterrência, prestígio internacional e diplomacia coercitiva. A Coréia do Norte poderia usar suas armas nucleares de fato apenas em condições bem específicas, como uma ameaça iminente ao regime, por exemplo. Todavia ainda existe o risco de Pyongyang exportar tecnologia nuclear.

Já a terceira parte, referente às ameaças cibernéticas, mostra que estas são uma preocupação estratégica em evolução. As ameaças cibernéticas representam uma apreensão crítica de segurança nacional e econômica devido aos avanços contínuos e ao aumento da dependência em relação à tecnologia da informação, que sustenta quase todos os aspectos da sociedade moderna. O impacto desta evolução pode ser visto não apenas no alcance e na natureza dos incidentes de segurança cibernética, mas também na variedade de atores e alvos. Entre os atores estatais, China e Rússia são uma preocupação especial. Já os atores não-estatais estão tendo um crescente papel na política internacional e doméstica através do uso das tecnologias de mídias sociais. As operações através de redes de computadores aumentarão nos próximos anos.

A quarta parte, referente à contra-inteligência, aponta que as ameaças mais perigosas nos próximos dois a três anos envolverão espionagem cibernética, ameaças internas e espionagem conduzida pela China, Rússia e Irã. Segundo o testemunho, a China e a Rússia agem de maneira agressiva e bem-sucedida na espionagem econômica contra os Estados Unidos. As operações de inteligência do Irã contra os EUA, por sua vez, incluindo operações conduzidas no ciberespaço, aumentaram dramaticamente nos últimos anos, tanto em profundidade quanto em complexidade.

A quinta parte do testemunho aqui analisado se foca nas atrocidades de massa e genocídio. São mencionados os casos de Darfur, no Sudão, em Kinshasa, no leste do Congo, atrocidades na Líbia, Síria e Quirguistão. Grupos “terroristas”, como o Boko Haram da Nigéria, podem se aproveitar de situações de instabilidade para conduzirem ataques. Esta quinta parte é a menor do testemunho examinado, o que pode mostrar uma relativa menor importância deste tema em relação aos demais.

Já a sexta parte, referente aos desafios globais, é, obviamente, a mais extensa, ocupando 18 das 31 páginas do documento aqui analisado. Subdivide-se em: a) sul da Ásia (abordando especificamente os casos do Afeganistão, Paquistão e Índia); b) leste asiático (tratando da Coréia do Norte, China e Taiwan); c) Oriente Próximo (Oriente Médio e Norte da África, com destaque para as implicações regionais da primavera árabe; examinando especificamente os casos da Líbia, Tunísia, Iêmen, Líbano e Síria; abordando a primavera árabe e o “movimento jihadista global”; tratando do Irã, Iraque, Sudão e Sudão do Sul, Somália, Nigéria e a região dos Grandes Lagos no centro africano); d) Rússia e Eurásia; e) Europa; f) América Latina e Caribe (no relatório como um todo o Brasil é mencionado quatro vezes). Desta parte pode se destacar que o Afeganistão, mesmo após tantos anos de guerra desde a intervenção norte-americana em 2001, continua sendo o maior produtor mundial de ópio.

Além disso, é interessante notar que o Paquistão, o qual, pouco tempo atrás, era visto como uma grande ameaça de proliferação nuclear (Washington temia o risco das armas nucleares paquistanesas cairem nas mãos de “terroristas”), ou como o “país mais perigoso do mundo”, não aparece mais com tanto destaque nos radares norte-americanos, mostrando que as ameaças muitas vezes são construidas politicamente. Tratando-se da América Latina, o subcontinente cada vez mais vem acomodando interesses extra-regionais que queiram estabelecer ou aprofundar relações, às vezes para atenuar a influência dos Estados Unidos. Como já apontado, o Brasil é mencionado quatro vezes, mas nenhuma delas é de maneira significativa, o que é positivo em uma avaliação de ameaças aos EUA.

A sétima e última parte, referente às ameaças significativas de inteligência estatais e não-estatais, é composta pelos seguintes itens: crime organizado transnacional, espaço cósmico, área econômica (subdividindo-se em novos choques econômicos e constrangimentos financeiros não resolvidos e energia), segurança da água, ameaças à saúde e desastres naturais. Chama a atenção o aumento do uso global do espaço cósmico, acarretando em maior congestionamento do mesmo. O espaço também está sendo cada vez mais contestado em todas as suas órbitas, o que pode ameaçar os sistemas dos EUA no cosmos.

Para encerrar, seguem as considerações finais deste artigo. A função ocupada por James R. Clapper, diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos, foi criada após os atentados de onze de setembro de 2001. O objetivo era integrar mais toda a comunidade de inteligência dos EUA para evitar novos ataques. Embora haja controvérsias em torno da Diretoria de Inteligência Nacional dos EUA (as quais não serão abordas aqui, podendo ser tema de outro artigo), é bastante válido conhecer a avaliação de ameaças aos EUA feita pelo órgão em questão, pois as percepções apresentadas certamente influenciarão nos futuros processos de tomada de decisões. No caso do Brasil, conhecer as percepções de ameaças dos EUA, ainda que nada recaia sobre nós diretamente, pode significar estar mais bem preparado e planejado para o futuro.

Referência

CLAPPER, James R. “Unclassified Statement for the Record on the Worldwide Threat Assessment of the US Intelligence Community for the Senate Select Committee on Intelligence”. January 31, 2012. Disponível em: http://www.dni.gov/testimonies/20120131_testimony_ata.pdf.  Acesso em 20/02/2012.

Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge é Mestre em Relações Internacionais e Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP e das Faculdades Metropolitansa Unidas – FMU (bernardowahl@gmail.com).

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