Os 10 anos da “Guerra ao terror”: meios controversos e avanços insignificantes, por Patrícia Nabuco Martuscelli

Mais uma vitória contra o terrorismo internacional foi anunciada pelos Estados Unidos da América no dia 30 de setembro de 2011: a morte de Anwar al-Alwaki e de Samir Khan por um míssil norte-americano lançado no Iêmen. Anwar al-Alwaki era um cidadão norte-americano que disseminava ideologias da Al-Qaeda em inglês. Ao utilizar principalmente a Internet, além de expô-las de forma convincente, ele conseguia conquistar públicos diferentes. Samir Khan era o coeditor da revista virtual Inspire da Al-Qaeda. Os dois homens eram tidos como membros do grupo extremista.

Antes de discutir as repercussões desse fato, deve-se examinar a definição de terrorismo global adotada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: “atos criminosos com o objetivo de ou calculados para provocar um estado de terror no público geral, um grupo de pessoas ou determinados indivíduos por razões políticas (…) quaisquer que sejam as considerações de cunho político, filosófico, ideológico, racial, étnico, religioso ou outro que possam ser invocadas para justificá-los”. Uma definição mais objetiva do National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism caracteriza “o uso de forças ilegais e violência por atores não estatais para atingir uma meta política, econômica, religiosa ou social”. Assim, é interessante considerar três elementos ao analisar atentados terroristas: a motivação, a não existência de uma nacionalidade do terrorismo e a finalidade do ato.

Para a Casa Branca, as mortes de Anwar al-Alwaki  e Samir Khan devem enfraquecer a organização terrorista com a perda de seu principal propagador em língua inglesa. Contudo, as mensagens anteriores de al-Alwaki continuam disponíveis em domínio público, motivando pessoas a adotarem políticas anti-americanas e convencendo-as a aderirem à sua causa. Dessa forma, a única vantagem norte-americana foi acabar com a possibilidade de divulgação de futuros discursos do líder religioso sem conseguir exterminar as ideias por ele já disseminadas. Seu pensamento poderá continuar inspirando outros atentados terroristas, principalmente após o ataque executado pelos Estados Unidos da América que levou à morte de um de seus próprios cidadãos de forma arbitrária, sem julgamento prévio ou direito à defesa.

No pós-atentado de 11 de setembro de 2001, os argumentos norte-americanos para propagar sua “guerra ao terror” versavam sobre a defesa dos “valores ocidentais” de democracia, justiça, direitos humanos, liberdade e promoção da segurança mundial. Contudo, dez anos após o fato, pode-se questionar se as investidas desse país têm sido de fato pautadas por esses valores. Os métodos utilizados pelos Estados Unidos são, no mínimo, controversos e ineficientes. A morte de al-Alwaki, por exemplo, não respeitou nem o próprio sistema jurídico norte-americano, que condenou o ato e reiterou o direito do cidadão a ser julgado pelo Tribunal de Justiça.

Outra medida questionável é o uso de tortura para a extração de informações que ajudem em operações contra redes terroristas. Esse foi um tema central nas denúncias de violações de direitos humanos na prisão norte-americana de Guantánamo. A ponto de haver suspeitas de que as próprias pistas que levaram à morte de Osama bin Laden (grande líder da Al-Qaeda, morto em maio) terem sido obtidas por esses meios, por sua origem duvidosa.

A invasão do Afeganistão também é um assunto obscuro. No ano do aniversário de dez anos de ocupação estrangeira, poucos avanços podem ser encontrados no país. O conflito gera anualmente um custo humano extremamente elevado. É possível contabilizar, até o momento, cerca de 1600 militares norte-americanos, 1000 soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e 8.756 soldados afegãos mortos além de 16000 combatentes feridos. Contudo, não é possível estimar o número de civis prejudicados nesse período.

Também não se pode afirmar que o Afeganistão se tornou um local mais seguro para seus habitantes. Atentados terroristas continuam acontecendo no país, como o assassinato do Professor Burnahuddin Rabbani Shaheed em sua casa em Cabul por um homem bomba, em 20 de setembro de 2011. A morte do ex-presidente e então chefe do Alto Conselho para a Paz do Afeganistão, considerado o principal negociador de paz, gerou comoção nacional e incertezas quanto aos diálogos com o grupo radical Talibã. A principal exigência da organização para negociar com o governo é a saída das tropas estrangeiras, contudo um acordo firmado entre os presidentes Obama e Karzai assegura a manutenção de 25000 soldados e armamentos americanos no território afegão até pelo menos 2024. A morte de Rabbani foi mais uma ofensiva contra peças chave do governo de Hamid Karzai.

Ainda que a invasão norte-americana tenha tirado o Talibã do poder e instaurado uma democracia, a situação política afegã é extremamente frágil. Primeiro pela composição étnica variada do país, depois pelos constantes ataques cometidos pelo Talibã e a dificuldade de negociação e em seguida pelas denúncias surgidas nas eleições de 2009 a respeito de fraude quanto à reeleição de Hamid Karzai com o candidato da oposição afirmando não serem possíveis eleições livres e justas no Afeganistão.

Invadir um país para combater diretamente o terrorismo é uma atitude pouco eficaz. Aliás, combater o terrorismo internacional é uma atividade bastante complicada. Grupos terroristas não têm uma nacionalidade fixa, são atores não estatais localizados em diversos países, o que lhes confere grande mobilidade. Isso foi visto no Afeganistão após a chegada das tropas estrangeiras: o alto-escalão do Talibã se estabeleceu em Quetta Shura, no Paquistão, onde atua livremente. Também lideranças da Al-Qaeda estão espalhadas em diversos países, como o próprio Paquistão.

Além disso, é notável o grande número de outras organizações terroristas que têm ligações com a Al-Qaeda, como o Al-Shabaab na Somália. Motivados por ideias com os conteúdos mais diversos e agindo com a finalidade de chamar atenção para a sua causa, eles promovem o terror generalizado em diferentes territórios.

A solução para acabar com o terrorismo não seria invadir todos esses países, mesmo porque só com a guerra no Afeganistão são gastos cerca de US$ 104 bilhões ao ano do orçamento norte-americano. Deste modo, os ataques que violam a soberania de outros países, as invasões do Afeganistão e do Iraque, bem como o emprego de tortura para conseguir confissões e a execução de pessoas sem julgamento, não se mostraram atitudes eficazes para acabar com o terrorismo. Pelo contrário, elas contribuem para fomentar o ódio e a aversão aos Estados Unidos, oferecendo muitas vezes justificativas aos grupos extremistas para defenderem suas ações.

Continuam acontecendo ataques terroristas no mundo da mesma forma que continuarão a surgir líderes extremistas que argumentam contra os Estados Unidos e incitam ações radicais, muitos deles como reação às atuais práticas da “guerra ao terror”. Claramente, o modo norte-americano se mostrou pouco efetivo para os fins almejados.

Deve-se pensar ainda que uma forma de combater ideias equivocadas é difundir ideias novas. Como a base de qualquer ação terrorista está em uma ideologia, os Estados Unidos deveriam estimular uma nova visão de sua política externa e de suas ações internacionais amenizando a imagem negativa propagada até então. Seria um momento mais do que oportuno para a maior potência militar do mundo valorizar o Direito Internacional, proteger os direitos humanos e respeitar as organizações internacionais nas suas atuações em favor da segurança internacional, defendendo os “valores ocidentais” a que se propôs dez anos atrás.

Patrícia Nabuco Martuscelli é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB  e membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-iREL-UnB (patnabuco@gmail.com)

Print Friendly, PDF & Email

1 Comentário em Os 10 anos da “Guerra ao terror”: meios controversos e avanços insignificantes, por Patrícia Nabuco Martuscelli

  1. Achei texto,mostrando o outro lado de uma guerra que mata pessoas e tambem as ideias. Mostra como os EUA estão equivocados na maneira de combater um mal, que eles prorios desenvolveram ao longo dos anos.
    Muito boa reflexão……………………..

Top