Resenha do livro “The square and the tower: networks, hierarchies and the struggle for global power”, por Rogério Farias

O britânico Niall Ferguson é um dos intelectuais mais ativos no debate público da atualidade. Sua tese de doutorado, sobre a inflação em Hamburgo no entreguerras, contudo, não pressagiou a popularidade que teria na academia e no jornalismo. Isso mudou com sua prolífica produção, que abrange do estudo da casa bancária Rothschild à história financeira na modernidade, da eclosão da Primeira Guerra Mundial à história do sistema financeiro internacional, da biografia de Henry Kissinger à influência britânica no mundo moderno.[1] No meio de toda essa produtiva vida literária, atuou como consultor de uma firma de investimento e como colunista de jornais e revistas. Tornou-se, em 2004, uma das cem pessoas mais influentes do mundo; pertence, atualmente, à elite global que circula com igual desenvoltura tanto nos gabinetes governamentais de Pequim como nos estúdios da Califórnia.

Sua última obra, “The square and the tower: networks, hierarchies and the struggle for global power”, nasceu da sua reflexão pessoal sobre sua inserção em diferentes mundos sociais e ligação entre eles. O livro é divido em sessenta capítulos, distribuídos em nove partes. Os teóricos são claros e simples; os empíricos, instigantes.

Do ponto de vista conceitual, o autor apresenta três medidas relevantes para análise de redes sociais: degree centrality, betweeness centrality e closeness centrality. O primeiro indica o número de vértices radiando de um nódulo específico e é uma medida simples do número de relacionamento de um indivíduo; o segundo traduz o nível de relevância das conexões de cada participante da rede; o terceiro é uma mensuração da média de relacionamentos para que cada participante alcance todos os demais.

Utilizando esse marco conceitual, o argumento central de Ferguson é que durante séculos ocorreu um embate entre dois tipos de redes, uma mais vertical (ordens hierárquicas) e outra mais igualitária (redes distribuídas) – o quadrado e a torre do título referem-se à essa distinção, meramente analítica, um tipo ideal no modelo weberiano. É fascinante no livro como Ferguson utiliza sua prolífica arca bibliográfica para apresentar facetas relevantes do papel das redes na história moderna e contemporânea. Revemos, assim, os Rothchilds, a cúpula civil britânica, Kissinger e a elite política chinesa que sucedeu a era maoísta.

Em um mundo ligado a redes sociais virtuais 24 horas – Twitter, Facebook, Snapchat, etc. –, talvez uma das maiores lições do livro seja a demonstração de como os seres humanos organizam-se de tal maneira há séculos. Mas é aqui que começam os problemas. O primeiro, é a sua tese que os historiadores não são bons em reconstruir redes, em parte em decorrência de fontes tradicionais são oriundas de instituições hierárquicas, como Estados. Com isso, a comunidade de historiadores teria acabado ignorando redes sociais. Tal invectiva é longe de ser verdadeira. Primeiro, por ele próprio indicar que estruturas hierárquicas são igualmente redes. Segundo, pelo fato de a historiografia, ao longo do século XX, ter dedicado grande atenção a ligações formais e informais entre indivíduos conectados em redes, especialmente com a ascensão das ciências sociais na segunda metade do século XX. Do estudo da pequena nobreza francesa nas vésperas da Revolução Francesa ao movimento revolucionário russo, passando pelo grupo de intelectuais iluministas, há numerosos estudos da disciplina. Vários deles, inclusive, citados na bibliografia de Ferguson. Trata-se, portanto, de uma estratégia pouco justa e, infelizmente, comum na nossa área – criar a imagem de terra arrasada para elevar o perfil de uma obra.

Outra crítica é a falta de plausibilidade para o seu argumento de que redes informais tem usualmente relações ambivalentes ou hostis às instituições estabelecidas. O foco excessivo em movimentos secretos que buscam subverter ordens pré-estabelecidas certamente pode passar essa impressão, mas ela está longe de ser verdadeira. Trata-se, aqui, de um caso clássico de generalização com base em estudos de caso que representam a exceção. Associado a esse problema existe a confusa dicotomia entre redes e hierarquias, quando o próprio autor aponta que o último caso é um tipo especial de rede – os nódulos superiores nesse caso têm os maiores índices de betweeness e closeness centrality, concentrando a habilidade de certos atores de controlar a informação. A confusão ainda é maior por, de um lado, ele apontar ser falsa a dicotomia entre as duas categorias pelo fato de a maioria das redes ter quase sempre características hierárquicas, e, por outro lado, ser exatamente essa dicotomia explorada capítulo após capítulo.

O livro não deixa de ser, no entanto, leitura obrigatória, especialmente como ele ilumina eventos recentes. Para Ferguson, durante a década de 1970, ocorreu uma ruptura das estruturas de poder hierárquicas – ditaduras, multinacionais, redes de comunicação. A emergência do mercado como força organizadora da sociedade e a meritocracia como diretriz no recrutamento para as organizações fragilizaram as hierarquias tradicionais. Esse é o seu grande argumento, sendo bastante prescritivo (e otimista) em indicar como essa transformação reestruturou a sociedade moderna.

Referências

Ferguson, Niall. The house of Rothschild. New York: Penguin, 1998.

___________. The pity of war. New York, NY: Basic Books, 1999a.

___________. Virtual history: alternatives and counterfactuals. New York: Basic Books, 1999b.

___________. Empire: the rise and demise of the British world order and the lessons for global power. New York: Basic Books, 2003.

___________. The ascent of money: a financial history of the world. New York: Penguin Press, 2008.

___________. The shock of the global: the 1970s in perspective. Cambridge, Mass.: Belknap Press of Harvard University Press, 2010.

___________. Kissinger. New York, New York: Penguin Press, 2015.

___________. The square and the tower: networks, hierarchies and the struggle for global power. London: Allen Lane, 2017.

Sobre o livro

Resenha de FERGUSON, Niall. The square and the tower: networks, hierarchies and the struggle for global power. London: Allen Lane, 2017.

Sobre o autor

Roǵério Farias é pesquisador associado do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB.

Como citar esta resenha

Mundorama. "Resenha do livro “The square and the tower: networks, hierarchies and the struggle for global power”, por Rogério Farias". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/06/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24604>.

  1. Ferguson: 1998; Ferguson: 1999a; Ferguson: 1999b; Ferguson: 2003; Ferguson: 2008; Ferguson: 2010; Ferguson: 2015; Ferguson: 2017.

 

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