As eleições na Suécia, por Silvana Simon

No início do mês de setembro, os eleitores suecos dirigiram-se às urnas para votar a nova composição do Parlamento. Seguindo a tendência política europeia atual de ascensão da extrema direita, as eleições demonstraram os efeitos da crise migratória, com o destaque nas urnas do partido nacionalista Democratas da Suécia, da extrema direita.

Em boa parte dos países europeus, foi possível perceber, nas últimas eleições, a movimentação do espectro político para a extrema direita. Os significativos ganhos eleitorais dos partidos de bandeira nacionalista estão criando espaço para a ascensão de uma oposição aos líderes políticos eleitos. Essas modificações são reflexo, além da crise financeira iniciada em 2008, da onda migratória que se dirigiu a Europa, desencadeada, sobretudo, pelos conflitos no Afeganistão e em outros países da África e pela guerra civil síria.

O que esses partidos em ascensão trazem em comum são os argumentos anti-imigração, o chamado euroceticismo e a retórica anti-islâmica. Na Alemanha, em 2017, o partido Alternative für Deutschland (AFD) passou a integrar o Bundestag, Parlamento Alemão. Na Áustria, por sua vez, o Freiheitliche Partei Österreichs (FPÖ) teve destaque nas eleições presidenciais e passou a fazer parte de uma coalizão do governo atual. Exemplos semelhantes também ocorreram recentemente na Itália, na Dinamarca e na França.

A Suécia é, tradicionalmente, reconhecida por ser um estado de bem-estar social, com sensível abertura a estrangeiros e pelo consenso. Os socialdemocratas, após dominarem o cenário político por mais de um século e serem responsáveis pelas políticas de bem-estar social, testemunharam o significativo declínio do seu poder nas ultimas eleições.

Em que pese a economia continuar apresentando bons índices, os temas que tiveram mais peso nos debates políticos pré-eleitorais foram as questões climáticas, por conta de incêndios florestais ocorridos no verão; o aumento da violência; a piora no acesso a médicos e hospitais, em função da crescente demanda; e, por fim, como ponto crucial, a crise migratória.

Em 2015, a onda migratória para a Europa se dirigiu intensamente para a Suécia. O país, que tem um total de 10,1 milhões de habitantes, acolheu, naquele ano, 163 mil requerentes de asilo. Desde 2012, já foram contabilizados mais de 400 mil solicitantes. Em termos populacionais, trata-se do maior acolhimento de asilados per capita do continente.

Assim como na Alemanha e em outros países europeus, a Suécia introduziu controles fronteiriços e passou a restringir o número de entradas. Neste ano de 2018, o número de imigrantes registrados caiu para 23 mil. Os efeitos da crise migratória, no entanto, já estavam configurados entre a população e isso se refletiu no cenário político das últimas eleições, com a polarização entre s partidos e o destaque angariado pelo Partido Democrata Sueco.

A campanha política pré-eleitoral foi marcadamente polarizada. As pesquisas apontavam, às vésperas das votações, que o Partido Democrata Sueco tinha 19,1% das intenções de votos. Isso demonstrou seu crescimento em relação às eleições de 2014, em que obtiveram 13% dos votos. O tradicional Partido Social-Democrata, por sua vez, tinha 24,9% das intenções de voto. Isso foi uma queda histórica. Já o Partido Moderado, de centro-direita, contava com 17,7% das intenções.

Os Democratas da Suécia têm raízes neonazistas. Por anos estiveram ligados a grupos radicais de extrema direita. Sua ascensão ao Riksdagen, Parlamento Sueco, ocorreu em 2010, quando receberam 5,7% dos votos. Em 2014, tornaram-se o terceiro maior partido do país escandinavo. Sob o comando do líder Jimmie Akesson, os Democratas buscaram amenizar a sua imagem. Os membros mais extremos foram expulsos, o logotipo foi alterado de uma tocha para uma versão da anêmona azul.

Esse partido se beneficiou consideravelmente da onda migratória que alcançou o país. Em seus discursos de campanha, manteve o slogan “Manter a Suécia Sueca”, em nome da segurança e da tradição. Entre suas propostas, figuram a interrupção dos fluxos migratórios. Defendem que sejam aceitos apenas refugiados provenientes da Noruega, Finlândia e Dinamarca. Além disso, seguindo o exemplo do Reino Unido, são a favor da retirada da Suécia da União Europeia, ou o “Swexit”.

Se, por um lado, os democratas apresentam um franco crescimento ao longo dos últimos anos, os socialdemocratas, por outro, estão em queda. Estes últimos eram o partido mais votado desde 2017. Em 1968, por exemplo, obtiveram 50% dos votos. Em 1994, mantendo a média, alcançaram 45% do total. Nos últimos anos, contudo, seu apoio decresceu para em torno de um quarto dos eleitores. Esse fato não ocorreu somente na Suécia, mas é um reflexo do declínio dos partidos de centro esquerda e de esquerda em toda a Europa.

Nas últimas eleições, em torno de 7,5 milhões de eleitores votaram para um mandato de 4 anos, no Parlamento Sueco. O Riksdagen é composto por 349 membros, eleitos por meio de representação proporcional. Após negociações internas entre os partidos com representação parlamentar, o Primeiro Ministro é escolhido. O atual chefe de Governo é Stefan Lofven. Sua coalizão é composta por seus social-democratas e pelo Partido Verde, e é apoiada no parlamento pelo Partido da Esquerda.

Os resultados das eleições foram diferentes do que apontavam as pesquisas eleitorais e muito aquém do que esperava a atual coalizão atual liderada por Lofven. O partido Democrata Sueco obteve cerca de 18% dos votos, acima dos 12,9% das eleições de 2014, mas abaixo dos 19,1% apontados pelas pesquisas. Os socialdemocratas, obtiveram pouco mais de 28%, o pior resultado da história. O Partido da Esquerda, por sua vez, angariou 7,9% dos votos e o Partido Verde, 4,4%. O Partido Moderado obteve 8,6% dos votos, os Democratas Cristãos 6,4% e os Liberais 5,5%.

Em termos gerais, o bloco dos partidos de centro-esquerda, esquerda e ambientalistas, liderados pelos social-democratas, conseguiu 40,6% dos votos. A aliança de centro-direita, liderada pelos moderados, obteve, com 40,3%. Isso significa que nenhum bloco poderá comandar com maioria no Riksdagen e as duas partes não se mostram acessíveis a fazer acordos com os Democratas Suecos, que figuram do lado oposto do espectro político e obtiveram o terceiro lugar na contagem de votos e têm um peso inegável.

A Suécia tem, portanto, um quadro de incertezas políticas no momento. As negociações que estão ocorrendo para a formação de um novo governo e a escolha do Primeiro Ministro sueco devem ser prolongadas. O tradicional partido socialdemocrata, o maior de todos, não tem maioria coletiva e não pode governar em uma coalizão. O partido de oposição, o Moderado, tampouco pode assumir a liderança, porque ainda que estabeleça uma aliança com os partidos de centro-direita não consegue alcançar a maioria.

Os suecos, assim como a maioria dos europeus, terão que se adaptar às mudanças no quadro político e ao aumento da rigidez. Caberá aos blocos de direita e de esquerda negociarem entre si e com o Partido Democrata em busca de uma governança possível. A Suécia liberal e acolhedora do passado bem recente terá de dar lugar a uma nova Suécia, com políticas migratórias bem mais restritas e seguindo, de certo modo, os exemplos dos países vizinhos.

Referências

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Sobre a autora

Silvana Simon é Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná – UFPR.

Como citar este artigo

Mundorama. "As eleições na Suécia, por Silvana Simon". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/10/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24830>.

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