As eleições mexicanas e o futuro das relações Brasil-México, por Luiz Eduardo Garcia da Silva

Apesar de se configurarem como as maiores economias Latino-americanas, Brasil e México historicamente não constituíram relações sólidas que permitisse a estruturação de uma aliança entre os maiores representantes regionais. O que desperta a atenção é a constatação de que ambos recorrentemente reafirmam o seu compromisso no aprofundamento entre os laços nacionais mútuos, mas tais ocorrências se restringem a declarações episódicas que rapidamente caem no esquecimento. Para que se possa compreender esse distanciamento é preciso avaliar os condicionantes que estão além da lógica puramente econômica e incluir variáveis políticas e estratégicas caras aos operadores de política externa de ambos os países. Nesse sentido, observa-se que por vezes Brasil e México disputaram o posto de representante legítimo dos países latino-americanos o que os levou por vezes a um antagonismo recíproco em algumas instâncias multilaterais e organismos internacionais (IVES e LIMA 2017). No caso do Brasil, o empreendimento efetuado foi no sentido de priorizar a construção de um espaço Sul-Americano cuja liderança brasileira seria quase natural haja vista a sua grandeza econômica, territorial e populacional e que pode ser ilustrada pela criação da UNASUL que no presente momento se encontra praticamente abandonada. O México também se fez presente na região ao vincular sua presença tanto no âmbito bilateral, através de acordos de cooperação, como multilateral quando da criação da Aliança do Pacífico, esta sim ainda em plena vigência. De modo que esse aparente distanciamento e falta de ações coordenadas entre os Estados não significaram desinteresse, mas antes um complexo jogo de movimentações buscando ampliar sua influência.

Se condicionantes políticos determinaram em parte o perfil sensível das relações Brasil-México as eleições presidenciais que se avizinham nos dois países propiciam algumas avaliações, ainda que na forma de conjecturas, sobre cenários e possibilidades futuras que por ora se apresentam. O presente artigo avalia apenas o cenário mexicano e como os resultados eleitorais daquele país podem provocar efeitos nas relações com o Brasil. Essa escolha se deve ao fato do processo eleitoral mexicano já se encontrar em andamento com a votação marcada para o dia 1º de Julho. Além disso, o fato das candidaturas já estarem homologadas, diferentemente do Brasil onde o processo está em sua fase inicial, permite a avaliação das plataformas eleitorais já disponibilizadas à apreciação dos eleitores o que permite uma avaliação mais efetiva do entendimento de cada candidato e sua respectiva proposta de política externa.

O cenário eleitoral mexicano apresenta 5 candidaturas presidenciais: Andrés Manuel Lopez Obrador do Movimiento Regeneración Nacional (MORENA); Ricardo Anaya do Partido de Acción Nacional (PAN); José Antonio Meade do Partido Revolucionario Institucional (PRI); e Margarita Zavala e Jaime Rodriguez ambos independentes. De acordo com a última pesquisa do “Barómetro Electoral Bloomberg”, realizado no dia 09/05/2018, o candidato Lopez Obrador (MORENA) liderava a corrida presidencial com 46.4% das intenções de voto. Anaya (PAN) tinha 28%, Meade (PRI) 17,8%, e os independentes, Zavala e Rodriguez com 3.9% e 2.8% das intenções de voto respectivamente.

De maneira geral, as plataformas eleitorais dos candidatos no que tange ao tema da política exterior destacam questões como: a defesa do multilateralismo, a renegociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA em inglês), a defesa e proteção dos mexicanos no exterior especialmente nos Estados Unidos, a diversificação de parcerias e aprofundamento da Aliança do Pacífico.

Em relação ao caso da América Latina (AL) especificamente, percebe-se que há certa preocupação com a presença do México na região, embora a ênfase seja dada aos países do Caribe e de fala hispânica. Os candidatos lançam mão do argumento de que a AL possui traços identitários e culturais que permitem uma inserção estratégica do México na região inclusive como forma de diversificação de parcerias. Já o Brasil e a América do Sul só são citados explicitamente por um candidato, José Meade (PRI), e mesmo assim não há nenhuma diretriz específica no direcionamento de alguma ação política planejada para a região. Por outro lado, com a exceção de López Obrador (MORENA), os candidatos citam a necessidade de aprofundamento da Aliança do Pacífico bem como de outras tratativas comerciais que não envolvem o Brasil como os acordos com a União Europeia e países da Ásia e Oriente Médio.

O cenário eleitoral e as perspectivas da política externa empreendida pelo México permitem algumas observações sobre o futuro das relações entre esse país e o Brasil. O cenário mais provável é o de manutenção do distanciamento vigente entre os dois Estados independentemente de quem saia vitorioso no pleito do dia 1º Julho. A questão que se impõe é qual o reflexo que uma vitória de Manuel López Obrador pode ter na presença do México no contexto sul-americano? Sua vitória seria emblemática pelo fato de ser um candidato reconhecidamente reformista, de centro-esquerda e que já explicitou sua intenção de reativar um posicionamento antigo da diplomacia mexicana de maior proximidade nas relações com Cuba. O interessante é que a coalizão eleitoral de López Obrador conta com mais dois partidos além da sigla do candidato, o PT – Partido del Trabajo de esquerda, e o Encuentro Social, uma sigla vinculada à direita ilustrando uma espécie de reformismo brando e limitado. Não à toa o candidato admitiu que buscaria renegociar os termos do NAFTA buscando vantagens para as médias e pequenas empresas mexicanas, mas que de forma alguma o revogaria.

O descasamento ideológico entre a possível vitória de um candidato de centro-esquerda no México e um cenário que apresenta poucas perspectivas de vitória de um governo de esquerda ou centro-esquerda no Brasil dará continuidade a um processo de distanciamento político entre as chancelarias. Durante o período que vigorou de 2000 até 2016 governos brasileiros e mexicanos não atuaram de forma conjunta buscando maior integração política nem mesmo econômica restringindo suas ações à dimensão comercial no âmbito dos Acordos de Complementação Econômica (ACE) nº. 53 (Brasil-México) e nº. 55 (Mercosul-México). Nem mesmo a instabilidade das relações EUA-México após o início do governo Trump chegou a sinalizar alguma mudança no padrão do comportamento da política externa brasileira frente ao México que poderia vislumbrar aí alguma oportunidade de inserção e aproximação. Por fim, sublinha-se ainda o momento de diminuição do protagonismo internacional do Brasil que, pelo menos por hora, privilegia uma atuação discreta objetivando ganhos comerciais em detrimento de projeção política externa.

 Referências

ANAYA, R. Plataforma del Frente. Disponível em: https://www.ricardoanaya.com.mx/plataforma-del-frente/recuperar-mexico Acesso em 15 mai. 2018.

BLOOMBERG. Barómetro Electoral Bloomberg. Disponível em: https://www.bloomberg.com/graphics/2018-mexican-election/espanol.html Acesso em 15 mai. 2018

IVES, Diogo; DE LIMA, Jéssica Delabari. O México na política externa brasileira de 2000 a 2012: entre o poder compartilhado e a competição. Conjuntura Austral, v. 8, n. 41, p. 12-25.

GARZA, A. R. Proyecto de nación 2018-2024. Disponível em: http://proyecto18.mx/ Acesso em 15 mai. 2018.

PARTIDO DE ACCION NACIONAL. El cambio inteligente: plataforma electoral 2018. Disponível em: http://repositoriodocumental.ine.mx/xmlui/bitstream/handle/123456789/95069/Plataforma%20PAN.pdf?sequence=1&isAllowed=y Acesso em 15 mai. 2018.

PARTIDO REVOLUCIONARIO INSTITUCIONAL. Proceso Electoral Federal 2017-2018: Plataforma Electoral. Disponível em: https://repositoriodocumental.ine.mx/xmlui/bitstream/handle/123456789/95064/Plataforma%20PRI.pdf Acesso em 15 mai. 2018.

ZAVALA, M. El Mexico que queremos. https://www.margaritazavala.com/el-mexico-que-queremos/ Acesso em 15 mai. 2018.

Sobre o autor

Luiz Eduardo Garcia da Silva é Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (luizeduardogarcia1@gmail.com).

Como citar este artigo

Mundorama. "As eleições mexicanas e o futuro das relações Brasil-México, por Luiz Eduardo Garcia da Silva". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 22/09/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24572>.

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