A Tradição Conservadora de Política Externa: Perspectivas para as Eleições Presidenciais de 2012, por Gustavo Resende Mendonça

A política externa está no centro do debate político norte-americano. Frequentemente, eleições são decididas por projetos vitoriosos de política externa e pela capacidade percebida dos candidatos em garantir a segurança doméstica norte-americana. Embora as eleições de 2012 sejam atípicas, no sentido em que assuntos externos ocupam apenas um papel marginal na mente dos eleitores, é seguro dizer que uma abordagem adequada aos problemas internacionais norte-americanos pode representar a diferença entre sucesso e fracasso nas eleições presidenciais de novembro (RICKS, 2011: 1).

Duas razões tornam o projeto de política externa especialmente relevante para os candidatos republicanos. Em primeiro lugar, a política externa de Barack Obama é aprovada pela maioria dos norte-americanos (49%, segundo recente pesquisa do instituto Gallup). Em segundo lugar, os republicanos são tradicionalmente percebidos como mais assertivos e confiáveis na defesa da segurança nacional norte-americana (DUECK, 2010: 290).. Nesse sentido, os pré-candidatos republicanos devem não somente advogar sua superioridade como comandantes da política externa norte-americana, como também questionar os sucessos internacionais da gestão democrata. O presente artigo, de caráter exploratório, busca avaliar as principais características da tradição conservadora de política externa, além das perspectivas acerca do projeto republicano para 2012. Argumenta-se que o programa conservador será marcado por grande continuidade, remetendo à política neoconservadora da gestão Bush.

A tradição conservadora de política externa pode ser entendida como o resultado de um processo gradual de aceitação do intervencionismo e do nacionalismo como valores centrais nas relações internacionais norte-americanas (DUECK, 2010: 290). Tradicionalmente, o isolacionismo e a não-intervenção eram as idéias basilares do projeto republicano de política externa. No entanto, a Segunda Guerra Mundial e a ascensão da ameaça comunista iniciaram um processo que tornou os republicanos mais confortáveis com o ativismo externo dos Estados Unidos. O projeto republicano de política externa passou a ser sustentado por dois valores centrais: o nacionalismo – que torna os republicanos céticos acerca da efetividade do multilateralismo e de qualquer outra forma de compromisso internacional que limite a liberdade de ação e a autonomia decisória dos Estados Unidos – e o intervencionismo – que privilegia a liberdade norte-americana de ação externa, especialmente para defender a segurança nacional, em detrimento do respeito à soberania de outras nações (DUECK, 2010: 2). O intervencionismo republicano tem forte componente bélico e corrobora a construção de um extenso e complexo aparato de segurança nacional e a criação de uma rede internacional de segurança que engloba bases militares em praticamente todas as regiões do globo.

Embora o nacionalismo e o intervencionismo sejam o cerne da tradição conservadora de política externa, sua aceitação não é consensual entre os membros do Partido Republicano.  Duas correntes de pensamento menores informaram a política externa republicana ao longo do século XX: o isolacionismo e o realismo (DUECK, 2010: 31). O isolacionismo, a mais tradicional corrente conservadora de política externa, é calcado pelo liberalismo econômico e advoga que os Estados Unidos deveriam se abster de onerosas alianças internacionais e privilegiar o comércio internacional como aspecto basilar de suas relações externas. Em termos práticos, os conservadores isolacionistas defendem o fim da presença militar norte-americana em outras nações e a retirada do país de todas as organizações internacionais. Atualmente, o Senador Ron Paul é o político que melhor expressa a tradição isolacionista no Partido Republicano.  O realismo, por outro lado, favorece o uso coordenado e prudente da força e da diplomacia para a consecução de objetivos claros e específicos de política externa. Enquanto a fusão do nacionalismo e do intervencionismo favorece a promoção da democracia e do livre-mercado, o realismo minimiza o valor das idéias e privilegia o equilíbrio de poder. Richard Nixon e Henry Kissinger são os políticos republicanos mais associados com a tradição realista de política externa. Dueck observa que o isolacionismo é uma corrente de política externa praticamente superada nos Estados Unidos e que o realismo, embora influente, é uma tradição desorganizada e tipicamente ligada a políticos idosos e aposentados (DUECK, 2010: 303).

A hegemonia do intervencionismo e do nacionalismo ganhou forma na política externa neoconservadora da administração Bush. O neoconservadorismo nasceu em meados da década de 1970 e ganhou força com a eleição de Ronald Reagan em 1980 (TEIXEIRA, 2010:27). Após o fim da Guerra Fria, no entanto, o movimento neoconservador entrou em crise devido à ausência de um inimigo externo. Em termos de política externa, o neoconservadorismo é definido, sem prejuízo de generalizações, por quatro características principais: o internacionalismo, o unilateralismo, a defesa da democracia e a ênfase no poder militar (TEIXEIRA, 2010: 53). O internacionalismo, de vertente não-institucional, se traduz em uma postura ofensiva no sistema internacional e na crença da ilegitimidade dos organismos internacionais. Os neoconservadores entendem que o poder norte-americano deve ser usado de forma proativa na defesa do interesse nacional, crença distinta da postura defensiva dos conservadores tradicionais. Ademais, os neoconservadores julgam que as organizações internacionais são ilegítimas – porque seus representantes não são eleitos – e obstrutoras – porque limitam o poder norte-americano- e pouco confiáveis – porque são base de atuação de diversos inimigos dos Estados Unidos.

O unilateralismo neoconservador se expressa na idéia de que os Estados Unidos devem sempre estar prontos para agir sozinhos e que o país deve privilegiar alianças Ad Hoc para promover a democracia e agir como equilibrador da balança de poder internacional. A promoção da democracia se manifesta na crença de que regimes democráticos são mais confiáveis e raramente entram em guerra com outras democracias. Nesse sentido, ao fomentar a democracia internacional, os Estados Unidos estariam maximizando sua própria segurança doméstica e atendendo ao interesse nacional. Ademais, o juízo de valor moral sobre a superioridade da democracia afasta os neoconservadores dos realistas, preocupados com capacidades e recursos de poder e indiferentes aos regimes políticos dos parceiros dos Estados Unidos. Os ataques de 11 de setembro de 2011 e a Guerra ao Terror proporcionaram um novo alvo para as preocupações externas dos neoconservadores, de forma que o neoconservadorismo se tornou o conjunto dominante de idéias da política externa norte-americana na década de 2000.

Durante a gestão do democrata Barack Obama, o movimento do Tea Party tornou-se o herdeiro dos princípios do nacionalismo e do intervencionismo aplicados à política externa. Apontado como o desenvolvimento mais controverso e dramático da história política recente dos Estados Unidos, o Tea Party é um movimento populista conservador que busca combater a crescente presença do Estado na economia e resgatar o papel do senso comum como valor central na política norte-americana (MEAD, 2011: 31). Fundado em 2009, o Tea Party rapidamente estabeleceu uma ampla rede descentralizada de contatos e realizou diversas manifestações que contribuíram para a vitória contundente do Partido Republicano nas eleições legislativas de 2010 (MEAD, 2010: 29). Embora seja um movimento essencialmente concentrado em temas domésticos, as reivindicações do Tea Party incluem algumas ações de política externa como: o apoio à Guerra ao Terror, a aliança incondicional com Israel, uma postura mais assertiva nas negociações com o Irã, a rejeição do liberalismo institucional e de grandes acordos internacionais e o uso do protecionismo como forma de preservar os empregos norte-americanos (MEAD, 2011: 43). É lícito afirmar que o Tea Party resgatou diversos valores da política externa neoconservadora da gestão Bush.

Em síntese, a política externa conservadora proposta pelo Tea Party e pelo movimento neoconservador é resultado de um longo processo de consolidação do nacionalismo e do intervencionismo como valores centrais do projeto externo republicano. Dueck observa que a abordagem linha dura (expressão que o autor utiliza para denominar a combinação do nacionalismo e do intervencionismo no pensamento de política externa) gerou resultados eleitorais muito positivos para os republicanos durante a segunda metade do século XX (DUECK, 2010: 290). De forma similar, Ricks observa que, nas últimas décadas, o projeto republicano de política externa foi mais popular do que a proposta democrata (RICKS, 2011:1). Nesse sentido, os principais pré-candidatos republicanos não divergem da tradição linha dura consolidada pelo partido nas últimas seis décadas. A única exceção é o senador libertário Ron Paul, filiado ao isolacionismo e à não-intervenção.

Após a vitória nas primárias da Flórida, Mitt Romney tornou-se o pré-candidato republicano favorito para enfrentar Obama nas eleições de novembro. O programa de Romney, batizado de An American Century (um século americano), é bastante similar ao projeto neoconservador de política externa implementado pela administração Bush. A continuidade se mostra presente na equipe de assessores internacionais montada por Romney: dos vinte e dois membros, quinze fizeram parte da gestão Bush e seis estão ligados ao think tank neoconservador “Project for a New American Century.” (SARKISIAN, 2012: 1). Dentre os especialistas contratados por Romney, merece destaque Robert Kagan, um dos principais teóricos do movimento neoconservador e fundador de revistas, think tanks e grupos de pesquisa destinados a elaborar e disseminar idéias neoconservadoras. Embora não tenha larga experiência em assuntos internacionais, Romney é conhecido por ter defendido, nas primárias de 2008, a duplicação da prisão de Guantánamo e o uso da tortura para a obtenção de informações na Guerra contra o Terror. Romney também é um dos poucos candidatos a defender publicamente um aumento no orçamento das forças armadas.

O projeto de política externa de Newt Gingrich, concorrente mais próximo de Romney, também não difere significativamente das propostas neoconservadoras aplicadas pela gestão Bush. Embora o programa de política externa de Gingrich não seja tão detalhado quanto o de Romney, o político da Pensilvânia possuiu uma retórica que remete ao messianismo de Ronald Reagan, definindo claramente os inimigos dos Estados Unidos e o excepcionalismo norte-americano. As propostas de Gingrich diferem das de Romney em apenas dois pontos: imigração (Gingrich é mais moderado no combate à imigração) e gastos militares (Gingrich está aberto a cortes moderados).

Em síntese, parece claro que o intervencionismo e o nacionalismo seguirão como elementos centrais na campanha republicana de 2012. A falta de inovação é explicada, em parte, pela baixa relevância da política externa nas eleições de novembro. Segundo recente pesquisa do Instituto Pew, somente 9% dos americanos acha que o presidente deve se focar em política externa, enquanto 81% dos eleitores entendem que o governo deve se focar em temas domésticos (CLEMENT, 2012: 01). Nesse sentido, os republicanos estão focados em criticar a gestão Obama em temas econômicos e em oferecer alternativas que fomentem a criação de empregos e o crescimento da economia.

Por fim, fatores estruturais limitam a implementação da política neoconservadora defendida por Gingrich e Romney. Em primeiro lugar, o déficit orçamentário experimentado pelo governo norte-americano limita as opções neoconservadoras de política externa, especialmente no que diz respeito a o uso da força militar contra o Irã. Em recente artigo na revista Foreign Policy, Charles Kupchan observa que as restrições no orçamento de defesa dos Estados Unidos limitam o projeto do Romney do “Século Americano” e as opções intervencionistas do exército norte-americano (KUPCHAN, 2012: 02). Em segundo lugar, após uma década de declínio relativo de poder, os Estados Unidos têm um espaço de atuação unilateral muito mais reduzido do que possuía em 2001. Finalmente, a maior assertividade de países emergentes, dos quais se destaca a China, pode solapar as ambições intervencionistas neoconservadoras. Em resumo, embora o neoconservadorismo possa voltar ao centro ideológico da formulação da política externa norte-americana, parece claro que a implementação de uma estratégia internacional baseada no unilateralismo e no intervencionismo enfrentará diversos obstáculos domésticos e sistêmicos.

 Referências Bibliográficas
  • DUECK, Colin. Hard Line: The Republican Party and U.S. Foreign Policy since World War II. Princeton: Princeton University Press, 2010.
  • FONTEINE, Richard.No, foreign policy matters in elections — even in years when people think it doesn’t. Disponível em: http://ricks.foreignpolicy.com/posts/2012/01/30/no_foreign_policy_matters_in_elections_even_in_years_when_people_think_it_doesn_t. Acesso em: 08 de fevereiro de 2012.
  • KUPCHAN. Charles. Sorry, Mitt: It Won’t Be an American Century. Disponível em: http://www.foreignpolicy.com/articles/2012/02/06/it_won_t_be_an_american_century. Acesso em: 08 de fevereiro de 2012.
  • MEAD, Walter Russel. The Tea Party and American Foreign Policy. Foreign Affairs, V. 90 (2), p. 27-41, 2010.
  • RICKS, Thomas. Obama is on top on foreign policy issues, but unfortunately Americans don’t care. Disponível em: http://ricks.foreignpolicy.com/posts/2012/01/27/obama_is_on_top_on_foreign_policy_issues_but_unfortunately_americans_don_t_care. Acesso em: 08 de fevereiro de 2012.
  • SARKISIAN, Joseph. Examining the advisors: Is a vote for Romney a vote for going to war with Iran? Disponível em: http://ricks.foreignpolicy.com/posts/2012/02/02/examining_the_advisors_is_a_vote_for_romney_a_vote_for_going_to_war_with_iran. Acesso em: 08 de fevereiro de 2012.
  • TEIXEIRA, Carlos Gustavo Poggio. O Pensamento Neoconservador em Política Externa nos Estados Unidos. São Paulo: Editora UNESP, 2010.
Gustavo Resende Mendonça é Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. (gustavo.mendonca@itamaraty.gov.br)
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1 Comentário em A Tradição Conservadora de Política Externa: Perspectivas para as Eleições Presidenciais de 2012, por Gustavo Resende Mendonça

  1. É interessante tentar analisar a Política Externa norte-americana pela ótica deles. Temos que ter em mente que se fosse o Brasil buscaríamos zelar pelo interesse maior da nação. Nesse caso está em jogo a hegemonia americana em termos globais. É importante, ainda, salientar que poucos pessoas se interessam em escrever sobre o cenário político interno dos EUA, analisando suas implicações no cenário mundial.
    Excelente artigo!!

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