Irã: Entre a Pressão Internacional e a Guerra, por Pio Penna Filho

O Irã está cada vez mais acuado diante do incremento da pressão internacional sobre a sua economia. Aparentemente as sanções econômicas estão começando a dar resultados no sentido de colocar o governo e o regime dos aiatolás contra a parede, uma vez que o principal produto de exportação do país, o petróleo, que é responsável por cerca de 80% das exportações totais do país, está encontrando restrições crescentes no mercado internacional. Caso a inciativa dos Estados Unidos de estrangular financeiramente o regime dê certo, um dos possíveis cenários pode ser a guerra, haja vista que encurralar o Irã pode ser contraproducente.

O objetivo declarado dos Estados Unidos é impedir o desenvolvimento do projeto nuclear iraniano, mesmo que para tanto tenha que levar o risco de uma guerra ao extremo, como se tem verificado nos últimos meses com a escalada de demonstrações de força de lado a lado. A propósito, a força não é a única arma e, aparentemente, nem a mais importante que está sendo empregada contra o Irã. A diplomacia norte-americana tem demonstrado um grau intenso de atividade para fechar o cerco à economia do país e tem logrado relativo sucesso nesse sentido. Dessa forma, os aliados europeus e o Japão se pronunciaram favoráveis ao planejado embargo petrolífero, mesmo que tal iniciativa seja claramente contrária aos seus interesses econômicos mais imediatos. O mais complicado, porém, será convencer a China e a Índia, dois grandes importadores de petróleo iraniano, a aderir ao embargo.

Gestos e atitudes de agressividade entre Irã, Estados Unidos e seus aliados vem ocorrendo há algum tempo como, por exemplo, o assassinato de cientistas iranianos, a atividade intensa de espionagem em território persa, inclusive com a derrubada e apreensão de um avião espião não tripulado (drone) e ações de sabotagem contra instalações e equipamentos relacionados ao programa nuclear iraniano, nesse caso, com o suspeito concurso de Israel. O Irã, por sua vez, mantem e amplia sua influência sobre grupos xiitas no Iraque e é acusado de prover armamentos e apoio financeiro para o Hizbollah em sua luta contra Israel. A permissão para que estudantes promovessem demonstrações de hostilidade junto à Embaixada do Reino Unido em Teerã é outro exemplo da disposição para o enfrentamento com o Ocidente por parte do Irã.

As diferenças entre Washington e Teerã remontam à triunfante Revolução Islâmica de 1979, que depôs o regime do Xá Reza Pahlevi – então aliado norte-americano –, e que instaurou o regime dos Aiatolás, hostil ao pensamento e à dominação ocidental sobre o país. Desde então, praticamente não houve diálogo franco e aberto entre os dois países que, de aliados, passaram a inimigos declarados.

A situação é preocupante porque envolve um país costumeiramente agressivo como os Estados Unidos, que não mede esforços para ir à guerra, e um regime também determinado a manter suas convicções políticas e religiosas, mesmo que para tanto tenha que passar pela provação de uma guerra com resultados previsivelmente catastróficos.

Muito se tem dito que o Irã não é o Iraque, e com razão. Embora a capacidade militar iraniana seja muito inferior à norte-americana, os iranianos conseguiram um desenvolvimento militar superior ao iraquiano, com desenvolvimento ou aquisição de sistemas de defesa aéreo e de ataques com mísseis de médio alcance que podem facilmente atingir aliados dos Estados Unidos na região do Oriente Médio, como Israel.

Do ponto de vista militar as vulnerabilidades do Irã são bem menores que aquelas apresentadas pelo Iraque. Até mesmo o objetivo militar de desmantelar o programa nuclear iraniano atacando as suas instalações é de resultado duvidoso. Certamente, um dos fatores que impõe sérias restrições a qualquer iniciativa militar contra o país é a sua capacidade retaliatória. Nesse sentido, os aliados mais importantes dos Estados Unidos na região, tendo à frente Israel, teriam muito a perder num cenário de guerra declarada contra o Irã, embora isso não seja, necessariamente, uma grande preocupação para os setores mais radicais. Ou seja, um ataque limitado e, por isso mesmo, incapaz de atingir de forma mortal o regime iraniano, poderá ser um desastre para a política norte-americana na maior parte do Oriente Médio.

Além disso, numa situação de guerra é preciso considerar que o eventual fechamento do estreito de Ormuz pelas forças iranianas, rota estratégica no escoamento petrolífero de importantes produtores do Oriente Médio, poderá provocar efeitos danosos à economia mundial. Mesmo que seja duvidosa a capacidade iraniana de fechar ou manter fechada por muito tempo a passagem de embarcações pelo estreito, sua ameaça, num estado de guerra, será capaz de intimidar o trânsito de navios na região.

Outra grande diferença com relação ao Iraque é o grau de coesão política alcançado pelo regime após a Revolução de 1979. Não existe uma oposição política interna centralizada que possa ser catalisada contra o regime. Há movimentos difusos e multifacetados que são contra o fundamentalismo religioso e a falta de liberdade política, mas nenhum deles conta com uma estrutura organizada e ativa. Naturalmente que tal quadro político só é uma realidade porque existe um controle do Estado sobre a sociedade que não permite a livre organização política. Não se quer dizer com isso, todavia, que não haja oposição interna ao regime. Aliás, isso ficou demonstrado por manifestações populares no início da chamada Primavera Árabe, em 2009, quando os protestos foram divulgados para todo o mundo por meio de redes sociais e transmitidos pela própria imprensa internacional. Sem dúvida, portanto, que existe uma insatisfação para com o regime, mas mesmo essa insatisfação é mitigada pela posição cada vez mais agressiva do chamado Ocidente contra o Irã.

Novamente, é o caso de se questionar até que ponto uma guerra pode ser contraproducente até mesmo para os grupos de oposição ao regime. É razoável supor que quando a hostilidade atingir o nível de ataques diretos a instalações militares e até mesmo a cidades iranianas, a maior parte da população provavelmente apoiará o governo e o regime contra mais uma agressão externa. Esse foi o caso, para citarmos um exemplo histórico, da guerra iniciada pelo regime de Saddam Hussein contra a então recém proclamada República Islâmica, ainda no contexto da Revolução de 1979. O resultado foi a união da população em torno do regime para fazer frente à invasão iraquiana.

Agora, com as sanções e o embargo ao petróleo iraniano ganhando novos adeptos a situação está realmente ficando complicada. Sem espaços políticos adequados para realizar a descompressão das tensas relações do Irã com os Estados Unidos e seus aliados europeus, as incertezas só fazem aumentar. Com efeito, a economia iraniana já sente os resultados das sanções e as perspectivas com a aplicação do embargo são as piores possíveis. Apesar das iniciativas do governo para minimizar o impacto negativo da crise, o custo de vida aumentou e continua aumentando no país. Para se ter uma ideia, o preço da gasolina quadruplicou e o do pão triplicou no último ano, isso sem contar a taxa crescente de desemprego, estimada oficialmente na casa dos 15%, valor considerado muito conservador por economistas estrangeiros.

Esse novo ciclo de pressões externas é perigoso porque pode e tem tudo para acuar de vez o regime iraniano, deixando-o sem saída. O resultado poderá ser a guerra, que certamente não envolverá apenas Estados Unidos e o próprio Irã. Sabe-se que há gente irresponsável com poder suficiente para dar início a uma nova onda de violência, especialmente quando as bombas caem bem longe de casa.

Pio Penna Filho é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB, e Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. (piopenna@gmail.com)

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1 Comentário em Irã: Entre a Pressão Internacional e a Guerra, por Pio Penna Filho

  1. Adorei o texto Professor! Sou aluno do Ensino Médio, já tentando entrar pra área de RI. Este texto foi muito claro e conciso. Obrigado pela explicação 😀

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