Rússia: ascensão médio-oriental, por Virgílio Arraes

O engajamento de militares russos, mesmo em pequeno número, no conflito civil sírio há três anos alterou o andamento daquela encarniçada disputa, de sorte que assegura a manutenção do governo autoritário de Bashar al Assad e dificulta um dos últimos eventos influenciados pela Primavera Árabe. Vários países envolveram-se na guerra, apesar do grau variado de participação, como Estados Unidos, Turquia, Irã e Israel.

Cada um dos participantes tem sua preocupação específica com o desenrolar da sangrenta contenda. No fundo, reminiscências do período bipolar como as da tensão entre Washington e Moscou misturam-se com fundadas preocupações energéticas como a passagem de gasodutos e com pulsações nacionalistas como a aguardada independência dos curdos, comunidade espalhada entre vários países da região, porém baldada até o momento.

Além disso, há a inquietação com a ascensão do fundamentalismo islâmico, de matiz sunita, desejoso de novo delineio das fronteiras médio-orientais, assinaladas de maneira geral na primeira metade do século vinte entre a republicana Paris e a monárquica Londres – a primeira mostrou-se satisfeita com a supervisão das redes financeiras locais, como no Líbano, ao passo que a segunda, com as fartas extrações petrolíferas, fundamentais para sua armada, extraídas da Arábia Saudita e do Iraque.

Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se integraram àquela região também, porém na qualidade de primeiro comando político e, por derivação, militar, malgrado o discurso retumbante de anticolonialismo diante da má vontade da Grã-Bretanha e da França.

Na década de cinquenta, a atuação norte-americana no Irã, ao lado da britânica, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossaddegh através da operação Ajax, e no Líbano, com a intervenção coordenada com o presidente Camille Chamoun, assinalaram a transição de poder entre os dirigentes norte-atlânticos.

Na defesa dos interesses particulares dos países envolvidos, a despeito da vontade comum de barrar o crescente integrismo sunita, ocorrem choques entre os aparceirados, derivados por vezes de ações do cotidiano belicista. Em setembro último, uma aeronave russa foi abatida por míssil disparado pelo exército sírio, ao ter por alvo original caças israelenses a sobrevoar lá sem autorização.

Os aviões circulavam pela área por causa da movimentação desembaraçada iraniana. A preocupação decorre do possível reforço do poderio do Hesbolá libanês – agremiação considerada por Telavive como organização terrorista – pelas tropas de Teerã, ao providenciar armamentos, treinamento e víveres.

A tripulação toda – dezena e meia de efetivos – pereceu com o ataque inesperado. Foi o maior número de mortos de uma vez só, desde que o Kremlin ingressou de fato na confrontação. Apesar da catástrofe, o mandatário Vladimir Putin procurou minimizar o efeito político do acidente, ao estipular que o incidente aéreo teria sido de origem fortuita.

A par do abatimento imprevisto, Moscou e Ancara desejavam estabelecer uma zona tampão, com vistas a separar os insurgentes extremistas e as forças armadas sírias de atritos desnecessários e custosos para ambos e possibilitar, ao mesmo tempo, a atuação mínima de equipes humanitárias, de forma que se minimizassem os constantes prejuízos a milhões de civis.

Com isso, a Rússia esperava que os adversários ferrenhos da ditadura de Damasco se preparassem para retirar-se do território conflagrado, ao reconhecer de maneira implícita a impossibilidade de vitória duradoura. A saída ocorreria de preferência sem a equipagem mais robusta como tanques, por exemplo.

O objetivo principal aos russos seria o de defenestrar grupamentos conectados com a Al-Qaeda – Hurras al-Deen – ou dela derivados como Hayat Tahrir al-Sham. Aos turcos, a meta seria a de livrar-se das milícias curdas, cuja atuação, a seus olhos, não se limitaria apenas à jurisdição síria, caso não fossem bem reprimidas.

Com estes desejos, apesar das diferenças entre Rússia – pró-ditadura atual – e Turquia – contrária a ela, conquanto não seja ela mesma muito democrática – um cessar-fogo localizado e temporário poderia estabelecer-se e a datar de então negociações poderiam ser entabuladas e o deslocamento maciço de sírios para a fronteira poderia ser reduzido – estima-se em mais de três milhões.

Os Estados Unidos, embora desanimados com o correr da guerra, mantém sua presença na localidade – no começo do ano, o destemperado presidente Donald Trump havia anunciado a retirada vindoura dos contingentes; no entanto, ele não cumpriu o anunciado. É possível especular que a continuidade dos norte-americanos seja em decorrência da ampliação da influência iraniana no Oriente Médio.

Ainda que administrações como as de Paris e de Berlim não estejam relacionadas diretamente com a disputa síria, preocupam-se elas com o desdobrar por causa do fluxo de refugiados quase ininterruptos ao continente europeu – isso já influencia a sucessão no governo de Angela Merkel, ao se ter escolhido no seu partido Annegret Karrenbauer.

A proposta comum entre dirigentes da União Europeia (UE) seria o de firmar compromisso no tocante à realização de eleições amplas no curto prazo no devastado país, supervisionadas pela Organização das Nações Unidas (ONU).

De maneira paralela, debate-se a elaboração de nova constituição a partir do consenso entre a gestão ditatorial e a oposição local. A divergência reside se deveria haver o acompanhamento onusiano na substituição do documento principal sírio.

A implicância ou desconfiança do regime autoritário baathista com o organismo global deriva em parte da pressão política sobre o emprego de armamento ilegal no conflito. Em 2017, segundo a Organização para Proibição de Armas Químicas (OPAQ), o uso indevido de gás cloro e sarin teria sido identificado várias vezes, consoante informações repassadas por organizações não governamentais contactadas pela entidade.

Por último, à proporção que a oposição é contida belicamente, há arrojo maior por parte dos grupos extremistas – como as ramificações do Estado Islâmico (EI) – por significar a luta pela sobrevivência, vez que no Iraque a situação não lhes tem sido favorável também desde o final de 2017.

Encolhidos bastante em termos geográficos, os adeptos do renascido califado, agora combalido, mantêm-se de modo precário, dado que suas principais fontes de renda se contraem com o passar do tempo, como as do contrabando de petróleo. Mantido o compasso, a expectativa em 2019 é a de um Iraque filo-americano e a de uma Síria filo-russa.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: ascensão médio-oriental, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 21/09/2019]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=25002>.

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