Rússia: conquista militar, não esportiva, por Virgílio Arraes

A realização da Copa do Mundo de 2018 em Moscou é um trunfo político sem dúvida para a longeva e controversa administração de Vladimir Putin, embora de efêmera duração seus efeitos benignos, haja vista o próprio exemplo do Brasil, com inúmeros estádios de futebol reformados ou até edificados em 2014 com pouca utilização pela população e com custos de manutenção representativos para nação em crise estendida.

Saliente-se, no entanto, que havia na população brasileira maiores expectativas quanto à vitória no certame, a sexta desde 1930, em decorrência da tradição do país nesse esporte, diferente das probabilidades da Rússia, bastante modestas, a despeito da vontade da entusiasmada torcida local.

Enquanto a disputa desportiva em solo russo se afunila de maneira gradativa e organizada, malgrado mantenha a atenção da plateia ao redor do globo, a militar em território sírio atrai no momento menor preocupação da opinião pública ocidental, a despeito do envolvimento moscovita e do desdobramento aleatório na recuperação ou perda do domínio de regiões da extenuada nação.

Nos últimos dias, a ditadura baathista tem retomado aos poucos da oposição área fronteiriça à Jordânia, perdida em 2015. Considerava-se este rincão um dos mais resistentes às investidas do governo al Assad. Com o auxílio da aeronáutica russa, o deslocamento dos contingentes sírios tem sido facilitado.

A dúvida é em quanto tempo aquela região será incorporada de novo à gestão oficial. Na hipótese mais desfavorável ao regime autoritário, um cessar-fogo provisório poderia ser firmado, não obstante a dificuldade de concertar todas as tendências adversárias.

No entanto, em outras áreas do devastado país, como no sudeste, valeram-se as partes, com o aval amero-russo, do instrumento há um ano.

Nos recentes inexoráveis avanços das forças armadas, civis – entre eles, jovens – tombam também, apesar da sofisticação tecnológica do apoio russo – além disso, ajustes locais de conta entre efetivos governamentais e milicianos de distintas convicções ocorrem.

A movimentação desembaraçada do Kremlin desagrada de fato a Casa Branca, detentora ela também de tropas lá, embora em quantia reduzida – a justificativa para a permanência seria a contenção dos integrantes do Estado Islâmico ou seus simpatizantes.

Evocação similar empregam os russos para seus já citados ataques aéreos em prol do governo sírio, a eles legítimo, argumento rejeitado pelos norte-americanos que identificam setores democráticos na vasta oposição à atual administração e, por conseguinte, auxiliam-nos à medida do possível.

Partindo-se da polêmica afirmação da diplomacia moscovita, a gestão baathista seria vítima da atuação washingtoniana, vez que seu território abrigaria de forma indevida tropas estrangeiras.

Por extensão, o Kremlin insiste que as manifestações da Casa Branca sobre a utilização de armas químicas pelo regime de al Assad careceriam de provas substantivas – derivação na prática das acusações endereçadas outrora à ditadura de Saddam Hussein no Iraque pelos Estados Unidos durante a administração Bush.

Torna-se mais tensa a situação do fragmentado país porque milicianos iranianos circulam sem restrição, em função do apoio aos baathistas. Com isso, alarmam-se Telaviv e Amã com a eventual presença maciça de refugiados em seus limites lindeiros, ainda que não haja disposição de acolhê-los, mesmo de modo mínimo, e de combatentes de diversas fontes ideológicas.

Preocupa-se com razão a Organização das Nações Unidas (ONU) com o impacto humanitário dos últimos combates deflagrados por Damasco, tendo em vista que negociações, mesmo demoradas e intricadas, poderiam ter precedido as ações castrenses e, destarte, a saída dos simpatizantes do integrismo ou dos contrários à presente gestão. Menos sobressaltos poderiam ter afluídos.

A confrontação entre Washington e Moscou pelo destino de Damasco aparenta a alguns como uma pequena Guerra Fria rediviva – soa bem aos saudosistas daquele turbulento período, independente do status de formulador ou de apenas executor. Seria como jogo de tabuleiro, com avanços e recuos rumo à direção da democracia ou da autocracia, a depender do leme de cada participante.

A derivação disso seria animar, ou melhor enredar, respectivas sociedades contra poderoso inimigo, não mero opositor diplomático, ainda que a possibilidade de conflito direto entre ambos seja inexistente na prática. Assim, unir-se-ia o povo por meio da política externa e valorizar-se-ia a autoestima nacional, ao enfrentar-se sem hesitação contendedor de tamanho calibre.

Distensionar as relações entre as duas potências atômicas parece ser a palavra de ordem para os partidários republicanos, a despeito dos insistentes rumores de indevida intromissão russa na escolha presidencial de 2016 em desfavor da candidatura de Hillary Clinton. Desde o êxito na disputa à Casa Branca, Trump por si já acarreta corrosão entre o eleitorado nacional, por conta de seus posicionamentos.

Na Câmara dos Deputados, a agremiação do presidente não teria encontrado indícios suficientes sobre as denúncias apresentadas à Comissão de Inteligência no primeiro semestre do ano, apesar das manifestações dos democratas sobre a necessidade de se investigar, como sói acontecer, a circulação da dinheirama durante a acirrada campanha.

Haveria, outrossim, testemunhas ignoradas por parlamentares favoráveis ao titular da Casa Branca bem como organizações de lóbi supostamente vinculadas à questão. Desta feita, os trabalhos da referida comissão não teriam sido executados de forma isenta ou no mínimo de modo percuciente.

Por fim, o governo Trump conta com vários problemas sérios, desenvolvidos nas presidências predecessoras: com a China no comércio internacional e com o México na segurança das fronteiras por causa do narcotráfico e da imigração ilegal.

Provocar outro de monta com a Rússia afigura ser pauta desnecessária, a não ser que a intenção seja promover Putin como o maior adversário da combalida gestão republicana e, a partir disso, desviar a atenção de fatos urgentes como as acima mencionadas.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: conquista militar, não esportiva, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 13/11/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24714>.

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