“Maio Paraguaio”: da Tríplice Fronteira à Jerusalém, por Micael Alvino

A organização não-governamental Counter Extremism Project tem com propósito combater grupos extremistas. A Asymmetrica, produz relatórios de risco para a Organização das Nações Unidas, da qual é membro da rede de pesquisa da Diretoria Executiva do Comitê de Contraterrorismo do Conselho de Segurança. Sob a chancela de ambos, no início de maio de 2018 foi publicado o relatório intitulado “As muitas cabeças criminosas da Golden Hydra” (NEUMANN e PAGE, 2018).

A publicação é mais um dos muitos relatórios baseados em fontes abertas e jornalísticas sobre a fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai. Neste tom, desde 2002, outras publicações já denunciavam o potencial nexo dos lucros obtidos do comércio em Cidade do Leste e da comunidade libanesa na região com o crime organizado e até com grupos no Oriente Médio, como por exemplo o Hezbollah (BARTOLOMÉ, 2002) (HUDSON, 2003).

Ao contrário do que sugere as análises binárias sobre “há” ou “não há” terrorismo na Tríplice Fronteira (KACOWICZ, 2015, p. 102), o estilo das publicações baseadas em fontes jornalísticas corresponde a um processo de securitização da fronteira mais movimentada da América do Sul (AMARAL, 2010) (VILLA, 2014).

O relatório repete a clássica exploração do nexo entre criminalidade transnacional e a Tríplice Fronteira, com a novidade de trazer na imagem da capa a foto de ações e de “cabeças” de pessoas supostamente ligadas aos problemas da região. No âmbito das relações internacionais, o Counter Extremism Project e a Asymmetrica promoveram uma ampla divulgação do trabalho e a diplomacia do Paraguai teve de lidar com uma situação, no mínimo constrangedora.

No entanto, o mês de maio seria marcado apenas da suspeita levantada pela imagem das “cabeças criminosas” da Tríplice Fronteira e da sugestão de envolvimentos com organizações como o Hezbollah. No Oriente Médio, mais precisamente em Jerusalém, a diplomacia paraguaia se ocuparia em seguir os Estados Unidos e a Guatemala na mudança da sede de sua Embaixada de Tal Aviv para a cidade sagrada.

No âmbito das relações internacionais, a política externa tocada pelo presidente Horácio Cartes levou o Paraguai a seguir os Estados Unidos, de Donald Trump. Tal decisão possui pelo menos um significado global e outro regional. No âmbito global, o feito tende a elevar a proximidade diplomática com Israel. Consequentemente, algum nível de cooperação mais elevado pode avançar eventualmente para a área de segurança internacional e contraterrorismo. O resultado é inesperado, mas pode ser que o nexo entre a Tríplice Fronteira e o terrorismo (especialmente o Hezbollah) se torne um assunto menos importante e/ou mais esclarecido.

No que se refere ao significado regional, a crise política e econômica que afeta o Brasil impacta diretamente nos projetos do Mercosul. Consequentemente, sócios menores ficam em situação mais confortável (ou até mesmo necessária) para buscar maior abertura comercial com outras partes do mundo. Estar bem politicamente com os Estados Unidos e com Israel pode ser um ponto de abertura para maior inserção da política externa americana no espaço do Mercosul. Em outro contexto, por volta de 2004, uma polêmica missão militar americana no Paraguai (com imunidade diplomática para os militares) já havia suscitado este debate (BERTONHA, 2005).

A aposta de Horácio Cartes e da diplomacia paraguaia demonstra que o Paraguai não alimenta uma relação de dependência total com o Brasil em relação à sua pauta internacional. Além disso, seguir os Estados Unidos e aproximar de Israel também significa que as aspirações brasileiras à hegemonia possuem limites. Em Jerusalém, Cartes apelou para a empatia ao afirmar que “tanto Israel quanto o Paraguai tem padecido e superado verdadeiros genocídios [no caso paraguaio a Guerra da Tríplice Aliança] em nossa história [na qual] sofremos agressões e injustificáveis abusos” (LA NACIÓN, 2018).

Em outro episódio dos limites da hegemonia brasileira no Paraguai, a diplomacia brasileira já criticou a opção paraguaia pela criação de uma zona franca na década de 1960 (CERVO, 2001, p. 213). Contudo, mais expressivo para o processo de integração regional foi o regime de turismo implantado em paralelo com as discussões para criação do Mercosul, para institucionalizar o comércio de triangulação comercial (MASI, 2006).

O comércio de triangulação comercial, cujo maior pico registrou o movimento estimado de 5 bilhões de dólares em 2011 (CESAR, 2016, p. 23), significa para o Brasil produtos de contrabando e descaminho (SILVA e COSTA, 2018). Para o Paraguai, significa a manutenção do status quo de seu modelo econômico baseado em exportação de matérias primas na triangulação (MASI, 2006). Para os “especialistas em segurança”, o lucro do comércio na região significa a possibilidade de registrar a ocorrência de crimes transnacionais (incluindo associação ao terrorismo) e até identificar as “muitas cabeças criminosas”.

Em síntese, na história das relações internacionais do Paraguai, o mês de maio de 2018 será lembrado por dois acontecimentos de ampla divulgação no âmbito global. Primeiro, o relatório do Counter Extremism Project e Asymmetrica revisitaram um tema polêmico e que esteve no centro das relações paraguaias-brasileiras-americanas na primeira década do século XXI. Certamente não como uma reação, mas como uma estratégia geopolítica, o presidente Horácio Cartes inaugurou a Embaixada do Paraguai em Jerusalém, seguindo a também polêmica decisão de Donald Trump.

Nesta breve análise, argumentei que a decisão do Paraguai é uma resposta também aos abalos que o Mercosul sofre com as crises política e econômica que assolam o sócio maior. Consequentemente, sócios menores vislumbram a oportunidade de realizar inferências extra regionais.

Referências

AMARAL, A. B. D. A Tríplice Fronteira e a Guerra ao Terror. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.

BARTOLOMÉ, M. C. Amenzas a la seguridad de los Estados: La Triple Frontera como ‘área gris’ en el Cono Sur Americano. Military Review, Fort Leavenworth, Kansas, 82, n. 4, 2002. 61-74.

BERTONHA, J. F. A presença militar norte-americana no Paraguai perigo ou paranóia? Meridiano 47 , Brasília, 6, n. 63, 2005. 3-5.

CERVO, A. L. Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas. Brasília: IBRI, 2001.

CESAR, G. R. C. Integração Produtiva Paraguai-Brasil: novos passos no relacionamento bilateral. Boletim de Economia e Política Internacional, Brasília, n. 22, 2016. 19-32.

HUDSON, R. Terrorist and Organized Crime Groups in the Tri-Border Area (TBA) of South America. Federal Research Division, The Library of Congress. Washington. 2003.

KACOWICZ, A. M. Regional peace and unintended consequences. In: JASKOSKI, M.; SOTOMAYOR, A. C.; TRINKUNAS, H. A. American Crossings: Border Politics in the Western Hemisphere. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2015. p. 89-108.

LA NACIÓN. Paraguay refuerza lazos de la historia con Israel. La Nación, Asunción, 22 mayo 2018.

MASI, F. Paraguai-Brasil e o projeto Mercosul. Política Externa, São Paulo, 14, n. 3, 2006. 23-32.

MASI, F. Ups and downs of Paraguayan trade policy in the 1990s. In: BOUZAS, R. Domestic determinants of national trade strategies: a comparative analysis of Mercosur countries, Mexico and Chile. Paris: Chaire Mercosur de Sciences, 2006.

NEUMANN, V.; PAGE, S. The many criminal heads of the Golden Hydra. Counter Extremism Project, maio 2018. Disponivel em: <https://www.counterextremism.com/press/terrorists-and-criminals-reap-more-43-billion-year-tri-border-area>. Acesso em: 5 jul. 2018.

SILVA, M. A. D.; COSTA, A. B. D. A Tríplice Fronteira e a aprendizagem do contrabando: da “era dos comboios” à “era do crime organizado”. In: BARROS, L.; LUDWIG, F. (Re)Definições de fronteiras: velhos e novos paradigmas. Foz do Iguaçu: IDESF, 2018.

VILLA, R. D. O Paradoxo da Macrossecuritização: Quando a Guerra ao Terror não Securitiza Outras “Guerras” na América do Sul. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, 36, n. 2, jul./dez. 2014. 349-383.

Sobre o autor

Micael Alvino é Professor Adjunto na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

Como citar este artigo

Mundorama. "“Maio Paraguaio”: da Tríplice Fronteira à Jerusalém, por Micael Alvino". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/07/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24707>.

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