Resenha do livro “A sociologia das Relações Internacionais”, de Guillaume Devin, por Leonardo Carvalho Bandarra

Editado em língua portuguesa, pela primeira vez, no ano de 2009 o livro “Sociologia das Relações Internacionais” (tradução do original de 2002 “Sociologie des relations internationales”), escrito pelo professor Guillaume Devin, do Institut d’Etudes Politiques de Paris, chega ao Brasil em um período de intensa expansão da atividade acadêmica no campo de estudo das relações internacionais e de maior interesse por parte da opinião pública na agenda internacional. Quando, em todas as regiões do país, se observa uma extraordinária ampliação do número de cursos existentes nessa área, tanto em relação a programas de graduação, quanto de pós-graduação. Em um período tão distinto tornam-se cada vez mais necessários, e requisitados, manuais que, além de introduzir teorias desse campo de estudos, sejam capazes de problematizar a maneira como se produz esse conhecimento, a metodologia, e como se analisa a conjuntura internacional contemporânea – é exatamente isso o que propõe Devin em sua pequena obra.

Buscando uma abordagem sociológica do Estudo das Relações Internacionais, o autor busca enfatizar a importância da “pesquisa sobre os fatores determinantes e as regularidades que influenciam a conduta dos atores no cenário internacional” (Devin, página 11). A partir dessa visão, Devin procura, ainda, enfatizar a importância instrumental do estudo do direito internacional público para que um pleno entendimento do ambiente internacional seja obtido.

Apoiando seus argumentos em renomados teóricos da tradição dos estudos das relações internacionais, Devin procura analisar como esse campo de estudos vem sendo conduzido fazendo, inclusive, críticas a grandes ícones da escola realista, como Hans Morgenthau e Raymund Aron, no que toca à teoria segundo a qual as relações entre os países se organizam sob a forma de um sistema. Outra fonte de pesquisa recorrente na obra é o periódico francês “Le Monde”, amplamente usado, principalmente, nas exemplificações do conteúdo apresentado, o que o torna mais próxima da realidade vivida pelo leitor.

O livro se divide em duas partes. A primeira parte (denominada “variáveis e desafios”) inicia-se com um breve histórico da escola realista, explicitando as semelhanças entre os autores e a ênfase dada ao estudo das relações inter-estatais. O Realismo é, à priori, apresentado como reducionista e generalista, no que toca ao foco dado à distribuição de poder entre os Estados como principal ponto a ser considerado em uma análise. Essa questão metodológica, que torna as estruturas estatais internas praticamente irrelevantes, será característica dessa escola e tornará as suas análises menos precisas. Devin também destaca a inabalável crença na democracia como precursora e necessária à paz, noção evidente em Henry Kissinger e base para o pensamento americano.

A forma de análise dos atores no cenário internacional, entretanto, tornar-se-á mais complexa a partir de três fatores, que a modificarão por completo. Primeiramente a Guerra do Vietnã, que revelou a fragilidade do Estado, ou seja, por mais poderoso que esse seja, ainda é suscetível a derrotas. O segundo fator seria os estudos acadêmicos, que estendem a visão de ator para além do Estado, e em terceiro lugar o surgimento na pauta de novos fenômenos que desmistificam a noção de Estado como “unidades políticas” hermeticamente fechadas. O conjunto desses fatores originará uma dilatação do leque de temas disponíveis à analise desse campo de estudo, impossibilitando a redução dele apenas à questão da guerra ou da paz entre os Estados. Além disso, observa-se o aumento na quantidade de atores com capacidade de influir diretamente nas relações entre países. Para ilustrar esse novo fato, Devin se usa do caso da moratória do México, de 1982, e do caso das crises internacionais, nos quais não apenas Estados, mas diversos outros atores fazem-se presentes, tal como ONGs, Organizações Internacionais, bancos, empresas multinacionais (que inclusive ocuparão, com exclusividade, um capítulo no livro) entre outras.

Outra questão problemática é a denominada potência, termo que Devin relativiza e coloca como múltiplo, apresentando uma série de definições, desde a de Susan Strange até a dos clássicos geopolíticos (ingressando, desapercebidamente, em uma grande polêmica no que se refere à participação do autor alemão Karl Haushofer no regime nazista). Devin confronta vividamente a noção segundo a qual, de forma sintética, o principal objetivo de todos os atores, não importando qual seja, é a sobrevivência, e é ela que permeia todas as suas ações e representa o seu maior desafio. Para ele essa teoria é demasiadamente simplista.

Na segunda parte do livro (denominada “instrumentos e técnicas”) o autor explora a diplomacia e a coloca como de suma relevância para a manutenção da boa coexistência entre os Estados, ressaltando sempre o papel do direito como mecanismo de pressão. Explorando a convenção de Viena de 1961, ele delineia as funções das missões diplomáticas, ou seja, representação, observação e negociação. Ainda nesse contexto, Devin faz um interessante exame das regras de protocolo e de sua importância para a prática diplomática e das prerrogativas e limites do diplomata residente em terras estrangeiras, como a imunidade e a regra de não interferência (limitação dos contatos do diplomata segundo os objetivos oficiais da missão).

Explorando de forma particular o caso francês, Devin oferece um panorama da diplomacia realizada a partir das estruturas governamentais (destacando as diferenças de como são conduzidas a política externa pela França e pelos EUA) e ainda das estruturas não-governamentais. Nessa seção do livro a questão da segurança nacional e internacional encontra lugar de destaque. Outro ator de extrema importância, que não poderia ser esquecido em uma analise mais detalhada dos agentes que influenciam no cenário em questão e cuja importância se faz presente tanto na esfera estatal como na não-estatal, é a opinião pública.

Na questão da diplomacia, ainda, o autor dispensa uma atenção especial ao estudo da propaganda (como instrumento de soft power) e das práticas subversivas, como os serviços especiais (apresentando suas principais funções, ou seja, proteção de segredos contra o inimigo, desinformá-lo e conduzir ações subversivas). A chamada “arma econômica”, que se dá via aplicação de sanções, por exemplo, é, também, intensamente explorada.

A obra de Devin representa, de forma sintética e clara, uma nova forma de visualizar, e mesmo de pesquisar, esse campo recente das ciências sociais. Em seu livro o autor expõe, objetivamente, seu ponto de vista, atingido empiricamente mediante intensa leitura e pesquisa, acerca de temas e teorias recorrentes ao analista das relações internacionais. Não há a proposta de dissertar intensa e paulatinamente sobre as teorias e teóricos da disciplina, nem sobre situações ou eventos específicos, mas de usá-los como base para uma nova forma de se estudar e observar as diversas relações no ambiente internacional. Busca-se definir um olhar sociológico.

DEVIN, Guillaume. Sociologia das Relações Internacionais. Salvador: EDUFBA, EDUFAL, 178 pp. ISBN 978-85-232-0538-3

Leonardo Carvalho Bandarra é graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (lclab90@gmail.com)

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