O Conflito Checheno: de Grosni a Moscou, por Leonardo Miguel Alles

A República Russa da Chechênia está situada ao sul da Rússia onde faz divisa com a Geórgia. Essa república é rica em petróleo e apresenta um histórico irredentismo, o que deixa Moscou em uma situação difícil. A importância do recurso natural é mitigada em relação ao perigoso precedente que a Chechênia pode representar caso atinja a independência, pois outras regiões podem seguir seu exemplo.

A Chechênia foi um território de difícil conquista para os russos. Apenas em 1859, a resistência de Imã Shamil foi superada. Durante a Revolução Russa os chechenos declararam sua independência que, como nos demais países da região, durou até 1922. Nos anos trinta, a região foi fundida com a Ingushétia para formar a República Autônoma da Chechênia-Ingushétia. Durante a Segunda Guerra, a região conseguiu novamente se livrar do jugo soviético, a sedição não foi tolerada por Stálin que enviou boa parte dos habitantes locais para os gulags siberianos. Essa população deportada retornou em 1957 com o fim do stalinismo.

O colapso da URSS representou uma nova oportunidade ao irredentismo. Dzhokhar Dudayev, ex-oficial da força aérea soviética, declarou a independência chechena em 1991. Boris Yeltsin, presidente russo na época, enviou funcionários de diversos escalões a Grosni para contornar a situação. A delegação foi recepcionada por combatentes chechenos e enviada de volta a Moscou, a primeira de uma série de humilhações que se seguiriam ao Kremlin.

Dudayev tornou-se cada vez mais assertivo contra Moscou, pari passu o vácuo de poder no território permitiu o surgimento de grupos armados que obtiveram cada vez mais poder na região. Pretendendo evitar a secessão dessa república (em 1994, ou seja próximo das eleições de 1996) Yeltsin enviou uma força-tarefa mal preparada. Apesar da supremacia militar, a promessa de uma rápida vitória não se concretizou. A resistência local, realizada com táticas de guerrilha, ampliou-se e o número de soldados russos mortos aumentou consideravelmente.

Em 1996, Moscou retirou suas tropas da região após o acordo de paz de Khasavyurt devido o vexame e a oposição da opinião pública diante dos acontecimentos (estima-se 100 mil mortes). O tratado previu autonomia para a Chechênia, porém não a tornava independente.

Em 1997, Aslan Maskhadov foi eleito presidente da Chechênia. A sua gestão não redimiu a situação caótica do país, pois falhou em controlar os senhores da guerra que enriqueciam com sequestros e outros delitos. Por outro lado, Moscou também foi responsável pelo fracasso dessa república, pois não reconstruiu da infraestrutura local.

Em 1999, combatentes chechenos foram ao Daguestão apoiar um movimento islâmico nacionalista que clamava por uma guerra santa contra à Rússia. Nessa época Putin, já exercendo o cargo de primeiro-ministro, respondeu de forma rápida e dura. A revolta terminou em semanas, suprimindo à força o spillover para as regiões vizinhas.

No mesmo ano, uma série de atentados terroristas que mataram mais de trezentos civis em Moscou e Volgodonsk foi atribuída a rebeldes chechenos. Esses fatos foram utilizados como justificativa para uma nova expedição russa (90 mil soldados) à república. Apesar de Putin ter afirmado que atingiu a vitória no conflito, a conclusão não parecia clara.

As constantes violações de direitos humanos por parte dos russos saíram do foco da mídia internacional após os atentados de 11 de setembro de 2001, pois Moscou procurou enquadrar os rebeldes dentro de redes terroristas internacionais. O conflito voltou novamente às manchetes dos jornais quando um grupo de rebeldes chechenos atacou o teatro moscovita da rua Dubrovka. Tropas russas executaram não apenas os terroristas, mas também 130 civis.

Em março de 2003 foi realizado um referendo que aprovou a nova constituição local que estabelece a república como autônoma, mas não independente. No mesmo ano Akhmad Kadyrov é eleito presidente, mas é assassinado no ano seguinte. A instalação de um governo pró-russo era a única solução para a finalização do conflito. A comunidade internacional foi extremamente negligente na questão chechena, a OSCE deixou a região a pedido da Rússia, a ONU prestou uma limitada ajuda humanitária, ao passo que o Conselho Europeu solicitou a instauração de tribunal internacional ad hoc, que não foi instituído.

No ano de 2005, eleições parlamentares foram realizadas o que resultou em metade dos assentos para o partido pró-Kremlin. Os rebeldes separatistas contestaram o pleito, apesar disso, o presidente Putin afirmou que o processo democrático e a ordem foram restaurados. Dessa forma a transição estaria completa.

Em virtude de uma aparente estabilidade, a Rússia anunciou a retirada de suas tropas da região em abril de 2009. Atualmente Grosni, capital da república, está sendo reconstruída, embora ataques esporádicos ainda tenham sido registrados em 2010.

A Chechênia tem sido governada por Ramzan Kadyrov, filho de Akhmad Kadyrov, desde abril de 2007. Jovem demais para substituir seu pai em 2004, ele apoiou Alu Alkhnaov e tornou-se seu primeiro-ministro, encarregando-se dos projetos de reconstrução. Kadyrov prometeu vingar a morte de seu pai, e uma milícia de nome Kadyrovtsy (grupo paramilitar pró-Moscou liderado inicialmente por Akhmad Kadyrov e após sua morte por Ramzan) que busca livrar a região dos rebeldes. Kadyrov defende-se das violações de direitos humanos dizendo que é preciso um mandato de ferro para trazer a estabilidade necessária à região (fato confirmado pelo assassinato da jornalista Anna Politkovskaya que investigava os abusos do Kremlin e de Ramzan).

O inimigo de Kadyrov é o líder separatista Doku Umarov, sucessor de Abdul-Khalim Saydullayev, morto em 2006 durante uma operação policial. Umarov chegou a afirmar que evitaria a morte de civis em seus ataques contra alvos russos, porém como os ataques ao metrô de Moscou (2010) e do aeroporto Domodedovo (2011) demonstram, ele busca difundir o medo entre a população.

O espectro de um “segundo Afeganistão” assombrava o Kremlin, pois uma nova derrota militar diante da nebulosa islamita na Chechênia, além de constrangedora, poderia desencadear novos conflitos no Cáucaso. Daí a recusa em aceitar qualquer tipo de negociação ou o reconhecimento do direito à autodeterminação. Atualmente, o governo de Grozny parece ter pacificado a república à custa dos direitos humanos. Isso, no entanto, não significa o final dos combates na região, que migraram para o Daguestão.

Referências

BBC. Regions and Territories: Chechnya. Disponível em: [http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/country_profiles/2565049.stm]. Acesso: 17/11/2011.

CHETERIAN, Vicken. Uma Guerra que não Acaba. Disponível em: [http://diplomatique.uol.com.br/acervo.php?id=611&PHPSESSID=5d19270515400b6f5f480f5c9ce136e3]. Acesso 17/11/2011.

THE GUARDIAN. Chechnya. Disponível em: [http://www.guardian.co.uk/world/chechnya]. Acesso: 17/11/2011.,

 

Leonardo Miguel Alles é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul –UFRGS. (leonardo.alles@hotmail.com)

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