Tríplice Fronteira: temas presentes e futuros, por Micael Alvino da Silva

Desde o início do século XXI, a Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai é um laboratório para o estudo do que se chamou na época de “novos temas” das Relações Internacionais. Apesar de abertura para estudos sobre integração regional (física, política, social, energética e produtiva) e meio ambiente (preservação ambiental e desenvolvimento sustentável), os temas predominantes foram o comércio ilícito e o terrorismo.

Comércio ilícito e terrorismo são enquadrados na categoria de crimes transnacionais e foram amplamente associados ao comércio de Cidade do Leste, liderado por libaneses e chineses. Objeto principalmente da mídia e de estudos de segurança internacional após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ambos os temas também foram alvos de pesquisas acadêmicas principalmente nos Estados Unidos e no Brasil (COSTA e SCHULMEISTER, 2007; LEE, 2008; BÉLIVEAU e MONTENEGRO, 2010; PINHEIRO-MACHADO, 2011; SILVA e COSTA, 2018)

No contexto de problematizar a ameaça terrorista que poderia advir da comunidade árabe na região, o “meio ambiente” foi deixado em segundo pleno. Uma revisão em pouco mais de duas dezenas de artigos em revistas acadêmicas, de 2004 a 2018, apenas um trabalho abordou o tema na área das Relações Internacionais. Na ocasião, o foco de Carmen Farradás foi sobre o processo de privatização do Parque Nacional do Iguaçu, tanto do lado brasileiro quanto argentino (FERRADÁS, 2004). Em relação à Tríplice Fronteira no início do século XXI, pode-se afirmar que o discurso acadêmico, na área das Relações Internacionais, possui um padrão de preferência pelos “novos temas” relacionados à criminalidade transnacional.

Os temas relacionados aos crimes transnacionais são produtos de um processo mais amplo de abertura e de possibilidade de comércio internacional na fronteira do Paraguai com o Brasil. É fato que o Paraguai se antecipou à abertura econômica e, nos anos 1990, quando o Brasil ainda caminhava para um comércio internacional mais aberto, o país vizinho já contava com mecanismos mais simplificado para importação e exportação de manufatura. Autores paraguaios mencionam a abertura internacional como uma estratégia para o desenvolvimento e até mesmo uma tentativa de postergar a ditadura de Stroessner (BRUN, MASI e FLORENTÍN, 2017).

O percurso das mercadorias dos portos brasileiros à Cidade do Leste faz parte de um contexto maior de aproximação entre Brasil e Paraguai (CHESTERTON, 2018). E foi justamente a integração das estradas e pontes e a construção de Itaipu Binacional que transformou a região habitada por pouco mais de 30 mil pessoas em 1970 para mais de 100 mil em 2000 e, atualmente, ultrapassa a marca de 1 milhão de habitantes. Diante disso, é bem vinda a perspectiva de se estudar a região no contexto uma longa duração e em um espaço mais amplo que o ponto de confluência dos três países (BLANC e FREITAS, 2018).

A abordagem ampliada é importante particularmente para a perspectiva histórica. Para a análise de conjuntura, também é desejável a ampliação da agenda de estudos sobre as relações internacionais da região. Há espaço, por exemplo, para temas como o desenvolvimento sustentável e o papel de Itaipu Binacional, já que são implicados diretamente com o futuro das relações entre Brasil e Paraguai, da Tríplice Fronteira e da América do Sul.

Na historiografia, há menções à importância singular de Itaipu para o Paraguai contemporâneo (ROLON, 2011; BRUN, MASI e FLORENTÍN, 2017). Mais especificamente, há um estudo andamento que, ao que parece, pode ser estruturante de uma abordagem internacionalista sobre a empresa. Trata das implicações geopolíticas do início do Tratado de Itaipu de 1973, e da complexidade em torno do projeto. Um tema absolutamente importante, no momento em que se avizinha o vencimento do Tratado em 2023 (FOLCH, 2018).

Enquanto os crimes transnacionais podem ser considerados mais um assunto para gabinetes governamentais e especialistas em segurança, o futuro de Itaipu, e das finitas energias renováveis, possui uma abrangência econômica e política com significados para o Paraguai inteiro e para uma boa parte do Brasil. Além do impacto social que tem a ver com toda a área da Tríplice Fronteira, quer seja ela o ponto de confluência ou em uma dimensão maior.

Para os temas internacionais futuros, Itaipu não representa apenas um empreendimento binacional ou um ator que se articula transnacionalmente (LISBOA e PERON, 2018). Prestes a fazer aniversário de 50 anos, Itaipu produz relações internacionais que impactam o futuro dos brasileiros e principalmente dos paraguaios. Dois povos que, por sinal, ainda convivem com um assunto do passado mal resolvido: a Guerra da Tríplice Aliança (BENVENUTO, 2016).

Estima-se que Itaipu ainda tenha vida útil superior a 100 anos. O que acontecer depois disso certamente mudará o cenário do Paraguai, da Tríplice Fronteira e, talvez, da América do Sul. No momento, o que se sabe é que ambos os governos (do Paraguai recém empossado e do Brasil recém-eleito) terão de sentar à mesa e discutir os termos da renovação do “Anexo C” do Tratado de Itaipu.

Se a universidade tem a função de contribuir para a solução de problemas da sociedade, me parece que a pesquisa em relações internacionais precisa mudar o rumo do debate que está centrado em comércio ilícito e terrorismo. Um tema como desenvolvimento sustentável faria os internacionalistas sair da zona de conforto disciplinar e dialogar com uma área não muito afim. A decisão de aproveitar os recursos hídricos do Rio Paraná e de construir Itaipu mudou completamente a dinâmica espacial da Tríplice Fronteira. A renegociação do Tratado, logo mais há alguns anos, certamente exigirá ajustes que transformará novamente a produção, a estratégia e a política internacional na região.

Referências

BÉLIVEAU, V. G.; MONTENEGRO, S. La Triple Frontera: Dinámicas culturales y procesos transnacionales. Buenos Aires: Espacio Editorial, 2010.

BENVENUTO, J. Integração regional a partir da fronteira do Brasil, Argentina e Paraguai. Curitiba: Juruá, 2016.

BLANC, J.; FREITAS, F. Big Water: The Making of Borderlands Between Brazil, Argentina and Paraguay. Chicago: University of Arizona Press, 2018.

BRUN, D. A.; MASI, F.; FLORENTÍN, C. G. Política Exterior Brasileña: oportunidades y obstáculos para el Paraguay. Asunción: Editorial Servilibro, 2017.

CHESTERTON, B. M. From Porteño to Pontero: the Shifiting of Paraguayan Geography and Identity in Asunción in the Early Years of the Stroessner Regime. In: BLANC, J.; FREITAS, F. Big Water: The Making of Borderlands Between Brazil, Argentina and Paraguay. Chicago: University of Arizona Press, 2018. p. 242-266.

COSTA, T. G.; SCHULMEISTER, G. H. The Puzzle of the Iguazu Tri-Border Area: Many Questions and Few Answers Regarding Organised Crime and Terrorism Links. Global Crime, 8, n. 1, 2007. 26-39.

FERRADÁS, C. A. Environment, Security, and Terrorism in the Trinational Frontier of the Southern Cone. Identities: Global Studies in Culture and Power, New York, 11, n. 3, 2004. 417-442.

FOLCH, C. Ciudad del Este and the Common Market: A Tale of Teo Economic Integrations. In: BLANC, J.; FREITAS, F. Big Water: The Making of Borderlands Between Brazil, Argentina and Paraguay. Chicago: Chicago: University of Arizona Press, 2018. p. 267-284.

LEE, R. The Triborder–terrorism nexus. Global Crime, London, 9, n. 4, 2008. 332-347.

LISBOA, M. T.; PERON, V. GT Itaipu Saúde: uma política pública do governo e da sociedade civil. Revista 100 Fronteiras, Foz do Iguaçu, v. 1, n. 156, Setembro 2018.

PINHEIRO-MACHADO, R. Made in China: (in)formalidade, pirataria e redes sociais na rota China-Paraguai-Brasil. São Paulo: Hucitec, 2011.

ROLON, J. A. Paraguai: Transição Democrática e Política Externa. São Paulo: Annablume, 2011.

SILVA, M. A. D.; COSTA, A. B. D. A Tríplice Fronteira e a aprendizagem do contrabando: da “era dos comboios” à “era do crime organizado”. In: BARROS, L.; LUDWIG, F. (Re)Definições de fronteiras: velhos e novos paradigmas. Foz do Iguaçu: IDESF, 2018.

Sobre o autor

Micael Alvino da Silva é Professor Adjunto na Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

Como citar este artigo

Mundorama. "Tríplice Fronteira: temas presentes e futuros, por Micael Alvino da Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 10/12/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24981>.
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