Crise de Civilização e Pós-Capitalismo, por Alberto Teixeira da Silva

A crise da contemporaneidade se funda no pressuposto da crise civilizatória da modernidade e suas faces. Pós-capitalismo constitui expressão incômoda pela dificuldade de precisar os cenários e transições advindas das novas eras emergentes. A discussão do pós-capitalismo e do que pode vir para além, instiga uma reflexão nesta quadra histórica de incertezas e caminhos não lineares. A aceleração de fluxos globais (materiais e imateriais) em múltiplas direções, que se concretiza através de diferentes formas e sentidos (mercadorias, idéias, serviços, imaginários), intensificada pelas tecnologias de informação e plataformas digitais, está transformando radicalmente a modernidade como símbolo de conquista, progresso e felicidade. A revolução das forças produtivas pela máquina capitalista está produzindo a própria derrocada do sistema tradicional, uma espécie de autodestruição criativa, que anuncia um outro patamar de sociabilidades e consumos de bens.

Crise civilizacional: turbulências e incertezas

 Muitas expressões são úteis para designar os tempos atuais. O prestigiado sociólogo Zygmunt Bauman fala de um mal estar da pós-modernidade onde estaríamos irremediavelmente presos e confinados, além de solapados por uma arquitetura de sociedade baseada na insegurança e nas relações frágeis e efêmeras, como apontou no conceito de modernidade liquida (BAUMAN, 2007). O saudoso geógrafo Milton Santos dizia que vivemos num mundo confuso e confusamente percebido, numa época histórica estonteante e acelerada (SANTOS, 1998).

Em pleno século XXI, estamos vivendo num emaranhado de incertezas e turbulências que deságuam numa crise civilizacional sem precedentes, no escopo da sociedade planetária mostra-se uma multicivilizacional de múltiplas dimensões, considerando a complexidade dos problemas modernos e pós-modernos e a diversidade de nações e formações sociais que o mapa de perplexidades nesta conturbada contemporaneidade. Diante de um sistema global, igualmente as crises são plurais e globais. Crises diante da hegemonia arrebatadora do capitalismo multifacetado e imprevisível. Crises sucessivas que estão desencadeando instabilidades, conflitos e choques étnicos, geopolíticos, ecológicos. São crises de situações nutridas por interdependências, contradições e assimetrias entre modos de vida, valores e modelos de desenvolvimento.

A intensificação da globalização excludente coloca em evidência processos robustos em escala planetária: busca desenfreada pelo lucro, especulação financeira, reprodução de desigualdades locais, nacionais e continentais, ampliação de nichos de pobreza e movimentos de refugiados ambientais sem precedentes. As crises produzem perdas econômicas, sepultamento de patrimônios e culturas milenares, além de um quadro monstruoso de miséria e degradação de sociedades no mundo inteiro.

As crises atuais estão desafiando a imaginação e a criatividade das forças e elites políticas que governam o modelo de desenvolvimento em escala global. A governança do sistema global não pode ser conduzida por um condomínio elitista de governos e empresas sob a égide ideológica do crescimento econômico sem freios e descompensado.

Os sinais dessas crises estão na intensificação de problemas políticos, sociais, econômicos, ambientais e éticos, notadamente mudanças climáticas, mobilidade urbana sem planejamento adequado, escassez de recursos naturais (sobretudo a água), consumismo exacerbado e produção de resíduos que comprometem a qualidade de vida; enfim, um conjunto de bens e serviços públicos, que não estão sendo apropriados com responsabilidade individual e coletiva.

A crise contemporânea também está marcada pela fragmentação do pensamento, que leva aos diversos tipos de reducionismos e enganos. A incapacidade de conceber o pensamento complexo, vitalizado pela união de saberes e trocas de diálogos, compromete um processo de aprendizagem e de transformação social, visto que distorce a realidade e deixa de problematizar conteúdos centrais para a constituição de uma cidadania autêntica. “Há inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários” (MORIN, 2004: 13).

Pós-capitalismo: alguns sinais

A abolição do capitalismo tal como hoje o concebemos está em curso e se processando “quase invisível no interior do velho sistema, mas que rompe caminho, remodelando a economia em torno de novos valores, comportamentos e normas” (MASON, 2017: pag. 17). Dos escombros da sociedade industrial, está emergindo com vigor a arquitetura de uma sociedade pós-capitalista, gerada por amplos processos políticos, culturais e econômicos de colaboração e compartilhamento, com base em iniciativas coletivas de cooperativas, grupos de economia solidária, movimentos inovadores espontâneos e projetos circulares sistêmicos nas cidades sob a perspectiva do desenvolvimento sustentável.

Pode-se dizer que os fundamentos do pós capitalismo estão colocados pelo aprofundamento da globalização “como um novo ciclo de expansão do capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório de alcance mundial” (IANNI, 2004: pag. 11). A globalização multidimensional do pós capitalismo implica igualmente na administração de uma sociedade complexa e contraditória, contudo, superando velhas estruturas e pensamentos retrógrados.

A crise do modelo capitalista neoliberal aponta para a sua superação por não responder as demandas de amplo segmentos da população mundial em termos de redução das desigualdades e desequilíbrios ambientais, que está desembocando em conflitos territoriais, mas sobretudo pelas transformações advindas desse admirável mundo tecnológico, que reduz o valor dos bens e empodera grupos e pessoas na perspectiva de novos formatos e organização da vida política, cultural e econômica.

A era que o pós capitalismo anuncia está pautada em pelo menos três elementos: reflexividade, resiliência e compartilhamento. A reflexividade deriva das reflexões sobre a modernidade e os riscos produzidos pela sua própria dinâmica, melhorando a capacidade de entendimento coletivo e diálogo na resolução de problemas. Ser reflexivo também implica seguir padrões de conduta individual mais afinado com valores defendidos consensualmente pela sociedade. “Com o advento da modernidade, a reflexividade assume um caráter diferente. Ela é introduzida na própria base de reprodução do sistema […] A reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter. (GIDDENS, 1991, p. 45)”

A reflexividade dos cidadãos promove a melhor distribuição de renda e inclusão social, além de favorecer surgimento de espaços públicos democráticos e participativos. Enfim, uma sociedade no marco da modernidade reflexiva faz avançar a utilização inteligente das tecnologias que promovem o pensamento crítico e criativo (LÉVY, 1995). Neste sentido, muitas cidades na União Européia (UE), por ex: Madrid, Barcelona e Paris, estão revendo a forma de planejar os espaços urbanos, com restrição de veículos e gestão democrática de territórios voltadas para os cidadãos e seus direitos de mobilidade e consumo ordenado e sustentável.

A transição para o pós capitalismo também implica em reformar o pensamento cultural, impõe-se as condições objetivas e subjetivas em direção a uma cultura do desapego e menos consumista. Buscam-se formas e alternativas para garantir políticas que, ao contrário da manutenção do status quo, tem como orientação fundamental os pressupostos da resistência, superação e criação de outras identidades e agendas de .inovação cultural. Espaços culturais comuns que respeitem direitos sociais, opção sexual e credo religioso, além da livre manifestação de idéias e organização política, revela a fortaleza e empoderamento das sociedades no contexto civilizatório atual.

O design do modelo pós capitalista se reflete, de forma emblemática, na produção e distribuição de bens econômicos. A economia do compartilhamento, disseminada em muitas regiões do planeta, no meio rural e urbano, convergem para minar a finalidade do ganho material em grande escala. Esse paradigma busca aprimorar laços de segurança e bem estar coletivo, através da satisfação de necessidades e projetos de realização individual e familiar. Esse tipo de economia introduz novos valores e comportamentos voltados para o consumo responsável e solidário, onde não se busca a propriedade dos bens, mas uma maneira de produzir e consumir de forma racional, inteligente e sustentável.

A filosofia da economia do compartilhamento é avessa à acumulação de bens e vida perdulária. A economia do compartilhamento restabelece o sentido comunitário da vida em sociedade e aproxima atores que estejam sintonizados com princípios básicos de cidadania e pertencimento. Sites e experiências de ativismo digital cada vez mais se expandem no Brasil e vários países do planeta, convergindo para a formação de parcerias e alinhamento de idéias e projetos alternativos de cooperação e ajuda mútua.

Os tempos rígidos, fragmentados e burocráticos, no cenário que marcam a sociedade capitalista, passam a ser questionados e deixados prá trás nas sociedades modernas pós industriais. O mundo do trabalho no pós capitalismo, pressupõe a organização flexível da produção material e intelectual. A teoria do Ócio Criativo (MASI, 2017) forja uma surpreendente reflexão sobre as possibilidades de internalização de sentimentos e realizações no plano pessoal e coletivo, a partir de uma visão holística e sinérgica que a contemporaneidade oferece. “Hoje, porém, no trabalho e no tempo livre, a tecnologia e a informática absorveram quase todo o esforço físico e boa parte do intelectual, quando repetitivo. Tanto o trabalho (na indústria, nos serviços, nas profissões liberais) quanto o tempo livre (enquanto for dedicado ao cinema, à televisão, a leituras, viagens, jogos eletrônicos) implicam agora um envolvimento de natureza sobretudo intelectual, solicitam o cérebro, requerem flexibilidade e inventividade. O patrão não compra mais força bruta, mas exige pensamento e criatividade” (MASI, 2017: pag. 358).

Reflexividade, resiliência e compartilhamento são aspectos e fatores interconectados que moldam identidades, projetos societários e políticas públicas, no interior de rupturas e continuidades sistêmicas do capitalismo global. A crise multidimensional do capitalismo contemporâneo, no cenário deste maravilhoso mundo tecnológico/digital, está resultando em formatos e dinâmicas inovadoras (políticas, culturais e econômicas), abrindo espaços para a penetração e avanços de lógicas e processos de gestão, que gerem mais agregação de valor e corresponde inserção de pessoas ao processo produtivo (diminuição do desemprego) e menos assimetrias e desigualdades entre sociedades locais, países e continentes neste planeta.

Conclusão

As crises existem para serem administradas e superadas no horizonte dos novos desafios postos pela sociedade. Não se colocam problemas que não possam resolvidos ou gerenciados. A crise contemporânea deve ser compreendida como crise de modelos que já não respondem às exigências do mundo atual, sedento de democratização do espaço público e ampliação dos direitos de cidadania. Mais ainda, projetos e canais de participação, envolvendo múltiplos atores, que querem exercer um papel protagonista na definição das agendas locais e globais.

Revolução tecnológica, movimentos de resiliências plasmados pela modernidade reflexiva e a economia colaborativa nutrida pela lógica da fraternidade e compartilhamento, conformam a emergência do pós capitalismo numa época de grandes transições paradigmáticas. O capitalismo clássico está sendo depurado nas entranhas de saltos progressivos de outras relações sociais, cuja essência se constitui em propostas de governança sob a ótica de iniciativas inteligentes, criativas e sustentáveis.

Com efeito, já é possível ter uma percepção aguda e crescente de experiências em todo o planeta, que manifestam o inconformismo e, até mesmo revolta com os padrões hegemônicos de crescimento econômico, que não tem se traduzido em aproveitamento racional de recursos naturais, igualdade em termos e oportunidades e, sobretudo, manifesta-se predatório e ineficiente diante dos desafios de justiça social, uso inteligente dos bens econômicos e prudência ecológica.

Referências

BAUMAN, Z. (2007). A modernidade líquida. São Paulo: Zahar Editores.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Ed. Unesp, 1991.

IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2004.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência; o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo : Editora 34, 1995.

MASON, Paul. Pós capitalismo: um guia para o nosso futuro. Tradução José Geraldo Couto. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

MASI, Domenico de. Alfabeto da sociedade desorientada: para entender o nosso tempo.Tradução Silvana Cobucci. São Paulo: Objetiva.

MORIN, E. (2004). A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

SANTOS, M. (1998). A aceleração contemporânea: tempo-mundo e espaço-mundo. In: DOWBOR, I., IANNI, O., & RESENDE, P.E.A. (Orgs.). Desafios da globalização. Petrópolis, RJ: Vozes.

 Sobre o autor

Alberto Teixeira da Silva é Professor associado da Universidade Federal do Pará (alberts@superig.com.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Crise de Civilização e Pós-Capitalismo, por Alberto Teixeira da Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/07/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24688>.
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