A reeleição de Putin e a Copa do Mundo na Rússia: uma ligação perigosa, por Fabiano Mielniczuk

No dia 18 de março de 2018, Vladimir Putin foi reeleito presidente da Rússia com mais de 76% dos votos válidos, em uma eleição que contou com a participação de 67% dos eleitores. Em comparação às eleições de 2012, Putin recebeu 12% a mais dos votos válidos em um pleito com comparecimento de 67,5% dos eleitores registrados. Ou seja: Putin recebeu mais votos, e mais eleitores participaram do pleito. Mesmo assim, a cobertura da imprensa ocidental parece conferir pouco crédito a esses resultados. Por quê?

Argumenta-se que as eleições foram fraudadas ou, o que se trata de uma acusação ainda pior, ocorreram em um ambiente não-democrático. Nesse sentido, fomos inundados com imagens dos mesmos eleitores votando em mais de um lugar de votação e de alegações de que Alexey Navalny, alçado pelo Ocidente como principal líder do oposição à Putin, teve a sua candidatura cassada pela comissão eleitoral. De fato, a Comissão Eleitoral da Rússia verificou denúncias de fraude e anulou os votos de 07 zonas eleitorais, mas alegou que as fraudes foram causadas intencionalmente por opositores de Putin, na tentativa de desacreditar as eleições. Um vídeo de um eleitor depositando duas cédulas na mesma urna viralizou na internet, e depois descobriu-se que ele havia sido forjado por uma ONG de oposição. Sobre Navalny, sua candidatura foi negada com base na legislação eleitoral russa, que prevê a proibição de candidatos que já tenham sido condenados na justiça – algo semelhante à nossa ficha-limpa. Navalny havia sido condenado por corrupção, em 2013, e alegou que sofria perseguição política. Não disputou as eleições por esse motivo e liderou um movimento de boicote. Como o número de participantes nas eleições aumentou, parece que perdeu a aposta.

Já as críticas mais robustas quanto ao funcionamento da democracia na Rússia se baseiam em dois pontos, a saber, na repressão à oposição e na estranha continuidade de Putin no poder. Na verdade, a narrativa ocidental insere essas peças em uma engrenagem de um círculo vicioso: a repressão à oposição cria as condições para a manutenção de Putin no poder e compromete a democracia russa na medida em que não há alternância entre os mandatários. Essa interpretação é falha, e não leva em consideração a aprovação superior a 80% de que desfruta o presidente Putin, atestada por pesquisas de opinião promovidas por centros independentes, como o Levada Center. A negligência desse dado, tão importante para se medir a legitimidade de democracias ocidentais, cumpre a função de esconder um outro personagem importante para se entender a “quase unanimidade” em torno de Putin. O próprio Ocidente.

Nos anos 1990, quando a Rússia buscou auxílio dos seus ex-inimigos da Guerra Fria para enfrentar um processo difícil de fragmentação política e transição para a economia de mercado, o Ocidente falhou tremendamente. Para alguns, o tratamento à Rússia assemelhou-se ao conferido à Alemanha após o fim da I Guerra Mundial. Um observador poderia inclusive encontrar sinais de que ele foi pior. Os russos não foram destruídos em uma guerra, assim como a Alemanha, o que tornava ainda mais difícil a aceitação de uma posição de inferioridade no cenário internacional. Ademais, a fraqueza econômica e a falta de legitimidade política do governo soviético que levaram ao fim do regime viera de dentro e, quando o Ocidente se propôs a ajudá-la, a Rússia só piorou. Seguindo o receituário do FMI e do Banco Mundial para reformar sua economia, os russos amargaram a pior crise da sua história. Isso enfraqueceu ainda mais o país e criou oportunidades para o Ocidente expandir suas instituições militares e políticas para o espaço de influência da antiga URRS. Dentro do país o modelo “democrático-liberal” passou a ser associado corrupção, sofrimento e degradação social. Fora, o grande culpado era o Ocidente.

Putin emerge nesse contexto, como uma alternativa de centro situada entre os nacionalistas radicais e os comunistas, de um lado, e os liberais ocidentalistas, de outro. Ao resgatar a auto-estima dos russos e reverter um processo iminente de fragmentação da Federação Russa, a figura do presidente ganhou contornos de “salvador da pátria”. Em termos de política externa, a Rússia passou a buscar seus interesses com flexibilidade e pragmatismo, estabelecendo como limite a defesa dos seus interesses nacionais – algo que parece não ter sido levado em conta no período de Ieltsin. A cada investida do Ocidente, a Rússia procura alternativas diplomáticas e, se for preciso, não descarta o uso da força. E a força usada contra os interesses do Ocidente, o grande malfeitor dos anos 1990, reforça sua popularidade. Eis o nexo causal que desapareceu das interpretações ocidentais sobre a Rússia.

Como os casos do Afeganistão, do Iraque e da Líbia evidenciam, autocrítica não é o forte das potências ocidentais. Todavia, no que tange à Copa do Mundo, existe um outro componente a ser considerado. Além de os resultados da eleição colocarem em risco os esforços para construir a imagem de Putin como uma liderança autoritária e manipuladora, o evento esportivo pode colocar em contato os cidadãos da Europa Ocidental e dos EUA com a história não contada sobre os motivos por trás da legitimidade de Putin.

Esse é o contexto que marca a relação perigosa entre a recente recondução de Putin ao cargo e a Copa do Mundo da FIFA. Após sua avassaladora vitória, restou ao Ocidente a radicalização. A tentativa de assassinato de um ex-epião duplo russo, que vendia segredos para o Ocidente, em solo Britânico, foi apenas o começo. Com isso, nível de tensão entre o Ocidente e a Rússia atingiu seu ápice. Com base na “probabilidade” de envolvimento da Rússia, diplomatas russos foram expulsos de países europeus e dos EUA e o mundo mergulhou em uma histeria antirrussa que fez transbordar a inimizade político-militar-diplomática para o mundo do futebol.

A agenda antirrussa é tão explícita que jogadores da Alemanha foram recentemente abordados por jornalistas com fotos de vítimas da guerra civil na Síria, “instruídos” sobre as atrocidades russas no leste da Ucrânia e ouviram relatos sobre as práticas de doping entre atletas do país. Depois de tal “abordagem jornalística,” tiveram de reconhecer a “posição difícil” de participar da Copa do Mundo. No dia 22 de maio de 2018, o Diretor Executivo da Human Rights Watch, Kenneth Roth, emitiu uma declaração solicitando que os líderes mundiais boicotem a abertura da Copa do Mundo como meio de pressão para que a Rússia mude sua política de apoio às ações militares de Assad na Síria. Desde o caso do envenenamento do ex-espião Skripal já circulavam rumores sobre possíveis boicotes por parte das delegações da Inglaterra, Austrália, Polônia e Japão. Se houver planejamento entre movimentos transnacionais e os governos Ocidentais, os realização do evento ser ameaçada.

De todo modo, o clima para realização da Copa do Mundo ainda pode piorar. Isso devido aos acontecimentos recentes no Oriente Médio. As agitações na Palestina após mudança da embaixada norte-americana em Israel para Jerusalém, acabando de vez com a possibilidade de uma solução negociada para o problema palestino ocorre simultaneamente à denuncia do Acordo Nuclear Iraniano pelos EUA. Em meio a uma nova intifada palestina, os Estados Unidos sinalizam que o acordo com o Irã não tem utilidade, o que pode ser visto como um sinal de encorajamento por parte de Israel para um ataque preventivo contra o Ira. Todavia, o dissenso entre os norte-americanos e os europeus em relação ao Irã aumenta a incerteza entre os atores. Como reagiriam os russos em caso de uma ataque israelense ao Irã? Será que Putin estaria disposto a trocar o Irã pela Ucrânia, o que fortaleceria ambos EUA e Rússia e enfraqueceria os Europeus? Ou será que uma reação forte dos russos contra Israel afastaria de vez Trump de Putin e aproximaria o presidente Russo dos seus vizinhos europeus?

Tantas incertezas trazem instabilidade para o momento no qual o mundo terá suas atenções voltadas para a Rússia. Frente a isso, resta torcer para que a política internacional dê uma trégua durante a realização do torneio e os acontecimentos fora do campo não afetem o desempenho dos atletas. E que venha o Hexa!

Sobre o autor

Fabiano Mielniczuk é Professor da ESPM-Sul (pmiel@gmail.com).

Como citar este artigo

Mundorama. "A reeleição de Putin e a Copa do Mundo na Rússia: uma ligação perigosa, por Fabiano Mielniczuk". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/10/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24594>.

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