O governo Obama e a mudança nos parâmetros definidores da política externa norte-americana: uma análise contemporânea a partir das raízes sociológicas dos EUA, por Bruno Hendler

Diante da guerra civil na Líbia, Obama foi sagaz ou inseguro ao esperar vários dias de confronto para intervir em nome da OTAN? Para muitos, o titubeio e a demora em agir significam uma fraqueza inconcebível com o cargo de chefe da Casa Branca. Para outros, representa uma mudança de postura em relação ao seu antecessor, George W. Bush, priorizando o multilateralismo e a ação conjunta com aliados e autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU. Porém, há aqueles que reconhecem a diferença nos meios mas afirmam que pouca coisa mudou nos fins: Para Stephen Walt (2011), os Estados Unidos continuam “viciados em guerra” – ainda que sejam liderados pelo ganhador do Nobel da Paz.

O imbróglio na Líbia perdura por semanas e não parece ter um desfecho tão breve, logo  é prematuro saber se a demora na ação militar da OTAN deu chances de vitória a Kadafi. O que se pretende discutir não são os eventos na Líbia em si, mas a mudança, ou não, dos parâmetros que definem a política externa dos Estados Unidos frente à diplomacia, digamos, mais soft do atual governo. Parafraseando Paulo Roberto de Almeida em recente artigo no Mundorama, continuidades são mais frequentes do que rupturas em política externa, então, além da notória diferença de estilo entre Bush e Obama, é possível identificar alterações mais profundas na postura dos EUA em relação ao mundo? É possível dizer que o atual governo é mais “pacífico” do que o anterior? E sobretudo: há alguma contradição no fato da primeira república democrática do mundo ter participado de tantas guerras e incursões militares ao longo de sua história?

Não, não há contradição. A guerra é uma atividade legítima para os norte-americanos e está enraizada em sua história. A questão não é “se devemos lutar?”, mas “que tipo de guerra devemos lutar?”. E é esta questão que definiu (e continua a definir) os parâmetros da política externa dos EUA. Para Stephen P. Rosen (2009), duas culturas bem definidas de colonos deixaram sua marca na formação dos valores norte-americanos e, de certa forma, seus princípios podem ser identificados hoje: os escoceses e irlandeses (Scots-Irish) e os puritanos.

Os Scots-Irish, que fixaram-se em sua maioria nas colônias inglesas do sul, eram pessoas acostumadas com o clima de guerra das fronteiras nas Ilhas Britânicas, onde disputas por terra, gado e religião eram comuns entre clãs desde a Idade Média. Para eles, honra, dever e reputação eram palavras de ordem e as constantes guerras irregulares com os povos indigenas tornaram-se parte do cotidiano das comunidades. Neste ambiente, familiar para escoceses e irlandeses, os líderes deviam ser fortes e enérgicos, sempre prontos a revidar sem piedade os ataques de inimigos.

Nas colônias do norte fixaram-se os puritanos, que eram menos rústicos mas não menos violentos. A diferença é que, para este grupo, a violência devia ser socialmente autorizada pelo costume, pela lei ou pelos líderes protestantes, datando desta época uma série de execuções de bruxas, quakers e servos rebeldes. Assim, a guerra devia ser justa, em favor de uma causa, fosse por defesa contra os índios, fosse pela independência contra a metrópole inglesa.

A Guerra de Secessão consolidou os valores de democracia e individualismo dos idealistas puritanos do norte. Mas o pragmatismo realista, a honra e o senso de prontidão e dever dos Scots-Irish foram incorporados pelo país, que marchava rumo ao oeste. Assim, o Destino Manifesto (para os puritanos) e a “vontade de potência” (para os Scots-Irish) ganhavam seguidores entre os novos imigrantes e complementavam-se na expansão territorial no século XIX.

Com a consolidação do território na virada para o século XX, surge o debate entre isolacionistas e intervencionistas. Nasser (2010, p. 72) o coloca da seguinte maneira: se o modo de vida americano trazia claros benefícios para o povo (em contraste com as monarquias européias), por que não transferí-lo para o resto do mundo? Seguindo este raciocínio, a partir da guerra contra a Espanha (1898) os EUA adquirem uma postura externa mais intervencionista, usando muitas vezes da força para difundir seus valores democráticos e garantir sua segurança.

Neste sentido, Nasser (2010, p. 84) aponta duas correntes doutrinárias que passaram a influenciar o intervencionismo dos EUA: a empírica (realista), segundo a qual os EUA têm interesses como qualquer outra nação e devem agir de forma racional para atendê-los – aproximando-se da cultura Scots-Irish; e a dogmática (idealista), em que os EUA devem se valer da experiência democrática pioneira para levar seus valores para o resto do mundo e torná-lo mais seguro – aproximando-se da cultura puritana e da crença na excepcionalidade do país. Assim, numa mescla de crença em superioridade racial e segurança nacional incorporada por Teddy Roosevelt, os EUA entram no século XX como uma espécie de império sobre a América Latina, com a diferença que suas ações eram legitimadas por juristas – que conciliavam o realismo da projeção de poder com o idealismo dos valores prezados pelos norte-americanos.

Assim, princípios como da “soberania condicional” (NASSER, 2010, p. 25) (em que os EUA chamavam para si a responsabilidade e o direito de avaliar se as nações estariam cumprindo seus deveres enquanto entidades soberanas) deram corpo a normas como a Emenda Platt, de 1901, que autorizava a intervenção militar (no caso em Cuba) caso fosse provada a incapacidade dos cubanos de autogovernar-se ou se a segurança dos EUA fosse ameaçada. Vê-se aí tanto a preocupação idealista com a “falta de democracia” em Cuba quanto a visão realista de segurança nacional.

Não faltam exemplos de guerras travadas pelos EUA em que idealismo e realismo se combinaram para legitimá-las, especialmente durante a Guerra Fria. A história do país prova que democracia e guerra não são incompatíveis – pelo contrário, a guerra tornou-se necessária para a construção da identidade norte-americana (NASSER, 2010, p. 97). Bob Dylan retrara com genialidade irônica este processo na música “With God on our side” em que todas as estrofes falam de guerras travadas pelos EUA e acabam com a frase “com Deus ao nosso lado”.

Obama pode ser visto como um presidente fraco pela demora em agir na Líbia ou como um sujeito de coragem que tentou evitar o histórico de “exportação forçada de democracia” dos Estados Unidos. O mundo árabe precisa sim de reformas, mas as poucas palavras da Casa Branca sobre o assunto são um sinal de que o impulso civilizador norte-americano está em baixa. É cedo para falar em mudança de parâmetros, pois ainda que tarde, ações militares estão ocorrendo sob ordens do presidente Obama e as eleições de meio de mandato indicam que o discurso do “with God on our side” pode voltar a todo vapor nas eleições de 2012.

Sagaz ou inseguro, Obama destoa do padrão norte-americano pela cautela em declarar guerra e por afastar-se do discurso “with God on our side”. Até que ponto o presidente pode afastar-se de valores enraizados na sociedade e não sofrer revezes políticos? Até que ponto os norte-americanos estão preparados para rever os valores “Scots-Irish” e “puritanos” e apoiar o presidente neste projeto? A resposta será dada nas eleições de 2012.

Referências:

NASSER, Reginaldo Mattar. Os arquitetos da política externa norte-americana. São Paulo: EDUC, 2010.

ROSEN, Stephen Peter. Blood Brothers: the dual origin of American Bellicosity. The American Interest: Julho/agosto, 2009.

WALT, Stephen M. Is America addicted to war? Foreign Policy, 13/04/2011.

Bob Dylan. With God on our side. Disponível no link: http://www.bobdylan.com/songs/with-god-on-our-side

Bruno Hendler é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) (bruno_hendler@hotmail.com)

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11 Comentários em O governo Obama e a mudança nos parâmetros definidores da política externa norte-americana: uma análise contemporânea a partir das raízes sociológicas dos EUA, por Bruno Hendler

  1. Prezado Bruno.
    Parabéns pelo seu brilhante texto.
    Infelizmente não se vê em nossa mídia opiniões esclarecedoras e com conhecimento de causa como a sua.
    Tomei a liberdade de repassar seu texto à alguns órgãos da imprensa para que aprendam como escrever algo com opinião e esclarecedor.

    Um abraço,

    Charles – Toronto, Canadá

  2. Muito interessante sua análise, Bruno.
    Realmente os Estados Unidos estão passando por um momento confuso e o presidente Obama não parece ter pulso suficiente para colocar o país onde deveria estar.
    Sua morosidade custará caro neste momento de transformações mundiais.

  3. Caro Bruno, já nos conhecemos de outraa trocas de opiniões. É vero que as explicações históricas, sociológicas, antropológicas, simplificando, mostra-nos um perfil de truculência constante, em toda a saga desse povo, mesmo agora, já um tanto miscigenado. Se são eles descendentes diretos de ingleses, centenários eméritos de intervencionismos, mundo a fora, detém o germe do expansionismo.

    A situação na Líbia, quando mudado o comando das ações da ONU para a OTAN, poderá também ser entendida pelo mesmo fato do câmbio de direção, embora se possa dier que ambas as instituições sofrem grande influência dos EUA.

    Há quem pressinta um declínio político tênue mas persistente, causado pela economia açoitada por ventos desfavoráveis e até choque de intereses entre políticos americanos natos e judeus-americanos. O número desses últimos é maior que os judeus do Estado de Israel.É uma força de alavanca ameaçadora, capaz de definir uma presidência como a do Truman, ou rumos de ações. A lìbia está sob fogo, mas Iemen, Catar, Síria, Jordânia, Marrocos, Argélia estão em ebulição. Os Bric estão confrontando a liderança imperial alfa. O presidente americano, ou o Obama, estão na corda bamba, sim senhor.

    Bruno, foi um prazer trocar idéias com você.

  4. Bruno, excelente o seu texto. Muito interessante o paralelo que você fez com os desdobramentos da política externa através da cultura. Possuo grande interesse no estudo da área militar das relações internacionais e a sua intervenção me instigou a procurar saber mais.

    Um abraço da Bahia

  5. Agora que faco este comentario, acabei de fazer uma grande descoberta. Refiro-me a este site. Sou curioso de Relacoes Internacionais. Espero aprender muito neste espaco.

    Interessante a leitura sobre a Politica Externa Americana. Estas duas correntes de pensamento, quando lidos de forma estatica, parecem contraditorias. Mas na verdade os norte americanos usam o hard para impor o soft. entretantanto.
    A guerra serve como instrumento para impor seus valores (the american way of life) e interesses.

    Abraco forte de Fernando Cossa, Mocambique

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