Projeções econômicas para a Europa: recuperação robusta ou incerteza?, por Caio Paes Leme Lorecchio

Segundo o Regional Economic Outlook do FMI lançado em Maio, As projeções para a economia européia referentes a este e ao próximo ano são boas. É esperado que o PIB da Europa cresça 2.4% em 2011 e 2.6% em 2012. A maior parte do crescimento europeu será capitaneado pela zona do euro e pelas economias emergentes. Focando na zona do euro, é esperado que seu PIB cresça 1.6%  e 1.8% para os mesmos anos. Focando nas economias emergentes é esperado o crescimento do PIB de 4.3% para 2011 e para 2012. Ainda, o relatório observa que a Europa pode entrar já neste ano em um crescimento robusto, auto-sustentado, dando um passo a frente à saída da crise econômica internacional.

A perspectiva de crescimento robusto é feita excluindo a possível ocorrência de alguns fenômenos, tais como: o default grego e o bail-out espanhol, ambos tendo efeitos na zona do euro;o aumento prolongado do preço global das commodities, com efeitos sobretudo para os países emergentes da Europa. Entretanto, são estes fenômenos realmente improváveis a ponto de desconsiderá-las ao traçar cenários para a Europa? Entender como esses acontecimentos podem modificar as perspectivas econômicas européias ajuda a compreender o quão frágil ainda é sua recuperação da crise.

 O default grego pode ocorrer em curto prazo, por crise política, ou em longo prazo, por desequilíbrios claramente impossíveis de serem resolvidos por meio de uma política de melhora de liquidez. Apesar de já ter recebido auxílio financeiro do fundo misto UE-FMI a taxas de juros favorecidas e ter seu prazo para amortização da dívida para com a UE postergado, as duras políticas de austeridade fiscal implementadas até o momento não foram capazes de gerar ao menos contenção de crise para a Grécia. Assim, foi pedido recentemente um novo resgate à economia grega, tendo como contrapartida a aprovação de um novo plano de corte de gastos. Para ampliar a probabilidade do mesmo ser aprovado no parlamento, Papandreou reformulou a equipe governamental e pediu voto de confiança ao legislativo.

A negação do voto de confiança implicaria convocação de novas eleições e perda de maioria do partido socialista no parlamento, o único que ainda defende aprofundamento de austeridade fiscal. Implicaria também o não recebimento do novo bail-out, tendo em vista que as condicionalidades do resgate, sobretudo as privatizações, são largamente criticadas pela Nova Democracia, partido de oposição e provável dono de maioria parlamentar em caso de queda de governo socialista. Ampliaria, em última instância, as possibilidades de o país decretar default. Entretanto, o cenário de um default grego em curto prazo, por questões políticas, é improvável, pois ainda que o partido do atual governo não goze de popularidade e que membros do próprio partido sejam alegadamente contrários às privatizações, é mínima a chance de o voto de confiança e o novo plano serem rejeitados. Até os membros de oposição sabem das conseqüências que a fuga de capitais posterior à crise política geraria para a Grécia neste momento.

A baixa probabilidade de um cenário de queda de governo, entretanto, não diminui de modo significativo o cenário de default grego em longo prazo. Estima-se que, para que a Grécia pague seus passivos, é preciso que sua economia cresça entre 10% e 12% ao ano até 2018, data prevista de amortização de sua dívida com a UE. Para um país que registrou crescimento negativo de 4% no ano passado e em perspectiva otimista conseguirá obter crescimento positivo de 1% em 2012, não é razoável supor que o mesmo pague seus credores a tempo. Também não é razoável supor que o prazo da dívida ou a taxa de juros da mesma seja novamente modificada em favor da Grécia, já que nem Alemanha nem França parecem manter simpatia acerca do combate da crise grega por meio de melhora de liquidez, sem combater radicalmente o problema de solvência.

Caso ocorra um default grego de fato, uma conseqüência séria para a estabilidade do euro é o esgotamento de recursos do BCE, já que seria necessário vender os títulos gregos a preços muito reduzidos, implicando em perda de € 30 a € 50 bilhões ao banco. Considerando que seu patrimônio formado por capital é de aproximadamente € 15 bilhões, um calote grego tornaria o BCE inoperante em curto e médio prazo em diversas atribuições, entre elas compra de títulos de outros países endividados e condução de política monetária. Entretanto, o maior perigo para a modificação radical das projeções européias no momento é o transbordamento da desconfiança dos investidores com relação aos PIGs para os países centrais da zona do euro, a começar pelos outros dois membros do acrônimo (Espanha e Itália). Em um cenário de default grego, certamente a percepção dos investidores para com a segurança de seus investimentos na economia espanhola seria comprometida.

Caso a economia espanhola comunique oficialmente a necessidade de assistência financeira, as estimativas otimistas sobre o montante necessário para recuperação do país são de aproximadamente € 500 bilhões. O fundo misto UE-FMI ativado em 2010 contém € 700 bilhões disponíveis para empréstimos aos países mais necessitados até 2013 sem reposição de capital. O fundo permanente a substituir o fundo misto a partir de 2013 possuirá € 750 bilhões, com uma base de capital a ser reposta. Considerando que já se gastou aproximadamente € 160 bilhões com os resgates aos PIGs, a concessão do bail-out espanhol em curto prazo seria algo impossível. Assim, na perspectiva de um default por Madrid em 2012, não caberia outra solução se não a saída da zona do euro, já que a única alternativa seria o país recuperar o controle de sua política monetária e promover desvalorizações, além de manter programas de rígida política fiscal.

Ainda que se suponha que o bail-out espanhol ocorra após o lançamento do fundo permanente, de modo que exista capital disponível para o resgate, simplesmente não há capital disponível nem em curto e nem em longo prazo para um futuro resgate à Itália: o país acumula dívida pública equivalente à € 1 trilhão, 50% a mais que a soma das dívidas do resto dos PIIGS e 40% acima do montante total do fundo permanente. Um cenário em que a Itália precise do recurso financeiro logo após o resgate da Espanha é extremamente provável, tendo em vista a fuga de capitais que ocorreria dos países com grandes desequilíbrios fiscais e o aumento exorbitante dos juros da dívida que se daria nestes países, visando desesperadamente atrair recursos.

Para se estabelecer projeções de manutenção da zona do euro e crescimento da Europa, portanto, é essencial ter uma resposta em termos de ser mais ou menos provável que a Espanha peça resgate em curto e em médio prazo. Porém, essa resposta é impossível no momento: os indicativos de percepção dos investidores quanto à estabilidade da Espanha e à sua recuperação econômica são bons, porém sua situação política e as estratégias do BCE com relação à taxa de juros apresentam sinais negativos.

É verdade que o bail-out português não gerou tanta turbulência para a zona do euro como os outros resgates dos PIIGS: Quando a Grécia assumiu a sua incapacidade para sanar seus desequilíbrios fiscais,  as bolsas de valores européias tiveram a pior semana desde o início da crise econômica internacional. Quando a crise irlandesa mostrou-se insustentável sem intervenção do fundo misto, as bolsas das economias do mediterrâneo, incluindo Espanha, Itália e Grécia registraram a pior queda desde o lançamento da união monetária. Na iminência do bail-out português, entretanto, a moeda européia atingiu seu maior valor desde 2010.

A relativa calma do mercado atualmente parece demonstrar portanto certa esperança de que a crise dos PIGs não contagie a Espanha. Por um lado, essa esperança tem relativo fundamento na situação econômica interna: o país tem conseguido reduzir seus déficits fiscais satisfatoriamente e a necessidade de financiamento por endividamento soberano utilizando a receita proveniente das privatizações. As taxas de juros dos títulos com maturidade de 10 anos se mantém relativamente estáveis em torno de 5,7%, mesmo após o bail-out português, outro indicativo de confiança do mercado em sua capacidade de recuperação.

Por outro lado, o desemprego permanece o maior da UE ainda que o governo venha fazendo reformas para flexibilizar o mercado de trabalho. Ainda que, o desequilíbrio no mercado de trabalho e as medidas de austeridade fiscal podem ter ultrapassado o limite o qual a população está disposta a arcar. Prova disso é o resultado das eleições municipais favorecendo largamente a oposição e as manifestações populares em curso no país. Outra mostra é que o primeiro-ministro Zapatero registra o pior índice de popularidade para alguém neste cargo deste o fim da ditadura de Franco. Com o anúncio de Zapatero de que não irá concorrer nas eleições de 2012 e com o predomínio do partido popular, contrário à aplicação drástica no controle do orçamento, pode ser que o mercado aumente sua desconfiança com a solvência espanhola.

Acerca do segundo fenômeno desconsiderado nas projeções econômicas para a Europa, o aumento global do preço das commodities é fruto do desequilíbrio entre demanda e oferta por grãos e matrizes energéticas, , em termos gerais. Especificamente, o fenômeno tem causas mais complexas, tais como as baixas taxas de juros nos países desenvolvidos; o direcionamento excessivo dos grãos para a produção dos biocombustíveis nos EUA, no Brasil e na UE; a significativa redução dos investimentos na agricultura em países em desenvolvimento.

Pode-se argumentar que choques externos como as revoluções no mundo árabe contribuem para acentuar tal aumento global, o que de fato se observa pelo registro de patamar histórico no índice de preços dos alimentos feito pelas Nações Unidas em Março de 2011, reduzindo-se desde então. Porém, uma análise das principais explicações sobre a crise das commodities mostra que este é um fenômeno estrutural, de modo que seria improvável estabelecer cenários onde a alta nos preço dos grãos e das matrizes energéticas é algo temporário.

Os alimentos e as matrizes energéticas representam maior porcentagem da cesta de consumo em países emergentes quando comparado com os países da zona do euro e com membros desenvolvidos da UE fora da união monetária. Na Ucrânia, por exemplo, os itens pertencentes a esses dois conjuntos de bens representam 60% da contabilização do IPC, enquanto que nos países do euro a porcentagem média é de 20%. Assim, aumentos constantes nos preços de commodities são mais preocupantes nos países emergentes, no que tange ao aumento geral dos preços, do que em outros países da Europa.

 Com o aumento da pressão inflacionária nesses países emergentes, compromete-se a expansão da demanda doméstica, principal causa do crescimento dos mesmos bem acima da média do crescimento europeu e conseqüentemente uma das causas do crescimento aparentemente robusto da Europa. Ainda, os bons resultados das economias emergentes têm sido fruto sobretudo de aumento das importações dos países europeus desenvolvidos em situação econômica mais estável, como a Alemanha. Porém, uma pressão inflacionária sobre Polônia, Ucrânia e outras economias desse conjunto comprometeria também a demanda externa, sendo um fator adicional de redução de crescimento dos principais países responsáveis pelo crescimento europeu.

É verdade que o aumento global das commodities até o momento não promoveu de forma significativa efeitos secundários tais como aumento de preços dos bens industrializados nos países emergentes europeus. Com relação a tal preocupação, o BCE aumentou a taxa de juros recentemente pela primeira vez desde o início da crise. O problema é que, visando principalmente à contenção de pressões inflacionárias mais graves na Europa emergente, o aumento na taxa de juros tem efeitos indesejáveis nas economias com desequilíbrios fiscais da zona do euro. Países como a Espanha precisam justamente de uma taxa de juros baixa, pois a elevação desta leva ao desincentivo à demanda domestica, além de poder gerar aumento do custo da dívida da mesma, aumentando as probabilidades de um bail-out.

Pelas constatações feitas na análise, pode-se dizer que os “pormenores” desconsiderados nas projeções de crescimento econômico robusto para a Europa feitas pelo FMI modificam radicalmente o cenário positivo traçado. É extremamente provável que ocorra default grego, ainda que não em curto prazo. O default grego amplia as chances de bail-out espanhol, porém até o momento não se pode afirmar nada com relação a ser mais ou menos provável que tal fenômeno aconteça, mesmo em longo prazo. São grandes as chances de as projeções de crescimento dos países europeus emergentes serem refeitas em função do aumento global dos commodities, reduzindo as projeções de crescimento da Europa. Ademais, visando sanar o problema da pressão inflacionária nessas economias emergentes, o BCE pode contribuir para aumentar as chances de a Espanha decretar bail-out. A consideração desses três fenômenos demonstram, no mínimo, que a situação econômica européia é frágil e qualquer previsão em curto e médio prazo para a mesma pautada numa observação ceteris paribus é um exercício fantasioso.

Caio Paes Leme Lorecchio é membro do Programa de Educação Tutorial em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – PET-REL e do Laboratório de Análise em Relações Internacionais – LARI (caio.lorecchio@gmail.com).

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1 Comentário em Projeções econômicas para a Europa: recuperação robusta ou incerteza?, por Caio Paes Leme Lorecchio

  1. Entrar em pormenor e tentar efectuar uma crítica com base nos valores apresentados, torna-se cansativo e em minha opinião tentar através de uma síntese parece o mais correcto. Efectivamente o crescimento económico indicado para a Europa é uma realidade para os países recentemente pertencentes ao espaço da UE. Esta razão é resultado do atraso estrutura e tecnológico que os países do Ocidente europeu já tinham ultrapassado. para se ter uma ideia precisa, a ex RDA tinha um nível de vida superior a qualquer Estado do Leste, mas muito inferior ao Federal alemão. No computo geral este crecimento é aparente e segundo as últimas estatísticas e tendências a inflação será uma realidade na Polónia e na Ucrânia. Este último não faz parte da União mas a economia está muito dependente do carvão e artigos agrícolas que exporta para a Rússia, a moeda forte que necessita como pagamento escasseia neste último e a presença de muitos cidadãos deste país em países da União como emigrantes contribuem muito para a remessa de divisas.
    A crise grega e indicadores preocupantes em Portugal, Irlanda e até economias mais bem posicionadas como Espanha e Itália começam a apresentar índices preocupantes. A Islãndia com uma economia que colocava o islandês com um rendimento per capita dos mais elevados foi o primeiro indicador de que outras economias poderiam vir a ter a mesma sorte. Qualquer investimento mal planeado, políticas governativas mal conduzidas , corrupção considerável, crise nas bolsas mesmo oriundas do extremo oriente ou até empréstimos consideráveis de nações não pagas a tempo e horas podem culminar na falência de certos estados mais vulneráveis.
    Com o actual estado da economia estadunidense e a compra de moeda forte por parte da China no sentido de manter o valor do yuan e outros aspectos relavantes conduzem a este estado de incerteza em que os mais fracos são os últimos a recuperar. O estado débil das transacções económicas exige a depreciação das respectivas moedas no intuíto da exportação.
    Falta de investimento, crescimento económico, aumento de desemprego, tendência para a chegada de todas as formas de correntes emigratórias originam mal estar em estratos consideráveis da população de países acolhedores. Estes aspectos são uma realidade e tudo indica virem a acentuar-se a curto prazo. Se as indeologias entraram em crise devido à nova conjuntura internacional, os ideólogos encontram dificuldades em encontrarem resposta. Esta crise do capitalismo faz tremer o sistema financeiro e é o corolário das alterações constantes das principais bolsas mundiais. São poucas onde o lucro do investidor se torna realidade. São países considerados em desenvolvimento ou então accionistas de empresas de sucesso imediato ou sectores fundamentais das respectivas sociedades. Muitas das vezes, torna-se um suícidio investir na bolsa. Exemplo disso a perda de milhões em poucas horas de entidades privadas ou públicas.
    O Homem têm a particularidade de se adaptar ao momento, mesmo que isso tenha preços elevados, não será correcto considerar esta crise normal, já dura algum tempo e teima em finalizar. O espaço é mais amplo globalizante que em muitos casos coloca em choque os interesses dos sectores públicos e privados. Que Papel ou peso deverá ter o estado na economia a curto prazo? mais ou menos estado? têm consequências tremendas nas respectivas economias e interfere decisivamente no aspecto social e outros de cariz mais humano. A situação de impasse no congresso americano pode muito bem servir de exemplo neste domínio.
    Para finalizar este texto escrito em cima do joelho só queria acrescentar o seguinte: A crise está a originar nas sociedades a formação de grupos em que ideias, valores e ideologias passadas são apresentadas como soluções para situações delicadas.

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