As flores crispadas de Teerã, por José Flávio Sombra Saraiva

 As flores são instituições na capital da velha Pérsia. Desde tempos remotos, agradam-se os visitantes com ramalhetes na chegada e na despedida. Espécies coloridas de flores adornam a cordialidade dos encontros entre os iranianos. Dos palácios às casas simples, o hábito é estimado nas gerações que passam.

Crispadas andam as flores de Teerã no inverno frio de janeiro. Há  apreensão no ar da maior metrópole do Oriente Médio. Tal qual o janeiro de alguns anos atrás, quanto lá estive para proferir conferências em universidades do país e na escola diplomática, o branco das ruas geladas contrastam com as vestes escuras das mulheres que caminham tensas pelas ruas.

Os fatos que alimentam o crispar dos ramalhetes advém de fatos recentes. Um regime duro desafia parte do mundo. Insiste em manter reserva de informação dos seus projetos de uso do enriquecimento do urânio e deixa parte da comunidade internacional sem a certeza do intento pacífico do uso dos desenvolvimentos da energia nuclear. Anuncia espionagem norte-americana. Denuncia o assassinato de seus cientistas ligados ao desenvolvimento da energia nuclear. Reforça o discurso de um complô internacional, dirigido pelas grandes potências, contra a independência do Irã. Realiza seu governante tour na América Latina para buscar saída do isolamento diplomático imposto pelos gigantes.

Para corrente não hegemônica da opinião pública, mesmo no Oriente Médio, seria melhor que os iranianos tivessem seus artefatos nucleares, para equilibrar, como em ordem parecida com a guerra fria, na conformação de uma bipolaridade suportável com Israel. Isso permitira um equilíbrio de poder clássico, realista, e possivelmente alguma paz na região, mesmo em clima de cemitério.

Mas a corrente que predomina é a de que os iranianos devem abrir claramente seu projeto nuclear para os ditames das autoridades internacionais. Devem aceitar a verificação externa, além de recuarem claramente nas ambições de desenvolvimento da energia nuclear, mesmo para fins pacíficos. A lembrar que Teerã aderiu ao TNP, antes dos regimes dos aiatolás, mantido pelo regime da chamada Revolução Iraniana.

Razões múltiplas ajudam a decifrar parte do xadrez iraniano que alimenta a tensão do momento. Em primeiro lugar, a nova leva de sanções internacionais contra o país poderá trazer impactos sobre a legitimidade do regime liderado por Ahmadinejad. Reduzirá receitas importantes dos governantes. Tocará em peças no equilíbrio político que sustenta o regime. Poderá reforçar os setores modernizantes do Irã, sustentado em parte por uma florescente classe média secular e laica, e que foi vencida pela violência nas eleições fraudadas de 2009. Esses setores são duros críticos do belicismo de Ahmadinejad, no plano interno e externo do Irã.

As vendas de petróleo – cerca de 80% de toda a exportação do país, ante o movimento dos países compradores que buscam diversificar suas fontes – poderão minguar. A decisão da União Européia de redução da compra de óleo do Irã a partir do meio do corrente ano trará impacto na economia iraniana. O Japão já tomou medidas nesse sentido e outros, como a Coréia do Sul, seguirão o mesmo caminho.

Em segundo lugar, percebe-se a elevação da fissura interna no regime de Teerã. O processo de modernização, nutrido nos debates das eleições de 2009, foi estancado pelas forças conservadoras lideradas pelo aiatolá Ali Khmanei. Desde as eleições de 2009, vem se ampliando diferenças internas. Ahmadinejad deseja caminho próprio, nem sempre ao lado dos aiatolás do Conselho dos Guardiões. Esse pretexto de acossamento internacional sobre o Irã é bastante favorável ao calendário eleitoral do grupo político de Ahmadinejad.

Em terceiro lugar, e finalmente, o isolamento do Irã ocorre em momento no qual não há momento unipolar nem concertação hábil de grandes estados. Há uma brecha na governança global, cada vez mais sincrética, em ambiente de apreensões na economia mundial. Esses elementos de desarranjo sistêmico das relações internacionais tornam plausível a elevação do irracional. Daí os movimentos inesperados dos atores que desejam aumentar seu peso relativo no quadro complexo do mundo que vivemos. É essa a brecha iraniana que está sendo explorada por Ahmadinejad nesses dias de tensão.

Pena que o povo iraniano não seja ouvido. Talvez falasse de flores, de paz, da primavera que se deseja depois de triste inverno nervoso. Essa é a alegria serena que emana dos ramalhetes coloridos do Irã.

José  Flávio Sombra Saraiva, PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (jfsombrasaraiva@gmail.com).
Print Friendly, PDF & Email

1 Comentário em As flores crispadas de Teerã, por José Flávio Sombra Saraiva

  1. Lamentável mesmo lembrar que perdido neste e em tantos tabuleiros da política internacional esteja um povo oprimido e emudecido. Acabo de assistir “Isto Não é um Filme”, do diretor Jafar Panahi.

    É de Panahi o belíssimo e singelo “Fora do Jogo” (Offside, de 2006), que narra a saga de meninas iranianas tentando ver uma partida de futebol num estádio. Offside em inglês, se refere à regra futebolística do impedimento. Panahi está impedido de sair do país, durante 20 anos. Está impedido de trabalhar como cineasta, durante 20 anos. Foi condenado a seis anos de prisão. A acusação: agir contra a segurança nacional e fazer propaganda contra o regime. Ele foi detido em julho de 2009 numa cerimônia em homenagem a manifestantes mortos durante o Movimento Verde, e desde então vive entre a prisão e a casa, tendo sido libertado em certas ocasiões por pressão da comunidade artística internacional.

    O filme mostra Panahi em casa, entre entediado e angustiado, tentando tomar seu tempo e “lendo” cenas de um roteiro engavetado (proibido pelo governo iraniano). Intencionalmente ou não, manda um irônico brado de socorro e protesto contra a absurda repressão no país.

    Um Estado que é convicto da sua política interna não tem por que temer a oposição de seus cidadãos. Irã, Cuba… Farinha do mesmo saco.

Top