Ameaças fantasmas: a força da unipolaridade, por Flávio Pedroso Mendes

Conceitos analíticos criados para o tratamento científico das dinâmicas da política internacional, como de resto em qualquer área de investigação de fenômenos naturais ou sociais, possuem utilidade somente se lhes são atribuídos contornos claros e distintivos e se deles se derivam expectativas concretas. Assim deve ser para noções como “unipolaridade”, “pax americana” e “pós-americanismo”, para citar apenas algumas que nos interessam aqui. Se quisermos falar de uma “era americana” é preciso diferenciá-la do momento anterior – e, se for este o caso, apartá-la também de uma eventual nova situação que se vislumbra no horizonte. A realidade é, no entanto, demasiadamente complexa e multifacetada, o que significa dizer que marcos e elementos de diferenciação à nossa escolha tendem ao infinito. Os mundos de antes e de depois de 1991, por exemplo, distinguem-se tanto pelo desmantelamento de um império eurasiático quanto pela proliferação de franquias do McDonald’s ao redor do planeta. A escolha de nossas variáveis analíticas não é um processo qualquer e se trata, necessariamente, de uma escolha teórica – i.e., de um modelo abstrato da realidade, de seus principais elementos e do relacionamento entre eles, com vistas a explicar e a prever fenômenos concretos.

Poucos, se é que alguém, não atribuem a gênese da atual configuração da política internacional ao fim da URSS. A escolha teórica aqui é incontroversamente clara: a queda de um ator político do patamar de superpotência alterou significativamente as relações internacionais. A vertente teórica, no bojo da teoria das relações internacionais, que trata com maior solidez do impacto do número de pólos no sistema internacional sobre as resultantes políticas de maior relevância é o realismo estrutural ou neo-realismo (Waltz, 1979). A bipolaridade anterior, de acordo com essa perspectiva, existiu em função da distribuição de poder no pós-II Guerra Mundial e da correspondente criação de incentivos sistêmicos conflitantes para as duas superpotências. De um lado, uma formidável URSS com potencial para se tornar senhora da Europa e da Ásia; de outro, um gigante separado por dois oceanos que passava a ter como meta angular de sua política internacional evitar que o potencial soviético se realizasse plenamente. O mundo chegado no início da década de 1990, como quer que se queira chamá-lo, era inquestionavelmente distinto do anterior, ainda que suas dinâmicas próprias continuem a ser objeto de especulação.

Desenhar teoricamente a nova ordem internacional e dela derivar expectativas foi o grande desafio colocado ao programa de pesquisa científico neo-realista. Apoiado no grande fôlego histórico-analítico de sua abordagem, Mearsheimer apostava numa nova era de distanciamento norte-americano das dinâmicas regionais de poder, ao menos na ausência de uma robusta ameaça de dominação local, postura que acredita ter servido bem aos interesses dos EUA até 1945. (Mearsheimer, 1991; 2001) Para Wohlforth, a unipolaridade era evidente, diante do abismo entre a soma de todos os recursos de poder dos EUA e os atributos dos Estados que vêm abaixo, e sua preservação demandava uma postura intervencionista ativa norte-americana, mediante a manutenção e o recrudescimento de alianças e compromissos herdados da Guerra Fria. (Wohlforth, 1999) Por fim, temos Layne, que concordava com Wohlforth a respeito da posição única e privilegiada dos EUA, mas que tomou caminho oposto ao avançar que o salto para a multipolaridade é inevitável, sendo os EUA capazes apenas de retardá-lo por meio da transferência de custos e de responsabilidades a antigos aliados regionais. (Layne, 1993)

Divergências à parte, as abordagens neo-realistas sumarizadas guardam em comum uma premissa essencial: o atual momento dos EUA – seja de unipolaridade, como quer Wohlforth, seja de hegêmona regional atuando como balanceador externo, como quer Mearsheimer – só é efetivamente ameaçado diante da ascensão concreta de pelo menos mais um pólo no sistema, um ator político com peso suficiente para rivalizar com os EUA em questões políticas relevantes. E não é preciso ser muito perspicaz para perceber que não só não há um tal ator no horizonte, mas também que os EUA parecem ter lido a cartilha de Wohlforth e se preparado para matar a galinha no ovo.

A OTAN não só foi mantida, mas se expandiu para o leste até o quintal da Rússia, que tudo teve de observar passivamente. O mais recente capítulo desta história é composto pelas negociações para a instalação de um incipiente sistema norte-americano de defesa antimísseis em território polonês e da República Tcheca, um vexame político que mesmo em fins dos anos 80 era inimaginável. A União Européia, não obstante alguns de seus avanços econômicos, não promete ser capaz de superar as profundas barreiras políticas, militares e nacionais à criação de um efetivo Estado unitário, ao que se soma a tendência ao alinhamento com os EUA no interior da OTAN.  Da mesma forma, os laços de segurança e defesa no leste asiático, com Japão e Coréia do Sul, foram mantidos, cristalizados na robusta presença militar continuada dos EUA na região. O Golfo Pérsico, região que até recentemente só contava com desdobramentos periódicos de tropas para treinamentos e exercícios, agora possui uma efetiva base avançada para pronta resposta a contingências e para a defesa de interesses dos EUA na região.

A guerra do Iraque de 2003 é ainda mais sintomática do que pode parecer à primeira vista. Tratou-se de uma guerra ilimitada, altamente onerosa política e economicamente, que não foi motivada pelo interesse dos EUA em preservar sua posição relativa no sistema internacional. A contenção da proliferação nuclear aparece, então, como um problema que os EUA se dispõem a enfrentar com esforço e determinação, de modo sem precedentes, mesmo não ameaçando seu interesse supremo de permanecer a única superpotência do planeta. Não há como não relacionar essa mudança de assertividade por parte dos EUA à desproporção de seus recursos e à inexistência de um rival político forte o suficiente para contrarrestá-lo. Nessa categoria deve também forçosamente entrar o combate ao terrorismo. Organizações terroristas se tornaram um alvo em evidência da política de defesa dos EUA porque demonstraram ser capazes de produzir danos em uma escala que os EUA não estão dispostos a aceitar, mas estão absolutamente fora de qualquer possibilidade de obliterar a atual configuração internacional. Ter de combater grupos políticos não-estatais, cujos membros se contam aos milhares e cujo orçamento é do patamar de milhões, no lugar de Alemanhas ou Rússias, é, em certo sentido, um privilégio.

Há, para concluir, a China. Aqui se têm, sobretudo, elementos latentes. A manutenção de taxas expressivas de crescimento, somada a uma população colossal, podem ser os ingredientes para uma China revisionista e pleiteadora do status de pólo. Entretanto, não são poucos os problemas políticos e econômicos que têm de ser superados para que a China atinja esse potencial. Para o momento, e para o horizonte próximo, há bem menos do que se imagina. A capacidade chinesa de lançar um ataque nuclear retaliatório, tendo sido vítima de um primeiro ataque devastador, é ainda duvidosa. No campo convencional, a capacidade de projeção de força da China é ainda significativamente baixa, ao ponto de se poder lançar séria dúvida sobre seu potencial para tomar Taiwan, mesmo sem oposição dos EUA. (O’Hanlon, 2000)

Em suma, as bases da unipolaridade são sólidas e, com base no que há de mais progressivo no campo da teoria das relações internacionais, tendem a continuar assim por um período apreciável.

Referências bibliográficas

Layne, Christopher. The Unipolar Illusion: Why Great Powers will Rise. International Security, vol. 17, n.4, (spring, 1993), pp. 5-51.

Mearsheimer, John J. Back to the Future. International Security, vol. 15, n. 1, (summer, 1990), pp. 3-54.

Mearsheimer, John J. The Tragedy of Great Powers Politics, 1st Ed., New York: Norton & Company, 2001.

O’Hanlon, Michael. Why China Cannot Conquer Taiwan. International Security, vol. 25, n. 2. (Fall, 2000), pp. 51-86.

Waltz, Kenneth N. Theory of International Politics. New York: McGraw-Hill, 1979.

Wohlforth, William C. The Stability of a Unipolar World. International Security, vol. 24, n.1, (summer, 1999), pp. 5-41.

Flávio Pedroso Mendes é mestre em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – Coppe/UFRJ, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo – IRI/USP e professor da Universidade Federal de Uberlândia – UFU.

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