Silences and hierarchies in European Union public diplomacy – uma entrevista com Paula Sandrin e Andrea Hoffmann, por Angélica Szucko

A União Europeia geralmente é caracterizada, tanto em seus documentos oficiais quanto em análises acadêmicas, como uma “zona de paz, prosperidade e democracia”, que, sob o lema “Unidos na diversidade”, se apresenta como o “modelo” de integração regional mais avançado. Em face do cenário de crises no continente europeu nos últimos anos, a construção dessas narrativas é fundamental para forjar um sentimento de identificação com a Europa Comunitária capaz de dar sustentação à manutenção do bloco. Enquanto no plano interno proporciona a criação de uma identidade europeia e confere legitimidade às políticas supranacionais; no plano externo, projeta uma imagem idealizada dos valores europeus como exemplo de virtude.

A construção dessas articulações discursivas da União Europeia, por meio da diplomacia pública, é analisada no artigo Silences and hierarchies in European Union public diplomacy, publicado no número 1/2018 (Volume 61, No. 1)  da Revista Brasileira de Política Internacional. As professoras Paula Orrico Sandrin e Andrea Ribeiro Hoffmann, autoras do artigo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), concederam entrevista a Angélica Saraiva Szucko, doutoranda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília.

No artigo, o pós-estruturalismo é utilizado como ferramenta teórica e metodológica para compreender as construções discursivas da União Europeia. Para essa corrente, as narrativas não nos auxiliam apenas na compreensão da realidade, mas também são capazes de moldá-la. Nesse sentido, em que medida essa abordagem contribui para a análise da diplomacia pública da União Europeia?

 A maioria das análises acadêmicas acerca da diplomacia pública da União Europeia a trata como algo que reflete, ou deveria refletir, o que a União Europeia é – seus valores e normas fundamentais – e que deveria ser ajustada para que possa cumprir adequadamente seus objetivos, ou seja, aumentar a legitimidade e a influência do bloco. No entanto, o pós-estruturalismo nos ensina que discursos também são produtivos: produzem sujeitos, objetos e relações entre eles. Assim, enxergamos a diplomacia pública da UE como uma das muitas práticas discursivas que contribuem para produzir a identidade do bloco e que autorizam determinadas formas de agir, tendo, portanto, efeitos políticos para além de aumentar a legitimidade e influência. Em particular, mostramos como discursos dominantes sobre a UE permitem que o bloco engaje com o resto do mundo a partir de uma posição de superioridade, restringindo as possibilidades de interação a monólogos nos quais a União Europeia tem o protagonismo e os demais países devem aquiescer. Apesar dessa hierarquia ser oficialmente reconhecida pela UE e acadêmicos que estudam a política externa do bloco, nossa análise de documentos mais recentes nos leva a concluir que, de fato, as mudanças não foram substanciais. No que tange a efeitos domésticos, notamos que essas narrativas autocongratulatórias silenciam uma série de violências – entendidas em um sentido mais amplo – que geram ressentimento em relação à UE e o crescimento do apoio a partidos eurocéticos.

Nos últimos anos, observa-se a ascensão de movimentos eurocéticos nos Estados-Membros da União Europeia, representados, por exemplo, pela Front National na França, pela Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha, pela Lega Nord na Itália, apenas para citar casos em países fundadores do bloco europeu. Em maio de 2019, serão realizadas novas eleições para o Parlamento Europeu, e a tendência é que o quadro de parlamentares vinculados ao euroceticismo se amplie. Qual o papel da diplomacia pública europeia nesse contexto?

A diplomacia pública poderia ter um papel fundamental de mobilizar afetos da população europeia a seu favor, reduzindo o apelo de partidos eurocéticos. No entanto, da forma como é feita, o efeito é o oposto: gera mais ressentimento, como falamos acima. Isso porque, em discursos dominantes de diplomacia europeia, o descontentamento sentido por uma parcela significativa da população não é atribuído ao resultado de políticas europeias de austeridade, por exemplo, mas à própria população que, de forma ignorante, não daria valor às inúmeras conquistas do bloco, como a eliminação de guerras e totalitarismos do continente europeu. Grande parte do material produzido pela UE enfatiza os efeitos positivos da integração e julga que, se esses efeitos forem comunicados com mais eficiência, a rejeição ao bloco diminuiria. No entanto, como mostramos no artigo, guerras e totalitarismos não constituem as únicas fontes de insegurança. Outras fontes de insegurança, como crises econômicas, desemprego e desmantelamento do bem-estar social, que têm a ver com o modelo neoliberal cada vez mais hegemônico dentro do bloco, são ignoradas, contribuindo para um maior distanciamento entre o povo e a UE.

Considerando o processo da saída do Reino Unido, também conhecido como Brexit, a União Europeia tem procurado reformular o seu projeto de integração regional, conforme demonstram o “Livro Branco sobre o Futuro da Europa: Reflexões e cenários para a UE-27 em 2025”, lançado em 2017 à ocasião da comemoração do 60° aniversário dos Tratados de Roma, e os mais recentes discursos sobre o “Estado da União” realizados pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, entre 2016 e 2018. É possível observar quais articulações discursivas marcam esse momento de reconstrução do projeto europeu?

Esse Livro Branco, concebido no contexto não apenas do BREXIT, mas da crise da zona do euro e da crise migratória e de refugiados, é um excelente exemplo de “mais do mesmo”. Ele formula cinco cenários possíveis para o futuro da integração europeia: 1) continuar tudo como está; 2) restringir a integração apenas ao mercado comum; 3) aprofundar a integração entre apenas alguns países interessados; 4) aprofundar a integração em apenas algumas áreas; ou 5) o aprofundamento da integração por parte de todos os países em várias áreas. No entanto, fica claro que, apesar de apresentar 5 cenários, alguns são claramente favorecidos (3, 4 e, em particular, o quinto cenário), e colocados em termos absolutos: ou mais integração, seja em várias áreas, ou em algumas áreas prioritárias, por todos os países ou grupos compostos por alguns países, ou a Europa vai sucumbir aos nacionalismos beligerantes e suas carcaças serão devoradas por estrangeiros (migrantes, refugiados ou grandes potências). O “debate” sobre o futuro da integração europeia sendo colocado nesses termos nos leva a crer que as convicções dominantes não foram abaladas, infelizmente, pelas três crises. Períodos de crise podem ser momentos de produtividade, no sentido de nos direcionar para caminhos mais criativos. No entanto, momentos de crise também podem entrincheirar e recrudescer convicções dominantes. Dado que acreditamos que, até agora, o segundo caminho foi escolhido, tememos que o futuro da Europa será um no qual haverá a consolidação do fosso entre parcelas privilegiadas de europeus e parcelas desprivilegiadas de Europeus e de estrangeiros. Uma fortaleza Europa para poucos, portanto.

O artigo evidencia que a construção discursiva sobre a União Europeia e seus valores na diplomacia pública, além de silenciar outras narrativas, também cria um mecanismo de hierarquia, a partir de uma oposição binária assimétrica, na qual o bloco europeu ocupa uma posição de superioridade moral. Como os demais países podem lidar com essa questão nas iniciativas de cooperação com a União Europeia?

Essa é uma pergunta importantíssima: como se fazer ouvir em um contexto de hierarquias materiais e simbólicas; como resistir a essa inferiorização quando, muitas vezes, habitantes de países não europeus internalizam tais narrativas sobre a superioridade da União Europeia? Essa questão das percepções e práticas de países que interagem com a UE foi algo que não pudemos desenvolver no artigo em questão, mas que é de suma importância, dado que os parceiros da UE não são tábulas rasas que apenas recebem de forma uniforme e inconteste as receitas formuladas pela UE. As resistências podem se dar de várias formas: desde embates mais diretos que levam à rejeição do que é proposto pela UE, passando por uma adaptação e negociação dos termos propostos, até à adoção integral. Essa é uma questão mais empírica do que propriamente teórica, e que pode ser estudada por meio da observação participante da interação da UE com outros países em diferentes esferas, por meio de análises quantitativas e qualitativas das percepções sobre a UE nesses países, enfim, diversas metodologias podem ser empregadas para colocar em evidência as estratégias adotadas pelos países que interagem com a UE.

Leia o artigo

Sandrin, Paula Orrico, & Hoffmann, Andrea Ribeiro. (2018). Silences and hierarchies in European Union Public Diplomacy. Revista Brasileira de Política Internacional, 61(1), e011. Epub November 12, 2018.https://dx.doi.org/10.1590/0034-7329201800111

Sobre os autores

Paula Orrico Sandrin e Andrea Ribeiro Hoffmann – Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-RIO)

Angélica Saraiva Szucko – doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília

Como citar

Mundorama. "Silences and hierarchies in European Union public diplomacy – uma entrevista com Paula Sandrin e Andrea Hoffmann, por Angélica Szucko". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/02/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=25138>.

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