O atentado de 22 de Julho na Noruega e o crescimento da extrema direita na Europa , por Maurício Kenyatta Barros da Costa

O duplo atentado ocorrido na Noruega no dia 22 de Julho de 2011 contra um prédio do governo e o encontro de jovens do Partido Trabalhista suscitou o levantamento de algumas questões as quais o continente europeu já vem se defrontando há um tempo: a situação dos fluxos de migração para a Europa, o caldeirão cultural que emerge no continente e as dificuldades de lidar com essa mistura que são desafios que constam na agenda política dos partidos do velho continente.

Esses desafios têm sido traduzidos em embates políticos, sendo que a extrema direita tem sido uma força política que vem cada vez ganhando mais espaço dentro desse cenário (conquistando avanços significativos em pelo menos quatorze países do continente), situação que vem ao encontro até de uma discussão ainda mais global: os destinos do projeto de integração europeu.

Anders Behring Breivik, o norueguês responsável pelo duplo atentado, era filiado ao Partido do Progresso, de extrema direita no país. Ainda que o fato de ter pertencido ao partido não justifique completamente o arcabouço ideológico de Breivik, pode-se encontrar a comunhão de algumas perspectivas com partidos de extrema direita no continente em seus escritos, como a exaltação do nacionalismo, contrariedade a imigração, ao asilo político, ao multiculturalismo e a União Européia (UE). No entanto, há de se considerar que há diferenças entre os países do continente acerca do entendimento sobre multiculturalismo e até do próprio posicionamento da extrema direita, o que me faz tratar dos pontos gerais para compreender os efeitos mais globais que perpassam essa discussão.

A complexidade do caso europeu reside em um processo de socialização dos seus cidadãos que se tem constituído em duas facetas, uma nacional, na qual os indivíduos se reconhecem enquanto nacionais de um determinado país, e outra européia, mais recente, e que tem fomentado a identidade regional européia. Essas duas identidades muitas vezes não se harmonizam e se refletem nas pessoas e nas estruturas de organizações, como os partidos políticos, os quais acabam por representar as tensões que compõe o projeto europeu.

A extrema direita em muitos países da Europa tem defendido um projeto de identidade voltado para os seus Estados nacionais. Sendo em muitos casos contrários e desejosos por medidas mais duras para acabar com a imigração e diminuir o número de estrangeiros em seus países. Além disso, há um reconhecimento entre eles que a União Européia teria sido responsável pela relativização das culturas nacionais de cada Estado em prol de uma européia. Essa cultura européia devido a sua abrangência e adoção do multiculturalismo possibilitaria a existência de outras dentro do continente europeu.

A questão dos imigrantes dentro desse processo de discussão de partidos favoráveis e contrários à União Européia se põe de maneira dramática. Contudo estes já representam 10% da população do continente, sendo que cada vez se tornam mais relevantes devido à baixa taxa de natalidade e a necessidade crescente de imigrações para que a Europa possa ter capacidades humanas para manter seu fôlego econômico em longo prazo.

As preocupações da extrema direita residem no temor de que o indivíduo enquanto nacional de um Estado da Europa venha a desaparecer, e que na formação dele enquanto europeu, o multiculturalismo que abraça pessoas de diversas localidades, no caso europeu, principalmente islâmicos, faça com que o ser europeu se conforme a partir dessa miscigenação, dessa mistura de culturas diversas, fazendo assim, com que o europeu não venha a se tornar nada além do que uma mistura inconsciente de povos. Dessa maneira, alguns membros da extrema direita, como o terrorista Breivik, vislumbram um contexto de “islamização” da Europa, como se estes estivessem em um projeto racional para deformar a região enquanto um composto de identidades de países da região.

O projeto europeu enunciado pela extrema direita visaria a proteger sua cultura livre das pressões exercidas por estrangeiros. Entretanto, esse projeto não responde como os países europeus conciliariam a necessidade de mão-de-obra sem os imigrantes. Dessa maneira, essa alternativa poderia trazer graves prejuízos a Europa.

A saída encontrada para essa questão até recentemente se baseava na construção de um multiculturalismo diferenciado, no qual a incorporação de pessoas de diversas identidades se dava na aceitação por parte delas do modelo ocidental para se adaptarem e se inserirem dentro da sociedade européia. Entretanto, o fracasso desse multiculturalismo que tem sido proclamado por muitos chefes de Estados, como Nicolas Sarkozy da França, se faz devido à persistência da cultura dos estrangeiros e sua penetração na cultura européia.

Nessa ótica, o multiculturalismo falhou, não foi possível harmonizar as diversas culturas, não foi possível fazer todos aderirem ao modelo ocidental, ou pelo menos, fazer com que outros modelos culturais se insiram, assim como os estrangeiros têm se inserido na Europa, subalternamente, de maneira inferior, se sujeitando aos empregos menos desejados. No entanto, assim como na formação cultural de alguns países, como no caso brasileiro, percebe-se a dificuldade em se impedir a mistura cultural, pois esta é um fruto das diversas práticas que persistem em um local, sendo que mesmo tendo conflitos, a mistura ocorre conforme as diversas identidades se interagem.

No manifesto de Breivik, “2083: Uma Declaração de Independência Européia”, o terrorista declara que a Coréia do Sul e o Japão são exemplos de sociedades devido à baixa miscigenação e influências de outras culturas sobre as suas, enquanto países como o Brasil, caracterizado pela mestiçagem de crenças, raças e culturas é visto como um projeto falido de sociedade. Desse modo, entende-se o teor cruzadista e medievo utilizado pelo terrorista que remonta a tempos em que a Europa era outra, e não precisava lidar com as conseqüências da globalização.

O imperativo que é imposto pelo fenômeno da globalização, a qual cada vez tem intensificado ainda mais os processos de intercâmbio financeiro, tecnológico, institucionais e de pessoas têm apresentado uma velocidade e intensidade a qual a Europa tem tido dificuldade de assimilar. Já que esta enquanto centro global irradiador de cultura tem enfrentado obstáculos para articular projetos nacionais que lidem com a contramão do processo de intercâmbio propiciado pela globalização, a influência do outro sobre seus próprios padrões.

Na dinâmica do processo histórico é perceptível que o campo das ideias e o cultural são mais resistentes às mudanças do que o tecnológico, econômico e político, por exemplo. De tal modo que o processo de disseminação do modelo ocidental pelo mundo foi caracterizado muitas vezes pela violência e subordinação do outro, sempre muito doloroso e por vezes traumático. A Europa nesse novo contexto global, o qual tem propiciado a intensificação da troca cultural dos outros com a Europa, passa por choques que se refletem desde o crescimento de movimentos neonazistas que se utilizam da violência e xenofobia, passando por atentados como o da Noruega, até ao crescimento dos partidos de extrema direita no continente. Ademais, a crise econômica de 2008 tem posto em destaque os conflitos, seja devido aos problemas que tem enfrentado o Estado de bem-estar social, ou até as dificuldades da própria dinâmica da integração regional que envolve assuntos polêmicos como a discussão da entrada da Turquia na UE, ou a continuidade da imigração para o continente.

A Europa passa por um momento que vai além da superação da crise econômica, há a necessidade de se superar uma crise social que ainda não atingiu o seu ápice, mas que aos poucos vem demonstrando as debilidades e limitações do projeto europeu para lidar com o outro. Dentro desse contexto, a União Européia deverá revitalizar-se e buscar soluções, pois é fundamental para que os países se recuperem dessa crise. Destarte, nesse momento de dificuldade, será necessário que a Europa e os Estados que a compõe entendam o avanço da extrema direita, pois esta convoca seus nacionais para se afirmarem enquanto povo e terem a certeza dos elementos culturais que os compõe enquanto sociedade. Nesse sentido, surge a necessidade de uma reafirmação da identidade européia, uma identidade confiante em si e que saiba aceitar o outro, não vendo o como uma ameaça.

O avanço da extrema direita se explica por um momento de crise e de vácuo de outros projetos partidários que se proponham a um posicionamento sócio-cultural, há a necessidade de que democraticamente, os partidos partam de um autoconhecimento enquanto europeus no mundo e permitam se abrir aos contatos e influências de culturas diferentes de uma maneira positiva, pois a sobrevivência cultural de uma nação depende de seu pleno conhecimento por parte de seu povo, assim como maleabilidade para se adaptar e atender as necessidades impostas por novas realidades, como a de um mundo globalizado e dos avanços no projeto de integração europeu.

Dessa maneira, enquanto os outros partidos políticos não despertarem para essa crise social, não superarem a falta de criatividade e a falta de confiabilidade por parte dos eleitores, a extrema direita com seu projeto radical poderá ganhar espaços através do medo causado por crises, imigrantes, terrorismo islâmico e local. Situações de fraqueza como essa clamam por projetos políticos fortes, por isso será um momento de provação para a democracia, a integração e a abertura da sociedade européia.

 Maurício Kenyatta Barros da Costa é graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Membro do Laboratório de Análise de Relações Internacionais – LARI – PET/REL- UnB. (mauriciodfgo@hotmail.com)

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