Síria: o desafio da oposição a Assad, por Lucas Santiago Brasileiro

Era fevereiro de 1982. A cidade de Hama observava um momento de intensos protestos. O Partido Baath, no poder há 20 anos, teve muitos de seus líderes mortos por insurgentes islâmicos sunitas, que protestavam contra o ditador Hafez al-Assad, da minoria alauíta. A resposta é rápida: em menos de um mês, cerca de 20 mil civis foram mortos pelas forças armadas, a Irmandade Muçulmana acaba expulsa e os protestos esmagados. O episódio ficou marcado como o maior massacre da história da Síria.

Trinta anos depois, Hama está em polvorosa novamente. Desta vez, os protestos se voltam contra Bashar al-Assad, filho de Hafez, no poder desde 2000. Influenciados pelo sucesso das revoltas na Tunísia e Egito, as manifestações continuam por todo o país, mesmo depois de Assad fazer uso de forte repressão. A Organização das Nações Unidas estima 2700 mortos, a maioria civis, por forças militares do governo.

É possível observar um crescente isolamento da Síria no cenário internacional. Os Estados Unidos e a União Europeia já deram início a diversas sanções, tanto contra Assad como seus aliados mais próximos. Importações do petróleo sírio foram banidas na Europa, e prevê-se um embargo completo no fim do ano. O governo americano já afirma em seu discurso que o presidente Assad não possui mais legitimidade, e até mesmo países da região se posicionaram decididamente contra ele, como a Turquia, a Arábia Saudita e outros países do Golfo. Mas um acontecimento importante, e que tem favorecido a continuidade de Assad no poder, é a incapacidade da oposição de se organizar.

Unidos apenas pelo anseio da queda do regime de Assad, a oposição síria se divide por quase todos os outros fatores: ideologia, estratégia e religião. É notável a dificuldade de coesão política de grupos dissidentes, em diferentes cenários. Em nível internacional, foram realizadas várias conferências na tentativa de criar algo como um Conselho Nacional de Transição Sírio, à semelhança do que ocorreu na Líbia. A primeira experiência relacionada foi a Iniciativa Nacional para Mudança, realizada em abril por dissidentes sírios nos Estados Unidos. Em seguida, ocorre em Anatólia, a Conferência para Mudança; e em Istambul o Conselho de Salvação Nacional. Entretanto, o desejo de uma frente política única parece ainda muito distante da concretização, já que nenhuma dessas conferências teve a capacidade de satisfazer os interesses dos diferentes grupos envolvidos. Os curdos, por exemplo, discordam do fato de que a República Síria deva conter a palavra “Árabe” no nome. Membros da Irmandade Muçulmana, por sua vez, se posicionam contra a secularização defendida por outros. As diversas iniciativas de coalizão demonstram apenas o quanto estas se diferenciam quanto a seus objetivos, composição e estratégia.

Em nível interno, as manifestações seguem seu rumo, a despeito da violência intimidadora das tropas de Assad. Curiosamente, a shabab – a juventude síria – possui uma grande organização entre seus membros, que são incumbidos de diferentes tarefas durante as movimentações, como apartar brigas e limpar as ruas depois de protestos. Em Homs, no oeste da Síria, foi criada, inclusive, uma comissão de saúde para tratar de feridos, longe de hospitais públicos, uma vez que a política secreta síria pode identificá-los. É possível encontrar no Facebook a página da Redação dos Revolucionários de Homs, com atualizações dos dissidentes.

Apesar disso, o movimento das ruas perde pela ausência de diálogo com os grupos de coalização que tentam se formar fora do país. Frequentemente os manifestantes criticam os políticos sírios por perderem muito tempo em conferências ou em negociações infrutíferas com diplomatas de Damasco, acreditando que a derrota do governo de Assad encontra-se tão somente na marcha da população em direção às ruas.

Em nível regional, há a consciência de que a queda de Assad poderia trazer grandes perturbações.  Um fato do atual regime sírio que não pode ser negado é sua capacidade de manter a estabilidade das fronteiras. Mas isso pode estar em vias de mudança: as fronteiras com Israel, imperturbadas há mais de 30 anos, foram palco de tiros quando refugiados sírios tentaram fugir de seu país. Há também uma tensão cada vez maior em relação à Turquia, país que passou a condenar o governo do presidente Assad e abriga muitos refugiados em seu território. Um temor ainda maior é o Líbano, há muito tempo utilizado como instrumento em função dos interesses sírios. Grupos políticos do Líbano tradicionalmente críticos do governo do presidente Assad – como os membros da Aliança 14 de Março, formada em 2005 para dar fim à ocupação militar do Líbano pela Síria – têm se mostrado silenciosos quanto aos protestos contínuos contra seu regime. Isso talvez demonstre o receio de que Assad, em uma recuperação futura, amplie seus ataques a dissidentes de seu governo no próprio Líbano. O risco da instabilidade na Síria atingir esse país torna assim factível, também por parte de seu poder sobre o Hezbollah. O mesmo receio impede que a desaprovação de Assad ganhe ainda mais visibilidade na região.

Observando-se também as diferentes etnias do país, não se trata de um desafio muito complexo compreender a dificuldade da oposição. A Síria abarca uma lista de religiões, seitas, tribos e etnias, que contrasta com a imagem de uma homogeneidade política e étnica “Árabe” divulgada em função do pan-arabismo do Partido Baath. Por baixo dessa imagem, no entanto, não se encontra uma unidade, mas sim uma sociedade fragmentada, na qual as minorias do país perderiam muito com o fim do atual status quo. Os alauítas seriam os principais afetados nesse processo. Os Assad, pertencentes a essa minoria, garantiram aos de sua etnia os principais cargos nas forças militares, assim como a maior parte das redes de telecomunicações também pertencentes a eles. Outros grupos minoritários, como os xiitas, os cristãos e os curdos, que não possuem tanta influência ou poder como os alauítas, temem, mais do que estes últimos no comando do governo e das forças armadas, uma república dominada pela maioria sunita. Isso em grande parte explica a persistência das minorias em apoiar o status quo garantido com alauítas no poder. Apesar dos clamores de parte dos sunitas por uma república democrática na Síria, as minorias do país tendem a preferir o atual governo de Assad a passar por uma experiência democrática que dê errado em suas mãos. Afinal, ainda restam receios de que uma democratização apenas traria oportunidades para fundamentalistas islâmicos chegarem ao poder, com igual ou até maior repressão.

Por fim, tem ficado implícito nos discursos de muitos países que o governo de Assad deveria ao menos realizar reformas políticas para que se tornasse aceitável. O multipartidarismo seria um exemplo dessas reformas, ainda não posto em prática. Mas o presidente, ao mesmo tempo que promete reformas, tem combatido violentamente as manifestações nas ruas. Em contragolpe, a oposição em geral se recusa tentar acordos com Assad em razão do uso de violência, e tem boicotado qualquer tipo de negociação.

Com o número crescente de mortes e a inviabilidade de uma intervenção estrangeira no momento atual, a solução mais rápida se torna o diálogo com o governo. Entretanto, enquanto não houver maior organização política da oposição síria, crescem a cada instante os riscos de instabilidade na região, guerra civil e, mais provavelmente, a vitória de uma tirania da maioria no país. A ajuda internacional não virá tão cedo, e as vidas de muitos dependem desse esforço.

 

Lucas Santiago Brasileiro é aluno de graduação em Relações Internacionais na Universidade de Brasília – UnB e participante do Laboratório de Análise em Relações Internacionais do Programa de Educação Tutorial de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET/IREL – UnB  (lucasbrasileiro15@gmail.com)

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