Os testes de mísseis iranianos e a construção de eventos relevantes para a segurança internacional, por Marcos Valle Machado da Silva

 No primeiro dia de 2012, assisti na mídia televisiva de dois canais brasileiros a notícia de que o Irã lograra êxito na fabricação de pastilhas de combustível para reatores nucleares e que, paralelamente, sua Marinha realizara exercícios envolvendo o lançamento de “Mísseis de Médio Alcance”. As imagens apresentadas nos dois canais mostravam navios iranianos efetuando o lançamento de torpedos e Mísseis Superfície-Superfície (MSS), estes últimos não necessariamente seriam “Mísseis de Médio Alcance”. O ponto que gostaria de destacar é que os lançamentos ou testes de mísseis iranianos são, usualmente, apresentados na mídia ocidental, direta ou indiretamente, como algo “perigoso” e, no mínimo, “preocupante” para a segurança internacional.

Nesse sentido, restringindo nossa abordagem apenas aos mísseis lançados por meios navais, cabe questionarmos: por que o lançamento ou teste de mísseis por parte de navios iranianos seria algo preocupante? Somente a Marinha do Irã vem conduzindo esse tipo de exercício? Outras Marinhas tem testado mísseis? Caso a resposta seja afirmativa, que tipo de Mísseis seriam esses? Seriam similares ou de maior potencial destrutivo que aqueles lançados pelos navios iranianos? E por que esses outros testes envolvendo mísseis lançados por meios navais de outras Marinhas não são noticiados e apontados, ainda que indiretamente, com algo relevante par a segurança internacional?

Buscando responder a essas questões, cabe apontar que ao longo de 2011 as Marinhas da Rússia, dos Estados Unidos e do Reino Unido, por exemplo, realizaram testes envolvendo o lançamentos de mísseis. Em dezembro de 2011, a Marinha da Rússia efetuou o lançamento de dois Mísseis Balísticos Intercontinentais Lançados por Submarino (SLBM) do tipo Bulava. O teste deste míssil, capaz de transportar várias ogivas nucleares e tendo o alcance de mais de 8.000 quilômetros, não parece ser percebido pela mídia nacional e em sentido amplo, pela mídia internacional, como uma questão relevante para a segurança internacional. Do mesmo modo, no dia 8 de novembro de 2011, a Royal Navy realizou o lançamento de um míssil de cruzeiro Tomahawk, por um de seus submarinos nucleares de ataque – o HMS Astute – o que também não foi noticiado, ou percebido como relevante pela grande mídia. Ainda para evidenciar a necessidade de mantermos o constante olhar crítico sobre o aquilo que nos é apresentado, mesmo indiretamente, como algo relevante nas questões de segurança internacional, cito o lançamento de um SLBM Trident II D-5 realizado pela Marinha dos Estados Unidos. Esse teste correspondeu ao lançamento número 135 de mísseis Trident II, e foi realizado pelo USS Nevada (um SSBN da Classe Ohio) no dia 1 de março de 2011. O Trident II, assim como o Bulava, é um Míssil Balístico Intercontinental capaz de transportar várias ogivas nucleares. É difícil entender porque testes com esses mísseis não são percebidos, pela grande mídia, como uma questão relevante em termos de segurança internacional.

Nesse ponto, gostaria de deixar claro que este artigo não tem como propósito fazer uma crítica à qualidade da mídia nacional, mas sim apontar como alguns eventos são apresentados na grande mídia de modo a formar, mesmo que não intencionalmente, uma percepção de que alguns Estados estão efetuando eventos únicos que comprometem a segurança internacional. É também pertinente ressaltar que não se trata de fazer uma defesa da política externa e de defesa do governo iraniano, pelo contrário, tenho a percepção de que o programa nuclear iraniano e o programa de mísseis desenvolvido por aquele Estado são fontes de instabilidade regional (independentemente do Estado iraniano ter motivos que justifiquem esses programas).

A questão que julgamos relevante evidenciar e colocar em discussão é a de como, indiretamente, é formada a percepção de que alguns Estados são responsáveis o suficiente para testar e possuir mísseis de alcance intercontinental e capazes de transportar ogivas nucleares, ao passo que, paralelamente, é formado o senso comum de que alguns Estados não seriam tão responsáveis para ter “Mísseis de Médio Alcance” e, portanto, devem ser objeto da atenção e preocupação da opinião pública internacional.

Em síntese, confrontando os lançamentos dos mísseis iranianos supracitados com aqueles realizados pelas Marinhas de três grandes potências, com interesses diretos no chamado Oriente Médio. Além disso, o alcance e poder destrutivo dos “Mísseis de Médio Alcance” lançados pelos navios iranianos não poderem ser comparados com aqueles proporcionados por Bulavas, Tomahawks e Tridents. No entanto, é feita uma construção, consciente ou não, por parte da grande mídia, de que o caso iraniano representa uma questão de preocupação para a segurança internacional. De fato, a questão é pertinente, mas, cabe mantermos o olhar crítico e questionador em relação aos eventos que são apontados como relevantes para a segurança internacional e aqueles que não são, mesmo que em essência envolvam a mesma questão, apenas executada por diferentes Estados. Finalizando, não podemos esquecer que não existe Equilíbrio de Poder na construção da agenda de segurança internacional, quando confrontamos as potências ocidentais com Estados como o Irã.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

 

Marcos Valle Machado da Silva é Doutorando em Ciência Política na Universidade Federal Fluminense – UFF,  Mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense – UFF. É professor da Escola de Guerra Naval – EGN (mbvalle2002@yahoo.com.br).


 

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4 Comentários em Os testes de mísseis iranianos e a construção de eventos relevantes para a segurança internacional, por Marcos Valle Machado da Silva

  1. Prezado Marcos Valle Machado

    Perfeita observação, tanto de segurança internacional quanto de mostrar o quanto a mídia é imparcial.
    Devido a uma sociedade cheia de idiossincrasias relativas principalmente a percepção e estudo, fazer analises dessa forma é muito interessante. Ainda mais apartir dessa onda de “Arabefobia” que vivemos desde 11 de setembro, e no momento com a Primavera Arabe. As pessoas não atentam a dizer que o Irã esta sobrepujado de Estados tampões Estadunidenses no Oriente Médio.Pois a todo custo Estados como EUA, França e Inglaterra desrespeitam a região, quem se lembra dos acordos Sykes Picot ??

  2. Prezados senhores,a questao sobre os testes de misseis iranianos ,nao e voltada para a questao dos testes em si,mas por quem,pois ate onde sei ,tanto os EUA,Gra- Bretanha,ou Russia,nao tem por ordem do dia aniquilar um pais ,qualquer que seja ele,e este senhor Mahmud,tem e nao somente tem como participa ativamente como agente financiador,volto a dizer a questao nao e sobre paises ou povos,mas sobre governos,existem governos e governos,as intencoes e que contam,quanto a arabefobia,nao creio na sua existencia,pois todos os mulcumanos nao sao terroristas,porem todos os terroristas infelizmente sao mulcumanos!

  3. Prezado Marcos Machado,

    Acredito que seja semrpe positivo discutir de que forma a imprensa aborda as relações internacionais. Reconheço que existe, em muitos veículos, uma rejeição a compreender países não-ocidentais, tratando-os como irracionais ou perigosos.

    Eu sou editor de internacional em uma rede de televisão, e nessa condição, venho aqui tentar esclarecer quais foram os aspectos que me levaram a publicar os supracitados exercícios militares iranianos (que incluíram testes de mísseis de médio alcance, mas não se limitaram a eles). Espero demonstrar que em nenhum momento, ao menos de minha parte, houve objetivo de dizer que a Repúlica Iraniana seja mais ou menos perigosa, em si.

    1) O aspecto mais imediato é que as redes internacionais de vídeos noticiosos que alimentam redações em todo o mundo (como a Reuters) tinham muitas imagens desses exercícios, e elas eram boas (filmadas de perto, com áudio dos lançamentos de vários dos mísseis, ângulos variados e boa qualidade de captação). Sem isso, a divulgação da notícia seria impossível. Mas com essas imagens, ganha-se certa capacidade de chamar a atenção do público leigo para um assunto ao qual geralmente não daria atenção. São cenas fortes, que atraem o telespectador.

    2) Mas perceba que esta questão não é meramente técnica: as imagens divulgadas globalmente foram filmadas pelas próprias Forças Armadas Iranianas. E elas não apenas as deixaram à disposição do mundo, como fizeram transmissão delas na televisão iraniana. Tratou-se de estratégia pública para ganhar apoio interno (o que também acontece com o programa nuclear do país, tratado como orgulho nacional) e para fazer dissuassão no cenário externo. De um certo modo, portanto, quem divulgou essas imagens na televisão brasileira, atendeu a objetivos planejados pelo próprio Irã (ou, ao menos, por uma ala do regime iraniana, que como se sabe, é muito fragmentado)

    3) Minha decisão pessoal de dar a notícia também se relaciona com o aspecto mais amplo da situação no Golfo Pérsico: os exercícios militares ali realizados pelas Forças Armadas iranianas foram uma demonstração de força. E é por isso que foram amplamente filmadas e divulgadas. E essa demonstração teve um objetivo: demonstrar que o Irã tem capacidade para fechar o Estreito de Ormuz, cumprindo a ameaça que fez, caso sanções contra o país não sejam retiradas. (Não me cabe, aqui ou na edição de notícias, definir se a estratégia iraniana é correta ou não; mas sim noticiar que as Forças Armadas Iranianas decidiram fazer esse espetáculo militar, em um contexto de tensão com potências européias).

    4) Por fim, além de serem uma notícia em si (como espero ter demonstrado acima), os exercícios militares iranianos tiveram repercussões entre atores da política internacional. Líderes de outros países criticaram e disseram se sentir ameaçados. Ainda que possam ser parte de uma estrtégia retórica para isolar o Irã, tais afirmações fazem parte do contexto em que o Irã decidiu se colocar quando fez (e divulgou) os exercícios. E são fato noticioso.

    Os outros lançamentos de mísseis citados em seu artigo não cumprem esses requisitos. (1) não tiveram filmagens de boa qualidade divulgadas à imprensa mundial; (2) não foram feitos com o objetivo de demonstrar na imprensa mundial qualquer capacidade de poder; (3) não se relacionam diretamente a tensões imediatas entre países; (4) não tiveram repercussão digna de nota da parte de líderes de outros países. Por isso, não foram noticiadas (ao menos por mim).

    Em nenhum momento, pretendi dizer que o Irã seja mais ou menos perigoso por fazer tais exercícios. Pelo contrário, busquei deixar claro de que forma o país se defende das acusações, dizendo que seu programa nuclear é pacífico (razão das sanções econômicas aplicadas pelos EUA, e agora também pela UE); e que ameaçou fechar o estreito de Ormuz como estratégia de resposta à pressão que vem sofrendo.

  4. Não podemos nos esquecer, nunca, de que a única nação no mundo a fazer uso de artefatos nucleares para matar pessoas foi a nação americana. Até hoje, os únicos irresponsáveis no uso da energia nuclearsão os americanos. Mais do que antes, praticamos, em matéria de mídia, a falta de ética descrita no filme do John Ford, O homem que matou o facínora: “quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”.

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