Resenha de Roque, Silvia (2016) Pós-Guerra? Percursos de violência nas margens das Relações Internacionais, por Roberta Masquietto

Durante muito tempo a discussão sobre a paz nas Relações Internacionais (RI) permaneceu centrada na superação das guerras (seja interestatais, seja intrastatais), na elaboração e implementação de acordos de paz e, assim, na cessação da violência direta em seu formato ‘político’, ou seja, aquela violência que coloca em perigo o Estado e seu funcionamento. Apenas recentemente tem-se observado na literatura a emergência de estudos com foco na violência que persiste em períodos de paz. Ainda assim, permanece a tendência a se enfatizar a violência política em detrimento de outras formas de violência que afetam o cotidiano, como crime, violência doméstica, de gênero, entre outras. Mais raro ainda é o espaço dedicado à discussão sobre violência estrutural e simbólica, que influenciam em diferentes graus a própria manifestação da violência direta.

Neste cenário de separação arbitrária dos diversos tipos de violência, e onde a concepção do internacional se distancia do cotidiano, o livro Pós-Guerra? Percursos de violência nas margens das Relações Internacionais (Coimbra: Almedina, 2016. ISBN 9789724065311), da pesquisadora Sílvia Roque, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, merece destaque. Refletindo de forma crítica sobre o tratamento da violência nas RI, Roque resgata o papel dos percursos e das experiências concretas da produção da violência, destacando a relação não-linear entre guerra e pós-guerra e a natureza problemática deste tipo de recorte temporal. Neste sentido, questiona se as manifestações de violência que ocorrem no ‘pós-guerra’ são de fato novas, ou se representam continuidades ou mesmo derivações de outras formas de violência que antecedem não apenas a paz, como também a própria guerra.

O argumento apresentado é que a visão predominante sobre pós-guerra nas RI, centradas em visões binárias (paz e guerra, político e criminal, etc.), tende a ocultar ou despolitizar múltiplas violências quotidianas, ignorando os percursos de produção de margens sociais e políticas e as suas reconfigurações ao longo da história, bem como algumas continuidades entre a guerra e a paz” (p. 21). Ao mesmo tempo, tais visões tendem a estereotipar os grupos nas margens do poder e representa-los como ameaças à segurança internacional. Ainda, tais visões ignoram o papel dos atores e das dinâmicas internacionais na produção da violência do cotidiano.

O livro é divido em seis capítulos, além de uma introdução e conclusão. Os primeiros dois focam na discussão teórica sobre violência, onde Roque apresenta uma extensa revisão da literatura. Aqui, a autora destaca que a falta de uma análise multidimensional e mais aprofundada da violência nas RI revela uma forma de violência epistemológica, uma vez que coíbe formas de pensar dissociadas dos centros de poder político, deslegitimando, assim, a violência das periferias. Em contraste, Roque não fala de ‘violência’ no singular, mas de ‘violências’ no plural, reforçando que esta se expressa em diversas formas, embora nem todas elas sejam visibilizadas. A violência do cotidiano, neste sentido, está profundamente relacionada à normalização da violência e sua consequente invisibilidade.; ela é “resultado, expressão, incorporação da violência estrutural e simbólica nas práticas e rotinas institucionais e sociais” (p. 101). Ao mesmo tempo, ela vem desafiar a diferenciação entre violência política e social. A violência coletiva envolvendo jovens é particularmente relevante aqui. Roque refere-se a esta como “violência-espelho”, ou seja, uma violência que “surge como resultado de privações, sofrimento, frustração e violência institucional” (p. 115).

A análise empírica da violência é então aplicada nos estudos de caso de El Salvador (capítulos 3 e 4) e Guiné Bissau (capítulos 5 e 6). Para  cada caso, Roque reserva um capítulo para traçar uma genealogia das violências, e outro para discutir a violência do cotidiano no pós-guerra. Em termos contextuais, El Salvador e Guiné Bissau apresentam uma série de semelhanças. Ambos os países possuem um histórico de violência intensa no período pós-colonial, com forte presença militar no aparato estatal e sérios problemas socioeconômicos que resultam em altos índices de pobreza e desigualdade social. Ambos os países passaram, ainda, por guerras civis, a de El Salvador durando de 1980 a 1992 e de Guiné Bissau pouco mais de um ano (1998-1999). Apesar destas e outras similaridades, observa-se um desenvolvimento muito diferente dos percursos da violência no pós-guerra em cada país. Enquanto a concretização de uma “paz sem justiça” em El Salvador foi acompanhada do crescimento do protagonismo da gangs juvenis (as maras e as pandillas), em Guiné Bissau, apesar do contexto propício para tanto, o mesmo não ocorreu. O que explica esta diferença é uma questão central na análise do livro e é algo não capturado pelas tradicionais explicações sobre os ‘legados da guerra’. A análise dos percursos de violência, por sua vez, permite uma compreensão mais refinada do desenvolvimento da violência nestes dois países.

Neste sentido, primeiramente a autora questiona as dicotomias tradicionais de guerra/ pós-guerra e violência política/crime ao analisar o caso das gangs em El Salvador. Traçando suas origens ao início da década de 1980 e ressaltando seu caráter transnacional e constante transformação, Roque demonstra o quanto esta violência não é apenas ‘pós-guerra’. Ao mesmo tempo, ela rejeita a caracterização destes grupos como meramente não políticos, demonstrando, por meio de várias entrevistas com membros das gangs, que estas são atores políticos em sentidos distintos e interdependentes. De um lado, observa-se fragmentos de resistência em suas motivações, percursos e auto representações. De outro, as gangs são protagônicas na constante reconfiguração das relações social no cotidiano. A violência, neste sentido, não reflete mera barbárie ou rejeição da ordem. Ela possui uma lógica interna e tem sua função constantemente reconstituída no âmbito destes grupos. Esta própria lógica, por sua vez, está eminentemente ligada ao contexto socioeconômico do país, algo que transcende o escopo da guerra em si.

Ao analisar o caso de Guiné Bissau, Roque explora dois elementos adicionais que ajudam a compreender os diferentes percursos da violência neste país. Primeiramente, observa-se aqui uma alto grau de normalização da violência. Neste sentido, apesar do estado formal de não-guerra, existe um estado de ‘pós-guerra permanente’, a paz vista como uma condição a se alcançar. Esta situação é corroborada pelo alto índice de impunidade, que normaliza a utilização da violência como método para se obter mudanças, algo reforçado pelo histórico de golpes militares no país. Além disso, assiste-se à normalização da violência estrutural, nomeadamente a extrema pobreza, que se reflete num discurso popular de vitimização e aceitação. Ironicamente, esta situação de normalização leva a um estado de resiliência, o segundo elemento explicativo. A sensação de que o sofrimento é generalizado, associado a uma cultura onde dinâmicas familiares são extremamente importantes, leva a um maior grau de solidariedade, ao mesmo tempo em que inibe certas formas de violência direta.

Isto não significa que não haja outras expressões de violência direta no cotidiano em Guiné Bissau. No entanto, a grande maioria dos jovens não recorre à violência coletiva como forma de afirmação e/ou sobrevivência. Ao mesmo tempo, Roque destaca que a ausência desta forma de violência é, por sua vez, reflexo da própria normalização da violência, em especial a repressão político-militar, que restringe a agência dos atores, e as lógicas de dependência, patrimonialismo e paternalismo que ditam o acesso restrito aos recursos. Existe, assim, a contínua reiteração de uma lógica de desesperança que, ao mesmo tempo que inibe a violência organizada, também inibe o exercício da cidadania em sua forma plena.

Em ambos os casos fica evidente que o histórico da violência é profundo e possui inúmeras dimensões estruturais que vão além da dicotomia guerra e paz. A análise, portanto, corrobora o argumento de que o pós-guerra não é linear e que os diferentes percursos da violência não podem ser compreendidos por uma dinâmica que enfatiza perspectivas dicotômicas centradas na guerra. Ao mesmo tempo, destaca-se a importância de se explorar não apenas as formas de violência direta (que se perpetuam ou sem transformam no pós-guerra), mas o sofrimento humano de maneira mais geral, causado pela violência menos visível (estrutural e simbólica) e que, por sua vez, também está imbricada no sistema internacional, por mais localizada que possa parecer.

Com uma bibliografia extremamente ampla e extenso material de pesquisa de campo, Pós-Guerra? Percursos de violência nas margens das Relações Internacionais traz uma grande contribuição para o debate em RI, em especial a partir do questionamento epistemológico que tem guiado a disciplina e que se reflete na ênfase em guerras e conflitos armados como principais elementos transformadores no âmbito internacional. O redirecionamento da pesquisa no sentido de questionar a construção da linha de tempo e os elementos que devem ser realçados quando falamos de paz remete, em última instância, á priorização do ser humano enquanto principal foco de análise.

Esta obra, cuja leitura vivamente recomendo, deve ser vista como um ponto de partida para a revisão da forma como analisamos cenários de construção da paz: não basta nos atermos às formalidades que caracterizam os processos de paz, nem às narrativas das elites envolvidas no centro de poder político; tão pouco basta focarmos na violência evidente ou subjetiva (nos termos de Žižek). A compreensão da paz e suas limitações deve ser entendida à luz das múltiplas experiências ligadas à violência e sua transformação no tempo. É hora de ir além da discussão sobre  guerra e paz e explorar os tons de cinza que perpassam estes conceitos.

Colocar a violência em evidência nas RI e refletir sobre as experiências e visões das margens não apenas nos convida a repensar nosso viés epistemológico, como também abre margem para o estudo de processos ainda mais sutis, como, por exemplo, o diferentes processos de normalização de certas formas de violência em nível local e internacional. Isto, por sua vez, permite vislumbrar formas alternativas de se pensar e propor pilares de construção de uma paz justa e duradoura.

Como citar este artigo

Editoria Mundorama. "Resenha de Roque, Silvia (2016) Pós-Guerra? Percursos de violência nas margens das Relações Internacionais, por Roberta Masquietto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 13/11/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24778>.

Roberta Holanda Maschietto, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra (rhmaschietto@gmail.com)

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