Entre a desconfiança e a cooperação: ações e reações na relação sino-americana e suas repercussões no equilíbrio de poder asiático, por Bruno Hendler

Dois jantares, almoço reservado com Barack Obama, reunião com congressistas e temas polêmicos em pauta. Assim foi a visita de Hu Jintao aos EUA na semana passada. A atenção dada ao líder chinês reflete a importância de seu país no cenário internacional e a conseqüente tensão nas relações do grupo que ficou conhecido como “G2”, as duas maiores economias do mundo: EUA e China. Afinal, seria o conflito entre as duas nações inevitável? Estamos diante de uma nova Guerra Fria? Ou o sistema internacional caminha para a multipolaridade pacífica e complementar entre os três centros político-econômicos do mundo: EUA, União Européia e Ásia Oriental?

A ascensão de grandes potências em épocas de crise de uma hegemonia tende a lançar o sistema internacional num longo processo de reorganização de suas bases de poder e riqueza, em que há um reposicionamento de forças entre os emergentes e o poder dominante. O reposicionamento de forças causado pela crise da hegemonia britânica e a ascensão da Alemanha levou o mundo a duas guerras mundiais numa época em que a tecnologia de guerra mais avançada era passível de ser utilizada. Em outras palavras, a máxima de Clausewitz “a guerra é a continuação da política por outros meios” encontrou seu óbito em datas específicas: 7 e 9 de agosto de 1945 – dias dos ataques nucleares dos EUA às cidades de Hiroshima e Nagazaki. A partir de então, o cálculo racional dos benefícios e prejuízos de uma guerra entre grandes potências mudou, sendo a Guerra Fria o exemplo clássico desta alteração.

Henry Kissinger (2005) critica aqueles que vêem a China do século XXI como a Alemanha da primeira metade do século XX, agressiva e descontente com a configuração de poder e riqueza do sistema. Para ele, num mundo globalizado com armas nucleares, o uso da guerra para fins políticos entre as grandes potências seria uma catástrofe para todos, de forma que o conflito militar direto entre EUA e China parece improvável. A lógica da contenção militar empregada pelos EUA contra a União Soviética tampouco seria a mais adequada contra a China dada a integração econômica entre ambos os países e à natureza não imperialista da nação asiática. Portanto, a agenda do chamado “G2” traz desafios inéditos tanto para os policymakers quanto para os estudiosos desta área.

Por um lado é possível identificar interesses em comum entre EUA e China. Em matéria especial sobre a ascensão do país asiático, a revista The Economist (edição de 4 de dezembro de 2010) traz pontos de convergência que podem criar um bom relacionamento entre eles: o desejo de uma economia mundial saudável, estabilidade na Ásia, paz no Oriente Médio, abertura e segurança de rotas marítimas, controle da proliferação de armas nucleares e um sistema de comércio aberto.

Em contrapartida, a matéria enfatiza as questões que podem deteriorar as relações bilaterais e o equilíbrio de poder na Ásia. Consta, no título de um dos artigos, a intrigante questão: “sua riqueza depende da China, sua segurança dos EUA. Para qual lado devem pender os países asiáticos?” A China tornou-se o principal parceiro comercial dos países do continente e apesar da adesão a organizações intergovernamentais, sua projeção de poder incomoda muitos de seus vizinhos, como Índia, Japão e Taiwan, que continuam aliados dos norte-americanos. Portanto, respondendo a questão acima “os países asiáticos buscam os dois caminhos: resistir ao poder da China mas continuar a negociar com ela; e beneficiar-se da segurança garantida pelos EUA sem sacrificar o comércio chinês”.

Não obstante, gatilhos para aprofundar o antagonismo do “G2” não faltam. Os dois principais são Taiwan e Coréia do Norte. Esta continua a ser um aliado histórico dependente da China, a qual faz vistas grossas à megalomania do ditador Kim Jong-Il. A tensão na península coreana tem altos e baixos desde o fim da guerra entre Norte e Sul, em 1953, mas o programa nuclear norte-coreano é um ingrediente atípico e não convencional que pode alterar o equilíbrio de poder da região e incentivar o Japão a desenvolver seu próprio arsenal atômico.

A questão de Taiwan é, também, muito delicada. Kissinger aponta três princípios que tendem a culminar numa resolução pacífica para o impasse que já dura seis décadas: a) Os EUA, assim como a maior parte da comunidade internacional, reconhecem que Taiwan faz parte da China; b) a China garante que a solução do impasse será pacífica e sabe que os EUA estão dispostos a exigir este princípio; e c) todas as partes devem evitar o aumento da tensão no Estreito de Taiwan. Porém, os princípios não evitam que os EUA continuem a vender armas a Taiwan e a China mantenha a ilha sob a mira de mísseis. Recentes aproximações diplomáticas e o estreitamento de laços comerciais entre Pequim e Taipei, no entanto, dão sinais de que o futuro neste canto do mundo não parece tão obscuro.

Outras demandas territoriais – continentais e oceânicas – por parte da China têm acirrado os ânimos com seus vizinhos. Boa parte de suas fronteiras com a Índia permanecem em disputa ao longo da cordilheira do Himalaia, o que apenas corporifica uma rivalidade secular entre as duas nações. Com o Japão, a disputa é pelas ilhas Senkaku/Diaoyu, administradas por este país e reivindicadas pela China (assunto debatido por Vitor Eiró Storino em artigo no Mundorama). Há ainda outras demandas chinesas em seu entorno oceânico com Vietnã, Filipinas e Coréia do Sul, devido à abundância de recursos minerais e naturais em pequenos arquipélagos.

Porém, o que mais chama a atenção é a modernização do hard power chinês, que se dá em três esferas: construção de mísseis balísticos de longo alcance capazes de carregar armamentos convencionais ou nucleares; construção de submarinos nucleares, com a perspectiva de equiparar, em cerca de duas décadas, o número de submarinos norte-americanos; e desenvolvimento do setor de informatização, que engloba redes de comunicação, radares, armas antissatélites e guerra cibernética.

Donald Rumsfeld questionou a expansão do poderio chinês, numa palestra em 2005, com as seguintes palavras: “Já que nenhum país ameaça a China, por que esse investimento crescente? Por que essas compras de armas, sempre grandes e cada vez maiores?” ao que Michael Klare comentou

Considerando que os aviões e navios de guerra norte-americanos patrulham constantemente o litoral chinês; que os mísseis nucleares norte-americanos estão apontados para a China; que bases norte-americanas cercam a China por todos os lados; e que nos últimos dez anos os Estados Unidos entregaram armas cada vez mais potentes a Taiwan, esses comentários devem ter sido espantosos para Pequim (ARRIGHI, 2008, p. 290).

As alianças bilaterais que os EUA mantêm com seus aliados na Ásia (que são também rivais históricos da China), a inexistência de um fórum de segurança regional no continente e a projeção de poder chinês podem se tornar os catalisadores do antagonismo sino-americano. Porém, a China não tem as ambições da Alemanha da primeira metade do século XX e os EUA sabem que para lidar com ela não basta aplicar a contenção usada contra a União Soviética – pois os laços econômicos entre os dois países são muito fortes.

Portanto, nem confrontação direta, nem Guerra Fria e tampouco um mundo multipolar cooperativo e complementar. O que será do sistema internacional nas próximas décadas? Eis o desafio, recheado de variáveis inéditas na história, lançado aos especialistas.

Referências

  • ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim. São Paulo: Boitempo, 2008.
  • Kissinger, Henry. China: containment won´t work. The Washington Post, 13/06/2005.

Bruno Hendler é Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (bruno_hendler@hotmail.com).

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4 Comentários em Entre a desconfiança e a cooperação: ações e reações na relação sino-americana e suas repercussões no equilíbrio de poder asiático, por Bruno Hendler

  1. Bruno, ótimo artigo!

    Chamo atenção para apenas um detalhe: Sim, existem fóruns regionais de cooperação em matéria de segurança na região, alguns mais institucionalizados, outros menos. O principal deles é a Organização para Cooperação de Xangai, criada em 2001.

    Siga com o excelente trabalho que vem desenvolvendo.

    Abraços,
    George

  2. Caro B.Hendler, parabéns pela excelente explanação desse tema, com influição maravilhosa e entendimento, também.
    Considero o encaramento destas duas potências, como segue: Polìticamente os EUA têm maior visibilidade, mas com o descenso econômico patente, rápido e insidioso, com os trilhões de dólares depreciados por sem lastro, atuando como uma porteira frágil que não pode ancorar bem, os dois outros pilares, o poder político começa a perder brilho e funcionalidade, e o poder militar poderosíssimo em quantidade, começa a se depreciar em qualidade, por deficiência de poser de manutenção. Está se transformando quase que em um poder de ficção, e não muito devagar. Considero como uma boca com um dente mole comprometendo os outros.
    Quanto a China, considere-se a cultura oriental, de paciência patrimonial, que não sendo impulsiva, só se envolve em contendas com amplas possibilidades de êxito. Está se desenvolvendo política e militarmente, num passo de cadência, mas pronto a se acelerar de acordo com a coveniência. Seu aparato econômico é comentado e compartilhado pelo mundo inteiro, e ao contrário do seu competidor, é sólido e confiável. Essa Potência tem seus freio e acelerador, perfeitmente harmonizados e monitorados. Certamente haverá um compartilhamento de lideranças por algum tempo, mas logo suplantado e entregando a dominância aos Chins. É uma alternãncia de poder, tão ventilada ùltimamente, mas como toda mudança, enfrentada com certo temor.
    Nessas incertezas, bom seria trocar a guerra pelo comércio, em todos os sentidos, de matérias primas, produzidas, artes, ciências, cultura, turismo, na maior e melhor boa vontade, numa Paz de Nirvana.
    Obrigado, Hendler, pela atenção, se quiser interagir comigo, isso me enriquece.

  3. Numa “paz de nirvana”?

    Caro Lindoso, ou você desconhece o significado essencial da palavra nirvana ou você desconhece a realidade política interna da China, principalmente nas chamadas “regiões autônomas” do Tibete e Sichuan, para citar apenas duas.

    A propósito, parece-me extremamente exagerado esse seu diagnóstico da decadência militar estadunidense. Os EUA respondem por aproximadamente 40% dos gastos militares do mundo já faz uns vinte anos. (Por favor, confira os dados do SIPRI.) Além disso, a doutrina militar do país estipula que estejam sempre duas gerações à frente de qualquer país na corrida tecnológica. E, Lindoso, eles estão.

    Saudações acadêmicas,
    George

  4. George, obrigado pelos comentários e incentivos. Com certeza a Organização para Cooperação de Xangai é muito relevante no contexto asiático mas seu foco na Ásia Central e no eixo Rússia-China faz com que, a meu ver, ainda falte muito para um efetivo foro de segurança que englobe Japão, Índia, as Coréias.
    Edelvio, também agradeço pelo incentivo e frequentes comentários. Esta discussão se aproxima do que debatemos em outro artigo meu aqui no Mundorama. Acredito que em muitos pontos a hegemonia dos EUA esteja sim em crise e este artigo traz um pouco dos desafios enfrentados pelos norte-americanos no Leste Asiático. Mas como o George coloca, seu diagnóstico parece um pouco exagerado. Para mim, estes desafios não significam o “ocaso do império” mas uma lenta remodelação do sistema em que a hegemonia perde sim pontos estratégicos importantes para os emergentes, mas há tantas variáveis inéditas em jogo que afirmar que testemunhamos uma transição hegemônica, parece um pouco precipitado. Como lhe escrevi da outra vez, não acredito que a China tenha a capacidade de suplantar os EUA em todas as esferas de sua hegemonia, mas concordo que um novo balanço de poder começa a ser construído, senão no mundo, pelo menos na Ásia – por enquanto.

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