Rússia: a fixação da era Pútin, por Virgílio Arraes

A despeito do percentual do eleitorado comparecente às urnas – acima dos dois terços – e do resultado pessoal da votação do pleito presidencial do dia 18 de março – superior a três quartos – Vladimir Pútin é figura marcante da recente história global, embora divirjam muito as opiniões sobre sua atuação à frente do Kremlin.

Ele é o mais longevo líder da Rússia desde o temido Joseph Stálin, considerada a soma de seus mandatos, quer como presidente, quer como primeiro-ministro. Seu desempenho entre os votantes foi o melhor de todos os pleitos disputados, ainda que próximo do percentual da disputa de 2004.

Os comunistas, pouco depois do centenário da Revolução de 1917, atingiram doze por cento apenas e obtiveram a segunda (bem distante) colocação. A adversária mais ferrenha do atual dirigente mal ultrapassou o modesto índice de um e meio por cento, malgrado seu opositor de maior peso, Alexei Navalny, tenha sido impedido de candidatar-se por ser considerado ‘ficha suja’.

Por vezes, associam o ex-agente da KGB ao autoritarismo do citado Stálin, porém não à incompetência de Boris Yeltsin ou à mansuetude de Mikhail Gorbachev. Ele mesmo busca vincular-se a um nacionalismo redivivo – a recuperação da Crimeia em 2014, doada à Ucrânia em 1954, foi bastante lembrada.

No transcorrer do pleito, antagonistas mais severos questionaram a retidão do processo eleitoral – desde o período de inscrição à campanha – e alguns chegaram a advogar a boicotagem; no entanto, a sugestão não logrou êxito.

Ao ser entronizado em 1999 como chefe do governo da disruptiva e combalida administração de Yeltsin, de comunista a neoliberal com entusiasmo similar em poucos anos, ele alteraria de modo gradativo o compasso político da gestão moscovita: da ocidentalização subserviente ao nacionalismo aguçado, embora sem ruptura com o arco norte-atlântico, haja vista até a realização das últimas competições esportivas como a Copa do Mundo no presente ano.

Sem dúvida, quase vinte anos de poder a um dirigente significam deparar-se com a pátina do desgaste, de difícil remoção a uma geração de eleitores, porque em regimes democráticos a renovação é necessária, a fim de não enregelar o modelo, nem personifica-lo em excesso, como tem sido costume no país continental.

Nos Estados Unidos, por causa da vigésima segunda emenda constitucional, promulgada em fevereiro de 1951, ninguém poderá desfrutar do terceiro mandato na Casa Branca. Criticam uns a medida ao considera-la casuísmo, em função de a proposta ter sido apresentada após as quatro vitórias consecutivas do democrata Franklin Roosevelt por um parlamento em que os republicanos detinham a maioria.

Todavia, a forma aplicada no Kremlin desde o encerramento da Guerra Fria não se vincula com naturalidade aos padrões ocidentais de comportamento político. Uma possível causa seria a enfermidade precoce das agremiações em países onde não havia sua existência antes consolidada.

Isto seria o caso do próprio Brasil, onde as siglas partidárias se modificam ao ritmo sugerido não por preferência ideológica, porém por percepções mercadológicas a cada dois, três ou quatro anos lamentavelmente – a extinção da obrigatoriedade da letra P (artido) desaguou na composição de efêmeros fabordões, inspirados em movimentos expressivos, ao menos de maneira momentânea, da Europa ou da América do Norte.

Seus desafios, a despeito do tempo no comando, continuam significativos: o patamar médio de vida da população russa ainda é distante do dos demais europeus ocidentais. Se no campo militar encontra-se o país acima de seus vizinhos, com tecnologia equiparada à dos Estados Unidos, no restante, não. Suas principais exportações fundamentam-se no petróleo, gás e carvão – https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=33732.

Sua política exterior é bastante criticada, ao ser considerada pelos meios de comunicação tradicionais penetrante, ou seja, pouco afeita ao diálogo e ao respeito fronteiriço. Desta feita, citem-se dois exemplos:

O de maior impacto recente, representado pela a hipotética intromissão na última eleição presidencial norte-americana, na qual teria favorecido o polêmico candidato republicano, Donald Trump, e o de lembrança vívida, materializado na suposta participação de envenenamento de antigo espião – oficial superior do Exército – russo e sua filha na Grã-Bretanha no início de março – fato ocasionador da expulsão de dezenas de diplomatas moscovitas, acontecimento gerador, por outro, da defenestração de servidores de outras nacionalidades também pelo Kremlin.

Ademais, a intervenção decisiva no confronto civil da Síria, onde o extremismo religioso, via Estado Islâmico, aproveitou-se do desgaste da secular ditadura do Partido Baath e do entusiasmo disseminado pela Primavera Árabe, movimento no qual sociedades clamavam por democracia e liberdade de expressão, não continuidade do autoritarismo por outro revestimento, o governo Pútin renovou seu status de potência mundial e manteve a única base militar fora de seu território – Tartus advém de acordo assinado durante a Guerra Fria.

Antes do ingresso das forças armadas russas, o regime de Bashar al-Assad, a despeito do apoio do Irã, mesmo velado, e da milícia do Hezbolá, de extração libanesa, fragorava no campo de batalha diante das hostes fundamentalistas, animadas por milhares de estrangeiros e pelo auxílio, ainda que indireto, de Arábia Saudita e Estados Unidos.

Aos olhos de Damasco, os inconfidentes seriam meros representantes de grupos terroristas multinacionais; aos de seus adversários, os insurgentes seriam democratas ou nacionalistas, apesar do apoio externo – algo utilizado também pelos baatistas.

Encerrar a confrontação em breve desencadeará outra frente de batalha desproporcional, agora civil: a reconstrução da infraestrutura do devastado país e a recomposição da sociedade – estima-se o número de falecidos em meio milhão e o de deslocados em quatro ou até cinco milhões, equivalente a um quinto ou a um quarto da população.

Outro ponto inquietante sem esclarecimento: o tratamento a ser concedido aos derrotados. Qual a alternativa a ser subscrita comporá a mesa: a de se debater proposta de reconciliação, posto o estado da destruição do território, ou a aplicação sistemática de vingança.

Embora Washington insista em transição no poder no caso sírio, Moscou – e Teerã – não desejam tratar disso. No momento, a expectativa é como Pútin, renovado eleitoralmente, reagirá às contínuas retaliações de duas dúzias de países por causa da acusação de envenenamento do coronel russo em solo inglês.

Sobre o autor

Virgílio Arraes é professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (arraes@unb.br).

Como citar este artigo

Mundorama. "Rússia: a fixação da era Pútin, por Virgílio Arraes". Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais,. [Acessado em 18/10/2018]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/?p=24518>.

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