Acordo nuclear, fazendeiros da Europa e o agronegócio brasileiro, por Pedro Henrique de Souza Netto

No dia 08 de maio, Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã. Apesar de justificar seu movimento por preocupações de segurança, a ação do presidente norte-americano guarda fortes efeitos sobre o comércio com o país asiático. O Brasil, que exportou US$ 718 milhões para o Irã apenas neste ano (94% em produtos do agronegócio), pode ser especialmente prejudicado.

O acordo de 2015 entre Estados Unidos, países europeus, Rússia, China e Irã sempre teve impactos além da segurança. Apesar de focado em não-proliferação nuclear, o componente econômico sempre foi visível. Por um lado, o Irã se comprometeu a reduzir sua capacidade de processamento de urânio e permitiu que inspetores internacionais visitassem suas plantas. Em troca, Estados Unidos, União Europeia e as Nações Unidas retiraram sanções contra o país asiático.

Nesse sentido, teve especial relevância a suspensão de bloqueios financeiros ao Irã. Exemplos dessas medidas foram o fim da proibição de relacionamento bancário europeu e norte-americano com instituições iranianas, o fim de proibições à adoção de seguros (inclusive de crédito e garantias de comércio), e a autorização do fornecimento de dólares para o governo do Irã, por parte dos Estados Unidos. Com essas facilidades para o financiamento de exportações, o comércio entre países ocidentais e o país asiático tinha mais chances de acontecer.

De fato, o fim das restrições financeiras contribuiu para ampliar o relacionamento comercial entre produtores ocidentais e consumidores iranianos. O Brasil ampliou suas vendas de US$ 1,4 bilhão, em 2014, para US$ 2,6 bilhões no último ano, um crescimento de 78%. Mas, em valores, a grande beneficiária do acordo nuclear foi a União Europeia: empresários locais ampliaram suas vendas ao Irã de US$ 8,5 bilhões, em 2014, para US$ 12 bilhões, em 2017.

Por essa razão, é da Europa que vêm as principais críticas ao afastamento norte-americano. Em sua visita a Washington ainda no final de abril, o presidente francês Emmanuel Macron se esforçou para defender a manutenção do acordo. No dia seguinte à decisão de Trump, Macron anunciou que França, Alemanha e Reino Unido buscarão um acordo maior e mais amplo, que inclua também temas como a estabilidade do Oriente Médio e o regime de mísseis balísticos. Angela Merkel e Boris Johnson também se manifestaram a favor da manutenção de um acordo nuclear.

O sucesso europeu em manter algum tipo de acordo bancário com o Irã é chave para os exportadores brasileiros. Nenhum grande banco, brasileiro ou europeu, tomará o risco de ser impedido de acessar o sistema financeiro norte-americano para financiar exportações para o Irã. Em algum nível, isso já vem acontecendo: como resultado de termos contratuais com bancos norte-americanos, instituições financeiras brasileiras seguiram sem financiar o comércio com o Irã mesmo após 2015. De todo modo, um acordo que garanta que bancos europeus, principalmente aqueles menos expostos aos EUA, sigam operando junto ao Irã simplificaria a relação comercial entre Brasília e Teerã. A manutenção das filiais de bancos iranianos em território europeu pode ter efeito semelhante.

Nesse sentido, uma aliança improvável pode tomar lugar. Nos últimos vinte anos, algumas associações rurais europeias têm atacado de forma cotidiana a produção agropecuária brasileira, almejando impedir ou restringir um acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Hoje, produtores rurais dos dois lados do Atlântico podem perder em conjunto um mercado de até US$ 3,3 bilhões em receitas de exportação. Por outro lado, insumos agrícolas como fertilizantes iranianos são amplamente importados por agricultores europeus (US$ 14 milhões, em 2017) e brasileiros (US$ 22 milhões, em 2017). Neste momento, a posição dos produtores europeus de cevada e tabaco não deve ser muito diferente daquela dos produtores brasileiros de milho e carne bovina.

A atual conjuntura apresenta uma oportunidade para o fortalecimento da ação internacional brasileira. Na esfera governamental, uma ação coordenada com a da União Europeia poderia servir aos interesses comerciais do país. Já pela ótica do setor privado, a nova aplicação de sanções dos Estados Unidos ao Irã pode servir de ambiente para o avanço qualitativo do relacionamento entre produtores rurais brasileiros e europeus. Se os agricultores compartilham interesses também na esfera do comércio internacional, não há por que não trabalharem em conjunto.

Ainda é impossível precisar a amplitude dos impactos da última medida de Trump para exportadores brasileiros. As sanções norte-americanas serão aplicadas paulatinamente em até 180 dias, período em que a União Europeia pode acertar, junto aos EUA, um novo acordo com o Irã. Caso isso não ocorra, mas os europeus garantam que seus bancos possam negociar com o Irã, os impactos sobre as exportações brasileiras também tendem a ser reduzidos. Se, por outro lado, as novas sanções norte-americanas contagiarem também o sistema bancário europeu, o Brasil tende a retornar ao patamar de exportações de 2014. Nesse caso, o país ainda pode seguir exportando algo como US$ 1 bilhão, com financiamento de comércio por meio de mercados asiáticos. De todo modo, setores como fumo, celulose, soja e carne bovina – aqueles que mais cresceram no comércio com o Irã desde 2015 – tendem a ser prejudicados. Para evitá-lo, um bom primeiro passo é trabalhar com os europeus.

Sobre o autor

Pedro Henrique de Souza Netto é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB.

Como citar este artigo

Mundorama. "Acordo nuclear, fazendeiros da Europa e o agronegócio brasileiro, por Pedro Henrique de Souza Netto". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 19/08/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24609>.

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