O atlantismo brasileiro e o Banco Mundial, por José Flávio Sombra Saraiva

A estréia africana da presidente do Brasil ocorre, nesses dias, em região próspera do continente transatlântico. A África do Sul cresce seu produto interno a ritmo saudável, na régua continental, desde o fim do regime de segregação racial. Incluiu programas de mitigação de miséria.

As eleições presidenciais regulares sul-africanas sugerem algum aperfeiçoamento democrático. A projeção externa da mais rica nação da África Austral a levou a se juntar ao Brasil, na lógica das coalizões Sul-Sul, ao nascimento do grupo Ibas (Índia, Brasil, África do Sul). E recebeu apoio do Brasil à integração do país de Mandela ao grupo dos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul).

Moçambique e Angola, países das franjas índicas e atlânticas de língua portuguesa da África, também recebem a chefe de Estado do Brasil. Os países lusófonos da África lembram tanto o reconhecimento do governo marxista em Angola em 1975 quanto os investimentos de empresas brasileiras na economia angolana no hoje. A cooperação do Brasil com os moçambicanos é modelar, da ajuda para o desenvolvimento ao alívio de dívidas na era Lula.

A reunião do grupo Ibas vem se ampliando em escopo, a mover a conexão do Índico ao nosso rio chamado Atlântico. A presidente, por meio da estada na África do Sul, dá continuidade ao reencontro do Brasil com os países ribeirinhos do Atlântico Sul. Reafirma a política africana do Brasil no início do século XXI.

Simbólica a lembrança do atlantismo brasileiro. Ele voltou forte, depois de uma longa história, a migrar para relações entre Estados, atores múltiplos em paz e cooperação. Muito diferente é esse atlantismo brasileiro em relação à lógica do Atlântico Norte: da OTAN, nuclear, da entente americano-européia, da militarização das almas.

Até  o Banco Mundial se convenceu da relevância das relações atlânticas do Brasil. O título do relatório que está sendo ultimado pelo BIRD, em cooperação com o IPEA e consultores brasileiros, africanos e economistas seniores, fala por si: Bridging the Atlantic: Brazil and Sub-Saharan Africa. Evolving South-South Cooperation.

O termo utilizado pelo Banco Mundial não é “cruzar o Atlântico”, mas “criar pontes atlânticas”. Extraordinário documento, pautado por ineditismo e coragem, é recuperação em forma de diagnóstico do atlantismo brasileiro. A ampla rede de contatos, bens, idéias, comércio e cooperação que se desenhou nessa parte do mundo é destaque no relatório do BIRD.

Imunes em parte às crises mundiais que vem da crise de 2008 e que se perpetuam no centro do capitalismo, os países atlânticos da África não querem nem saber disso. Crescem a níveis contrastantes ao pífio desempenho dos países do Norte. O FMI acaba de lançar o dado: crescerão os PIB africanos em torno de 5% em 2011 e também em 2012.

A conversão feita pelo Banco Mundial ao atlantismo brasileiro tem razão de ser. Leiamos com atenção – a partir do próximo dia 6 de dezembro, quando a sede do Banco Mundial em Brasília anuncia seu lançamento – as conclusões dos especialistas que acompanharam o novo padrão das relações econômicas e políticas no Atlântico Sul. São altamente positivas as perspectivas acerca da animação quase mediterrânea do ir e vir nas margens atlânticas do sul da linha do Equador.

 Deve-se reconhecer que as instituições econômicas mundiais nem sempre são os algozes que empurram programas e idéias fechadas à periferia do mundo. Nesse caso, há o reconhecimento de conceitos e idéias brasileiras. É um novo patamar para o entendimento da história das oscilações nas relações africano-brasileiras bem como as novas oportunidades que se abrem na fronteira oriental do Brasil.

As lições são claras. Há uma frente de aprofundamento das relações internacionais africano-brasileiras, em certo paralelo às relações Brasil-América do Sul. A África tem futuro, e coincide com o Brasil global. Os gráficos e tabelas do novo relatório Banco Mundial sugerem política de aprofundamento. Variam da cooperação clássica, ou triangular, às intensificações de interações de novos atores, especialmente os empresariais. E ainda há muito a fazer na coordenação de posições diante dos desafios globais, como se vê nos encontros de brasileiros e africanos na África do Sul desses dias.

José  Flávio Sombra Saraiva, PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (jfsombrasaraiva@gmail.com).

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