Rússia: queixas do Ocidente, mas avanço geopolítico, por Virgílio Arraes

A ausência de entusiasmo na eleição presidencial pátria, a ocorrer dentro de poucos meses, reflete-se também no exterior, ao não despertar a atenção necessária para país de porte continental como o Brasil. De maneira residual, a chama trabalhista atrai vez ou outra observância dos meios internacionais de comunicação, em decorrência da incomum situação de sua liderança histórica de maior importância.

Afora isso, não se registram candidatos significativos até o momento ao Palácio – Casa seria mais apropriado em uma república de fato – do Planalto, a não ser quando comparados à capacidade política dos dois últimos dirigentes, frutos de uma coligação divorciada há meros dois anos de modo litigioso. Depois de bom tempo de harmoniosa convivência, a crise econômica prolongada e as investigações policiais atrapalharam o relacionamento das duas siglas entre si.

Na Rússia, a ratificação popular do nome do controvertido mandatário Vladimir Putin – antigo membro graduado do respeitado ou temido serviço de informação local (KGB) – para estar à frente do Kremlin por novo período implica encaminhar nos próximos anos a retomada do crescimento econômicoFOOTNOTE: Footnote e proporcionar à população a melhora dos indicadores sociais.

Outrossim, a vigilância – ou implicância – da comunidade internacional não arrefece, ao se aludir à realização do pleito presidencial de forma injusta ou desfavorável aos demais concorrentes. Ao contrário: ela se intensifica em alguns momentos do mandato do dirigente, ao ter em vista o desconforto da suposta atuação do governo moscovita fora de seu próprio território, ao punir seus oposicionistas com vigor, e a execução de política externa expansionista e, por conseguinte, de maior desembaraço, ao por de lado a executada durante a imerecida administração do desastrado Boris Yeltsin.

Diante disso, imputar ao atual presidente russo ou a sua gestão características estruturalmente negativas não tem sido incomum nos meios de informação ocidentais. Uma delas é atribuir-lhe o comando de extensa rede cleptocrática, ao ir além da afirmação da existência de regime com tintas autocráticas. Desta sorte, ele se assemelharia ao restante dos ditadores do Terceiro Mundo, delineados até de maneira folclórica – vide o caso dos do Cáucaso, oriundos da extinta União Soviética (URSS).

Para vergastar de modo firme seu governo, uma das fontes mais confiáveis de informes recentes origina-se da liberação dos denominados Documentos do Panamá, emergidos ao público no primeiro semestre de 2016 por vasta aliança de jornais – dezenas – de todo o globo – próximo da centena de países. São milhões de documentos, representantes de quase meio século de atividade de milhares e milhares de companhias.

Nessa profusa documentação, figurariam empresas vinculadas a pessoas do restrito círculo putinista. Um deles, músico clássico de formação, teria sido padrinho da filha do dirigente-mor e vincular-se-ia a diversos empreendimentos como banco, agência de publicidade e fábrica de veículos. Por outro lado, o nome do presidente não teria sido identificado na vasta documentação relacionada a investidores russos.

Não se pode esquecer de que muitos mandatários haviam sido envolvidos nas graves denúncias, entre os quais até os de países normalmente fora da consideração cotidiana de sítios, jornais ou tevês como a diminuta Islândia. Em função disso, a legitimidade das peças inventariadas no Panamá não tem sido questionada com sucesso.

Os fundos ilícitos atribuídos à esquisita agremiação presidencial moscovita supostamente proviriam em sua maioria dos lucros das operações da Gazprom, uma das duas principais corporações mundiais do setor de extração de gás natural. De forma curiosa, estes investimentos oriundos da alegada ilegalidade desse grupo político seriam de modo hipotético aplicados nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, por conta das garantias de sigilo.

Nos últimos dias de março, a Grã-Bretanha expulsou duas dúzias de diplomatas russos como retaliação a uma ação punitiva, ilegal saliente-se, a antigo servidor da área de segurança e a sua filha em território inglês – ambos teriam sido alvos da aplicação de arma química (gás nervoso) por determinação alegadamente do Kremlin.

A resposta de Putin à medida britânica seria mecânica, ou seja, a de retribuir com a mesma postura. Outros países se solidarizariam com a administração britânica e adotariam postura similar no tocante à defenestração de representantes moscovitas.

Diante disso, no entanto, as sanções não obstariam novas movimentações da Rússia, embaladas por nacionalismo redivivo – a Copa do Mundo a ser realizada entre junho e julho do presente ano reforçará tal posicionamento.

Bem adaptada a elite estatal russa à contemporaneidade do poder, acusam-na uns de frequentes incursões cibernéticas a suas contrapartes no arco norte-atlântico ou de disseminação de informações falsas ao redor do planeta contra governos adversários, com interferência até no derradeiro pleito presidencial nos Estados Unidos em 2016 em desfavor da candidatura democrata, encabeçada por Hillary Clinton.

Ademais, há a aproximação com a incontida China e a recuperação do território crimeu entre março e abril de 2014, transferido à Ucrânia durante a existência da União Soviética por Nikita Khruschov. Não obstante o afastamento de Kiev do convívio com Moscou, ao retirar-se da Comunidade de Estados Independentes, o Kremlin auferiu ganhos políticos com a ação simbolizada sob o bordão: a Crimeia é nossa.

Por último, o ingresso na guerra civil da Síria, ao reverter o resultado desfavorável ao ditador Bashar al Assad e, destarte, assegurar a continuidade do regime, atormentam potências euro-americanas, em especial os Estados Unidos, a despeito da simpatia inicial do também excêntrico presidente Donald Trump, da agremiação republicana mais reacionária.

Lembre-se de que o auxílio destinado à sustentação do longo regime baatista foi o primeiro fora da extensa área da antiga União Soviética. O êxito moscovita só se registrará caso o custo da presença em solo sírio não seja duradouro, nem custoso.

Recorde-se que em seus primeiros anos à testa do poder Putin aludia ao fato de o planeta atravessar fase de unipolaridade, sob marca estadunidense. Hoje, embora distante do ponto de vista econômico da vitalidade de Washington, Moscou consegue executar manobras externas de seu agrado, ainda que sob queixas ocidentais justificadas, desde que comprovada a autoria ou o apoio a elas – como exemplo, a recente acusação da utilização de armas químicas na confrontação civil da Síria por parte do governo de al Assad.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: queixas do Ocidente, mas avanço geopolítico, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/06/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24646>.
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